Capítulo 9

1228 Words
Cássia, por outro lado, correu o dia todo na pousada. Ia e vinha entre a cozinha e os quartos. Ela estava exausta, com os músculos doendo, mas o dinheiro estava entrando, e isso era tudo que importava. O quiosque estava muito movimentado, e por um milagre, estavam vendendo. Natan manteve a irmã informada. No final da tarde, com o sol se pondo e a festa na praia ganhando força, Cássia foi para o quiosque. Chegou no balcão e parou, incrédula. Kael, o seu novo "empregado", estava rindo alto, com o braço em volta do ombro de um cliente, e bebendo junto com eles, com um copo de caipicana em sua mão. Ele estava vendendo, sim, mas também estava consumindo, rindo, se divertindo com os clientes, como se fosse um deles. A cena era inacreditável e, para Cássia, a comprovação de que ele era um completo irresponsável. Natan estava curtindo junto e ainda beijando uma menina quando a irmã chegou. Cássia se aproximou do balcão, com a exaustão se misturando à crescente irritação. Ver Kael bebendo e confraternizando com os clientes enquanto ela se desdobrava entre o quiosque e a pousada era a gota d'água. — O que você pensa que está fazendo, hein? — ela perguntou, com a voz baixa e controlada, mas com um tom ameaçador. — Eu estou aqui correndo feito louca, e você está bebendo e batendo papo? Seu trabalho é vender, não participar da festa! Natan e você? Kael, com um sorriso largo e um brilho nos olhos que ela não havia visto antes, se virou para ela, com o copo na mão. Ele parecia completamente alheio à sua irritação, imerso em sua própria diversão. — Ah, Cássia! Você chegou na hora certa! — ele exclamou, com uma energia contagiante. — Você precisa provar! Eu criei um drink especial. Exclusivo do Quiosque da Cássia! Ele pegou um copo limpo e começou a misturar ingredientes com a destreza de um barman experiente. — O nome é cassicana! — Kael anunciou, com um floreio. — E foi inspirado na mulher mais linda e simpática da ilha. Cássia arqueou uma sobrancelha, cética, e a irritação foi substituída por uma ponta de curiosidade. — Mulher mais linda e simpática da ilha? — ela repetiu, desconfiada. Kael a olhou nos olhos, com a intensidade do seu olhar, mesmo com o álcool, a pegou de surpresa. — Sim. Você, Cássia. Este drink é uma homenagem à sua força, à sua beleza, à sua resiliência. É uma bebida com cachaça e caldo de cana que aquece por dentro e adoça a vida. Dizem que ela é tão poderosa que pode adoçar até o homem mais amargo da ilha. Quer provar? Ele estendeu o copo recém-preparado para ela, com um sorriso confiante em seus lábios. Cássia hesitou, dividida entre a raiva e a estranha fascinação por aquele homem que era um barman desastrado e, agora, um galanteador ousado. Cássia pegou o copo da mão de Kael, ainda com uma ponta de desconfiança, mas a curiosidade venceu. Levou o copo aos lábios e deu um pequeno gole. O sabor a surpreendeu. Ela piscou e, então, um sorriso genuíno e contagiante se espalhou pelo seu rosto. — Uau! — Ela exclamou, e uma risada leve e cristalina escapou de seus lábios. — Isso é… bom! Muito bom! Eu não esperava. Espero que esteja cobrando o valor certo da minha pinga. Kael, que estava bebendo seu próprio cassicana com um sorriso misterioso nos lábios, observava a reação dela com satisfação. O sol já começava a se despedir no horizonte, pintando o céu em tons de laranja e roxo, e o movimento no quiosque diminuía. Natan saiu às pressas para ir pegar a balsa e ficar na casa de uma tia, ele não era responsável e nem queria trabalhar, mesmo que o sustento viesse de lá. Cássia ajeitou tudo, com um último gole do drink, e entrou no quiosque. Voltou com o dinheiro na mão e o estendeu para Kael. — Aqui. — Ela disse, com a voz mais suave agora. — Você me ajudou muito hoje. Mais do que eu esperava. Nunca posso contar com meu irmão. Desculpa, mas não posso dar mais, e você comeu aqui, pegou o dinheiro do banho. Kael pegou o dinheiro, mas seus olhos estavam fixos nela. Aquele sorriso misterioso não desaparecia de seu rosto. — Eu não vou esquecer. Nunca! — Ele disse, com a voz baixa. — Foi um dia e tanto. Ele ergueu o copo, com o líquido escuro refletindo o brilho das luzes. — Quero me embebedar de você. — Ele acrescentou, a frase saindo como um sussurro atrevido, mas com uma doçura inesperada. — Com todo o respeito, claro. cassicana. Cássia riu, uma risada que encheu o ar e revelava a alegria de ser galanteada de uma forma tão inusitada. O cansaço do dia parecia ter se dissipado, substituído por uma leveza e uma ponta de diversão. — Você já deve estar bêbado. E às minhas custas. — Ela retrucou, com o rosto iluminado por um sorriso. — Você fala demais! Ela olhou para o céu escurecendo e para o mar, e um suspiro de realidade escapou dela. — A internet voltou, Kael. — Ela disse, com um tom de resignação em sua voz. — E tudo vai voltar a ser como antes. Amanhã teremos os clientes esnobes, pão-duros. A rotina de sempre. Preciso falar com o meu irmão. Quer a senha do Wi-Fi? A frase dela, a constatação de que a magia daquele dia improvisado estava prestes a se desfazer, pairou no ar entre eles. Kael, no entanto, manteve o sorriso misterioso, como se soubesse de algo que ela ainda não. — Ah, perdi meu celular, ontem. E você, deve ter com quem conversar, tem namorado? Ela o olhou com deboche, e arqueou as sobrancelhas. — Só preciso falar com o meu irmão. Kael não se importou com a volta à realidade que Cássia anunciava. Ele ainda mantinha o sorriso enigmático, com os olhos fixos nela. A ideia que lhe surgiu era um lampejo de sua própria extravagância, adaptada à nova realidade. — Com o dinheiro que você me pagou hoje. — Kael disse, com a voz cheia de uma confiança que beirava a insolência. — Eu quero te levar para jantar. Em um lugar bom. O que você acha? Cássia o olhou, primeiro com descrença, depois com um acesso de riso incontrolável. Ela riu tanto que teve que se apoiar no balcão, com as lágrimas escorrendo pelo rosto bronzeado. — Ah, que proposta irrecusável! — Ela conseguiu dizer entre as gargalhadas, apontando para ele. — Me dá um drink desse seu cassicana, por favor! Eu realmente preciso desse seu otimismo! Você está bêbado. Ela enxugou uma lágrima, com a risada ainda debochando dele. — Você não tem nada! Olha para você! Com essa roupa, e quer gastar seu dinheiro comigo? O único dinheiro que você tem? Sinceramente, não vale a pena. Ela balançou a cabeça, com a diversão se misturando com uma pitada de exasperação. — Pare com isso, sério. Eu estou quase te dando um papelão para você se cobrir e dormir aqui de novo, e você vem me oferecer um jantar? Pelo amor de Deus! De repente, ficou séria, pensativa. — Posso te fazer uma pergunta? Você tem problemas com álcool? Por isso está aqui só com a roupa do corpo?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD