Kalel, com o rosto ainda marcado pela surpresa e pela dor da revelação de Cássia, caminhou lentamente até a pia, pegou um copo e o encheu com o licor de chocolate que havia trazido. Cássia o acompanhou com o olhar, com uma expressão de cansaço profundo em seu rosto.
Ela continuou a falar, com a voz um sussurro carregado de anos de sofrimento, enquanto os dedos mexiam nos legumes.
— Os amigos do Natan ficaram sabendo, e ele partiu para cima do professor, sem a menor chance. — Cássia fez uma pausa, com um suspiro pesado escapando.
— Enfim, ele ficou muito m*l, depois rebelde, começou a beber e fumar. Ele anda com um pessoal que apronta, roubam.
Ela ergueu o olhar para Kalel, com uma determinação sombria brilhando em seus olhos marejados.
— E pelo bem do meu irmão, da minha família, sinceramente, ficar sozinha não é nada demais.
As últimas palavras vieram com um golpe doloroso, revelando a profundidade de sua culpa.
— Minha avó faleceu sem falar comigo, porque o Natan foi atropelado depois de pegar a gente junto na cama.
Cássia silenciou, com o ar da cozinha pesando com a intensidade de sua confissão. A cada segundo de silêncio de Kalel, a irritação dela crescia, com a dor transformando-se em fúria novamente.
Kalel, com o rosto pálido e a alma pesada, sentou-se à mesa, encarando o copo de licor que girava entre seus dedos. O peso das palavras dela, a dimensão da tragédia em sua vida, o atingiram em cheio.
— Eu não podia imaginar o quão difícil sua vida era, Cássia. E sinto muito. — ele falou, com a voz séria, um tom que m*l era um sussurro.
— Trouxe essa garrafa de presente. Eu não tinha como saber da perda da sua avó, nem do acidente do Natan.
Cássia o olhou, com os olhos fulos, a raiva fervendo.
— Sei, entendo. — ela disse, com a voz cheia de irritação.
— E aí você achou que ia vir na minha porta bêbado, com um litro de bebida na mão, para repetir a dose, né? Para t*****r com uma mulher liberal, se divertir, bagunçar a vida dela e partir, sem olhar para trás.
Ela deu uma risada amarga, sem humor.
— Isso nunca mais vai acontecer, Kalel. Se é que realmente se chama assim.
Cássia voltou a se concentrar nos legumes, com um gesto de encerramento.
— Estou ocupada. Preciso fazer as coisas para vender na praia. E trabalhei doze horas hoje, a semana toda. Então eu não tenho tempo para você e a sua busca por diversão.
Kalel respirou fundo, com a vodca escorrendo por sua garganta enquanto ele bebia metade do copo de uma vez. A frieza e a dor nos olhos de Cássia eram um golpe, mas ele não podia desistir.
— Eu posso te ajudar, Cássia. — ele disse, com a voz séria, olhando-a fixamente.
— Eu ia contar antes, estava esperando o momento certo.
Cássia parou o que estava fazendo. Seus olhos céticos e cansados fixaram-se nos dele, uma mistura de descrença e uma ínfima ponta de curiosidade falsa.
— Como você poderia me ajudar? — ela perguntou, com a voz sem emoção, desafiadora.
Kalel sentiu o peso do olhar cético de Cássia, mas a pergunta dela abriu a porta que ele tanto desejava. A hora de esconder havia terminado. Ele pousou o copo na mesa com um leve baque, a garrafa ainda intacta ao seu lado, e a olhou diretamente nos olhos.
— Eu não sou apenas um turista, Cássia. — ele começou, com a voz séria, sem a leveza de antes.
— Eu sou Kalel Akello. O nome talvez não te diga nada aqui, mas em São Paulo… eu sou um empresário, minha família é muito bem-sucedida. Vim para a ilha, para fazer negócios no bairro onde você mora e trabalha.
Ele fez uma pausa, observando a reação dela, que permanecia imóvel, com os olhos arregalados em choque.
— Quando eu vim para cá da primeira vez, eu queria um tempo, um anonimato. Precisava de um lugar para simplesmente ser eu mesmo, sem o peso do meu sobrenome ou da minha fortuna. Por isso a mochila velha, as roupas... Eu queria me desconectar. E aí te encontrei.
Kalel se inclinou ligeiramente, a intensidade em seus olhos não vacilava.
— Eu soube do seu quiosque, do seu irmão, da sua avó. Eu sei o que aconteceu. E sei que você está afundada em dívidas e que está trabalhando exaustivamente aqui. Eu posso resolver isso. Posso pagar o tratamento do Natan, o que for preciso. Se ficar comigo, quando eu vier para cá.
— Posso até te dar uma casa nova, posso resolver suas dívidas. Posso ajudar vocês. Posso fazer com que você não precise mais trabalhar 12 horas por dia, se não quiser.
Ele estendeu a mão, não para tocá-la, mas em um gesto de oferta.
— Eu não vim aqui para me divertir e ir embora. Eu te procurei porque não consegui parar de pensar em você. O que vivemos, por mais breve que tenha sido, foi real para mim.
— Eu te enganei sobre quem eu era, e por isso peço desculpas. Mas o que senti por você, a atração, a conexão, isso é verdade. E agora que sei de tudo o que você passou, eu quero te ajudar.
Kalel pegou o copo novamente, com sua mão firme.
— Cássia, eu tenho meios para te tirar de toda essa situação. Para dar uma vida melhor para você e para o Natan. Eu só preciso que você me aceite. Nem vou vir sempre para cá, tenho muito trabalho, uma rotina exaustiva, muitas viagens, você só precisa estar disponível, para estar comigo quando eu quiser vir para cá.
Cássia o olhou, com as lágrimas escorrendo sutilmente pelo rosto, mas não eram lágrimas de tristeza apenas; eram de decepção profunda. A verdade, por mais que trouxesse a promessa de ajuda, veio carregada de uma manipulação que ela não podia ignorar.
— Vá embora, Kalel. — ela disse, com a voz quase um sussurro, mas firme.
— E não volte mais a me procurar.
Kalel, no entanto, não captou a profundidade da mágoa dela. Seu próprio senso de culpa e a urgência de "resolver" a situação o cegavam.
— Cássia, agora não é hora de ser orgulhosa. — ele insistiu, com a voz embargada pela ansiedade e um pouco pela bebida.
— Eu me sinto culpado por tudo isso, e eu só quero ajudar. Para mim, financeiramente, ajudar você não vai significar nada, porque eu sou realmente muito bem-sucedido. Você tem que aceitar. Tem que colocar a vida em ordem.
O modo como ele falava, sem medir as palavras, a forma como sua "ajuda" era imposta, começou a ofender profundamente a dignidade de Cássia. Ele estava bêbado, ansioso, desesperado para ser o salvador que, em sua mente, ela precisava. No entanto, seu ego e arrogância, impulsionados pela culpa e pelo álcool, não o deixavam ver o óbvio: Cássia não era uma mulher à venda, não era um problema a ser resolvido com dinheiro, e sua dignidade valia mais do que qualquer fortuna. Ela não era uma peça em seu jogo de xadrez financeiro.