Capítulo 8

1062 Words
Naquele momento, Kael se permitiu viver um dia falso. Ele não era mais o homem amargurado, o empresário implacável. Era um turista sem dinheiro, um trabalhador braçal desajeitado, um personagem. E isso estava mexendo com o senso de realidade dele. Pela primeira vez em muito tempo, a perspectiva de um dia inteiro sem a pressão de seu império, apenas fingindo ser outra pessoa e se divertindo com isso, era quase libertadora. Ele estava pronto para atuar em sua própria peça, para se divertir com a farsa, mesmo que por apenas um dia. Enquanto Kael se transformava no "turista" de bermuda jovial, o caos se instalava na sua casa. Seus pais estavam desesperados. A ausência dele após a noitada era um mistério que o motorista não podia ignorar. Incapaz de fazer contato, e quando não o encontrou, começou a se preocupar. Saiu para passear e o procurava desesperado, com medo de algo r**m ter acontecido. Com a manhã avançando e a situação das comunicações ainda crítica, a busca por Kael era intensa, metódica e cheia de uma ansiedade crescente, mas ninguém jamais pensaria em procurá-lo no quiosque de praia. O sol da manhã já estava mais forte quando Kael, com sua nova "farda", voltou para o quiosque de Cássia. Ela já estava a postos, com as mãos na massa, reorganizando o que podia e começando a preparar as primeiras porções, um aroma tentador de peixe fresco e temperos começando a se espalhar. Mandou Natan no mercado e falou: — Muito bem, Kael! Mãos à obra! — Cássia anunciou, apontando para uma pilha de mesas e cadeiras de plástico sujas. — A gente precisa montar tudo antes que o povo comece a chegar. Meu irmão contou que você ficou com ele ontem, ajudando. Obrigada e desculpe por qualquer besteira que ele tenha falado. Kael disse que Natan apenas conversou bastante e reclamou da vida que levava. Com uma determinação incomum para alguém que nunca havia feito trabalho manual, Kael atacou as mesas e cadeiras. Ele as limpou com um pano úmido e as organizou na areia, não sem alguma dificuldade e desajeitamento. Algumas cadeiras balançavam, e uma mesa teimava em ficar torta, mas ele persistiu, suando sob o sol que se intensificava. Com as mesas minimamente prontas, ele foi "humilhado" com o guarda-sol. Cássia começou a fritar os primeiros petiscos. O cheiro de camarão e iscas de peixe recém-fritas pairava no ar, e alguns clientes, atraídos pelo aroma e pela curiosidade de ver o quiosque reabrindo, começaram a se aproximar. — Leva essa bandeja aqui para a mesa cinco! — Cássia instruiu, empurrando uma bandeja cheia de porções quentes e cheirosas para Kael. Kael pegou a bandeja, sentindo o peso e o calor. Ele tentou equilibrá-la com a mesma desenvoltura que via os garçons em seus restaurantes chiques, mas a areia fofa sob seus chinelos era uma armadilha. Deu o primeiro passo em direção à mesa e… A bandeja tombou, e todo o seu conteúdo, camarões empanados, batatas fritas crocantes e iscas de peixe douradas, desabou na areia. A porção, que representava uma parte significativa do faturamento das primeiras vendas, estava completamente perdida, misturada à sujeira da praia. Kael ficou parado, em choque, com os olhos arregalados de vergonha. Seu rosto, antes com um brilho de diversão com o "personagem", agora corou intensamente. Ele, o homem que comandava milhares de funcionários, havia acabado de derrubar a primeira e mais importante bandeja do dia de trabalho. Cássia soltou um suspiro exasperado. — Ah, não! — Ela correu até a bandeja, balançando a cabeça em frustração. — Pelo amor de Deus! Já não basta o temporal, agora você! Kael sentiu uma vontade imensa de sumir. Tentou se desculpar, mas as palavras não saíam. Ele queria tanto fazer certo, queria provar para ela (e para si mesmo) que podia ser útil. O restante da manhã não foi muito melhor. Ele trocou pedidos entre as mesas, entregando porção de camarão para quem pediu peixe, e vice-versa. Derrubou alguns copos de suco, cerveja, levou algumas broncas baixas de Cássia e causou uma pequena confusão na contabilidade dos pedidos. Sua coordenação motora para o trabalho de garçom era inexistente. A cada erro, a vergonha crescia, mas, surpreendentemente, também uma teimosia. Ele não desistiria. Cássia precisava daquele apoio, e ele havia se comprometido. Com o suor escorrendo pelo rosto, os músculos doendo e a mente tentando se adaptar a uma lógica completamente diferente da sua, Kael deu o seu melhor. Um "melhor" desajeitado e cheio de desastres, mas um "melhor" que, pela primeira vez em muito tempo, era desprovido de qualquer intenção de lucro ou controle. Ele estava ali, tentando, e isso, por si só, era uma revolução em sua vida. A manhã caótica de Kael como garçom desastroso chegou ao seu limite. Cássia, vendo a pilha de pedidos errados e a areia cheia de comida derrubada, parou abruptamente. — Chega! — ela falou, com a voz exausta. — Você é um desastre como garçom! Vem para cá! Ela apontou para o balcão. — Fica nos drinks. É só misturar, não tem erro. Cerveja, você viu como faz. E eu vou para a pousada, Natan servir as mesas. Não tem como piorar, né? Kael, aliviado por ser removido da função de "garçom desastrado", aceitou a nova tarefa. E para surpresa de Cássia, e talvez dele mesmo, Kael parecia ter encontrado seu nicho. Com a desenvoltura de um exímio vendedor, ele começou a bater papo, quase coagindo os clientes a completarem os pedidos com mais coisas, começou a inventar drinks com os poucos ingredientes disponíveis, dando-lhes nomes exóticos e ridículos. — Atenção, galera! Venham provar a caipicana! A bebida que te faz esquecer todos os seus problemas! O copo é vinte reais! Só hoje! — ele gritava, com uma energia que ele nem sabia que possuía. Seu charme inusitado e a estranha confiança com que misturava as bebidas começaram a atrair a atenção. Os jovens estavam adorando receber um drink diferente, feito na hora. Uma fila começou a se formar no balcão, pessoas rindo das suas "promoções" falsas e curiosas para provar os tais "drinks". Kael, o magnata, estava no seu elemento, vendendo, convencendo, hipnotizando. E Cássia, que passou horas se perguntando o que aquele homem desajeitado fazia lá sozinho na ilha, começou a achar que ele era a solução para seus problemas, pelo menos alguns deles. Natan mandou mensagens contando tudo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD