Cássia se viu novamente sozinha, com um vazio excruciante no peito. O carro de Kalel já não era mais do que um ponto distante no horizonte, levando consigo não apenas o homem, mas também os últimos resquícios de sua esperança. Ela estava no fundo do poço, um lugar de desespero que ela nem imaginava que poderia piorar.
Trabalhou o restante do dia na pousada, com o corpo movendo-se mecanicamente enquanto a mente açoitava-se com a traição e a humilhação. Cada sorriso forçado para os hóspedes, cada lençol limpo, era uma lâmina afiada em sua alma.
A noite em casa foi um tormento. Passou-a em claro, os olhos fixos no teto escuro, revivendo cada detalhe da noite anterior e da fúria de Natan. A culpa a esmagava, as palavras do irmão ecoando em sua mente. Ela se odiava por ter se entregue, por ter sido tão cega, por ter permitido que sua vida, já tão difícil, desmoronasse de uma forma tão devastadora.
No outro dia cedo, com a exaustão marcada no rosto, Cássia pegou a primeira balsa. A viagem foi um borrão. Chegou à casa do ex-padrasto com o coração apertado, esperando encontrar Natan. Mas o que a aguardava era um golpe ainda mais c***l.
Foi só então que ela soube: Natan havia sido atropelado. Ele estava no hospital, com a perna e o braço quebrados. A notícia a atingiu como um trovão, derrubando-a. O desespero se transformou em pânico, e a culpa, que já era gigante, explodiu em seu peito.
E para selar sua miséria, Cássia teve que ouvir. Do ex-padrasto e de toda a família dele. As palavras que cortavam sua alma como facas afiadas.
— A culpa é sua! — eles disseram. — Você é uma vagabunda!
— Que vive enfiando homem dentro de casa, sem se preocupar com a segurança do Natan!
Cada palavra era um veneno, cada acusação. Cássia, já em pedaços, via-se afundar ainda mais no abismo da dor e do remorso, sem ter forças para lutar contra as palavras cruéis que a condenavam.
A dor de Cássia se aprofundou. No hospital, ela só pôde ficar um dia. Natan, o irmão que era seu mundo, não queria vê-la. As palavras dele ecoavam em sua mente, mais dolorosas do que qualquer ferimento físico: ele a culpava, dizia que a odiava e tinha nojo dela. Cássia voltou para casa arrasada, com o coração em pedaços, a alma em frangalhos.
Ao contar à avó o que havia acontecido com Natan, a notícia foi um golpe quase fatal. A avó de Cássia, que era muito apegada no neto, não suportou a dor e o choque. Ela foi parar no hospital, e a situação de Cássia, que parecia não poder piorar, desceu ainda mais ao abismo.
Cássia teve que ser forte. Não havia tempo para desabar. Precisava ir à luta. Com o peso do mundo em seus ombros, ela colocou o quiosque à venda, a única coisa que lhe restava de sua pequena independência. Sofreu tudo calada, engolindo cada lágrima, cada acusação, cada dor. Os dias se arrastavam em uma rotina exaustiva, quase sem receber notícias do irmão, que se recuperava longe dela e ainda a rejeitava.
A vida, no entanto, guardava mais um golpe c***l. Os dias se passaram, e a avó de Cássia, já debilitada e abalada pela tristeza, passou m*l sozinha e faleceu em casa, enquanto Cássia trabalhava incansavelmente, cumprindo uma jornada de 12 horas na pousada, fazendo hora extra, na tentativa desesperada de juntar dinheiro para as despesas de Natan e para as novas dívidas que se acumulavam. A solidão de Cássia se tornou absoluta, e a culpa, um fardo insuportável.
Kalel havia retornado à sua rotina de luxo e conforto milionário em São Paulo. Reuniões intermináveis, decisões que valiam fortunas e a frieza de um império que aguardava seu comando. No entanto, por mais que estivesse imerso em seu mundo, a imagem de Cássia não o abandonava. O som do choro dela, a fúria de Natan, as p************s de rejeição, tudo ecoava em sua mente. Quase um mês depois, a inquietação se tornou insuportável, quando ele sentiu um perfume semelhante ao cheiro dela, em uma funcionária.
Aproveitando um feriado prolongado, Kalel decidiu que era hora de voltar à ilha. Desta vez, ele não levava apenas uma mochila com roupas de "turista pobre". Em sua mala, estavam suas roupas de passeio casuais, caríssimas, refletindo um Kalel que queria ser ele mesmo, mas também acessível. Ele se hospedou na mesma pousada.
Ele queria contar a verdade sobre sua identidade, levá-la para passear e, acima de tudo, ajudá-la financeiramente, para comprar seu perdão. Em sua mente, um mês seria tempo suficiente para que Cássia estivesse mais calma e tivesse resolvido a situação com o irmão. Ele estava pronto para consertar as coisas, esperando que a distância e o tempo tivessem abrandado a raiva dela.
Cássia estava mergulhada em um redemoinho de problemas. As dívidas se acumulavam como montanhas intransponíveis, e o vazio deixado pela perda da avó e pela distância de Natan a consumia. Ela já havia passado o quiosque adiante, um pedaço de sua vida que se foi para tentar cobrir os buracos financeiros. Todos os dias, ela estava entrando cedo no resort e saindo o mais tarde possível, exausta, mas com uma determinação ferrenha. Cássia sabia que não podia perder aquele emprego seguro de forma alguma; era sua única âncora em meio à tempestade.
Alheio à nova realidade de Cássia, Kalel chegou cedo à ilha ansioso. A paisagem paradisíaca parecia mais vibrante, e seu coração batia com uma mistura de ansiedade e esperança. Ele foi direto, guardou suas coisas e saiu apressado. Em suas mãos, não carregava apenas a expectativa de um reencontro, mas também um presente para Cássia: um litro de vodca importada pensando no drink que ela gostava.
Ele estava pronto para se redimir, para se abrir e para oferecer a ajuda que, em sua visão, ela precisava. Kalel foi direto para o quiosque, o lugar que havia marcado o início de tudo.