O barulho da porta se abrindo bruscamente ecoou no quarto, cortando a conexão como uma navalha. Kalel e Cássia se afastaram no susto, com seus corpos tensos, os olhos arregalados.
Na porta, parado como uma estátua de fúria, estava Natan, o irmão de Cássia. Seus olhos, normalmente doces, estavam injetados de raiva, e seu rosto, ainda jovial, contorcia-se em um grito selvagem.
— Vagabunda! p**a! Mentir.osa! Falsa! — ele começou a gritar, com a voz embargada pela dor e pela traição.
— Você é a mesma p*****a egoísta de sempre! Que só pensa em si!
As palavras cortavam o ar como lâminas afiadas. A cena, antes cheia de i********e e desejo, transformou-se em um pesadelo. Tudo aconteceu muito rápido. Natan, transtornado pela fúria, saiu do quarto socando e chutando tudo, com o som ecoando pela casa. O barulho de vidro quebrando. Ele havia destruído a televisão, o aparelho de som.
Cássia, em choque, levantou-se da cama com os olhos marejados de lágrimas. Pegou o primeiro tecido que viu, um vestido e o vestiu às pressas, m*l cobrindo o corpo.
— Kalel, vai embora! VAI EMBORA! — ela gritou, com a voz embargada, desesperada. Correu atrás de Natan, aos prantos.
Kalel ficou surpreso, atordoado. O choque do momento o congelou. Ele viu o irmão de Cássia, aquele garoto imaturo que ele havia encontrado na praia, transformado em uma fúria. A realidade do mundo de Cássia havia se chocado com a fantasia de sua paixão. Sem pensar, ele se vestiu rapidamente, foi pegando as suas coisas.
Ao sair da casa, Kalel viu Natan longe de bicicleta, pedalando furiosamente pela estrada de terra. Cássia estava voltando, com o corpo curvado, as mãos tremendo. Seus olhos, ao encontrá-lo, estavam vermelhos e inchados, e ela chorava transtornada, uma visão de dor que Kalel jamais esqueceria.
Kalel, ainda atordoado pela cena, deu um passo em direção a Cássia, tentando alcançá-la.
— Cássia, calma... — ele começou, com a voz baixa, buscando acalmá-la.
Mas a fúria dela era um furacão. Cássia passou por ele como um raio, com os olhos em chamas, com a dor se transformando em raiva pura.
— SAI! SAI DAQUI! — ela gritou, empurrando-o com as duas mãos, um ato desesperado para afastá-lo.
— Nunca mais, ouviu bem? NUNCA MAIS volte a me procurar! Eu te avisei! Eu te avisei!
As palavras cortavam o ar.
— Eu tenho família! Eu tenho uma reputação! — ela falou, com sua voz embargada pelas lágrimas e pela fúria.
Com uma rapidez impressionante, Cássia entrou na casa, com seus movimentos bruscos revelando o desespero. Ela começou a juntar as poucas coisas de Kalel que estavam espalhadas, uma peça de roupa que ele usou na noite anterior. Com um grito de raiva, ela jogou a mochila dele em cima dele, com o peso dos poucos pertences atingindo o peito de Kalel.
Sem dar a ele chance de reação, ela pegou o próprio celular. Seus dedos voaram pelo teclado, digitando várias mensagens com uma fúria silenciosa, tentando falar com o irmão, ou alguém que pudesse ajudá-la a lidar com o caos que ele havia, sem querer, provocado. A porta se fechou novamente, desta vez com um estrondo final, deixando Kalel sozinho, esmagado pela força da rejeição e pela magnitude da dor que ele havia testemunhado.
Kalel, com a mochila no chão, tentou uma última vez. A visão de Cássia transtornada e as palavras de Natan ainda ecoavam.
— Cássia, por favor, calma! — ele implorou, dando um passo em direção à porta.
— Natan é muito jovem, não entende a vida. Você tem o direito de viver, é muito nova para se fechar assim!
Mas Cássia já estava fora de si. Ela entrou no banheiro e bateu a porta com força, o som reverberando pela casa. Segundos depois, saiu, os olhos marejados, o rosto contorcido de fúria e dor.
— Você não é ninguém! — ela gritou, com a voz firme, apontando o dedo para ele.
— Com certeza não tem nada a perder!
Ela se aproximou, com o corpo tremendo de raiva.
— Entende uma coisa, Kalel! Você não me conhece! Não tem lugar pra você aqui! Na minha vida! Nem para t*****r!
Com as mãos, ela o empurrou, os toques bruscos e cheios de raiva.
— Pega suas coisas e vai embora! Some da minha vida! Nunca mais me procura!
Ela continuou a empurrá-lo, passo a passo, até a porta da sala. Kalel, chocado, recuava.
— Cássia, eu só quero te ajudar... — ele tentou dizer, com a voz baixa, buscando uma forma de explicar, de contar sobre sua vida em São Paulo, sobre quem ele realmente era.
Mas ela não quis ouvir. Não deu ouvidos a nada. Com um último empurrão, ela o colocou para fora da casa. A porta se fechou com um estrondo final, o som seco selando o fim abrupto daquela conexão intensa e inesperada. Kalel ficou ali, sozinho com o peso da rejeição esmagando-o.
Com a porta da casa de Cássia batendo em seus ouvidos e o gosto amargo da rejeição na boca, Kalel não teve outra escolha senão voltar para o resort. A euforia da noite anterior havia desaparecido, substituída por uma exaustão que ia além do físico. Assim que pisou na pousada, a "vida real" o chamou com força total. Mensagens urgentes e ligações perdidas de São Paulo inundavam seu celular. Precisavam dele, do magnnata, do homem que resolvia problemas.
Sem hesitar, Kalel agendou seu retorno para a tarde daquele mesmo dia, de helicóptero. A ilha, que por um breve período havia sido um refúgio e um palco para uma atração inesperada, agora parecia um lugar de dor e desilusão. Não havia mais tempo para divagações, apenas para a rotina implacável de seu império.
Enquanto Kalel voltava à sua realidade de herdeiro, Cássia mergulhava ainda mais fundo na dela. Com o corpo tremendo e a alma em frangalhos, ela se arrumou às pressas e saiu para procurar Natan. A primeira parada foi na casa de sua avó, esperando encontrar o irmão lá. Em vez disso, foi recebida com mais sermões e xingamentos, a avó, sem entender a profundidade da situação, apenas reforçando a culpa que já a consumia.
Com o coração apertado, Cássia ligou para o ex-padrtasto, o pai de Natan, contando que o irmão havia saído de casa nervoso e transtornado. Foi então que uma nova onda de choque a atingiu: ela soube que Natan e o pai já estavam planejando ir embora para outro país. E agora, depois da cena que ele presenciou, a decisão de Natan era inabalável; ele iria de qualquer jeito. A conversa com o ex-padrasto rapidamente descambou para uma discussão acalorada, adicionando mais lenha à fogueira de seu desespero.
Com a cabeça a mil, Cássia andou pela ilha toda, o sol a pino, a esperança diminuindo a cada passo. Procurou em todos os lugares que Natan costumava frequentar: a quadra, a praça, os amigos. Nada. O desespero se instalou. Sem sucesso, ela foi para o quiosque, a única coisa que lhe restava, tentando em vão fazer ligações para o celular de Natan, que dava sempre desligado.
O dia avançava, e o medo crescia. Foi então que um conhecido, que chegava da balsa, parou no quiosque, com a expressão pesarosa.
— Cássia… — o homem começou, com a voz cautelosa.
— Eu vi o Natan. Ele pegou a balsa. Chorando.
A notícia caiu sobre ela como uma rocha.