Capítulo 10

1124 Words
Kael ignorou as risadas e a incredulidade de Cássia. Ele pegou os ingredientes do "cassicana" e começou a preparar mais um, com a mesma confiança de antes. O sorriso misterioso voltou aos seus lábios, e a diversão em seus olhos aumentou. — Não. Eu nem bebo. — Ele disse, com a voz mais baixa e séria agora, com o álcool dando-lhe uma coragem incomum para a verdade. — Cássia, escuta. Vamos fingir que eu tenho boas condições. Muito boas. Escolha qualquer lugar aqui na ilha, qualquer restaurante. Eu te levo. Ele a olhou diretamente, com a intenção em seu olhar inconfundível, e piscou com malícia. Cássia o encarou por um momento, e então, uma nova onda de risadas a atingiu. Ela dobrou-se sobre o balcão, rindo com tanta força que m*l conseguia respirar. — Kael! — ela conseguiu dizer, entre as gargalhadas. — É melhor você parar de beber esse seu "cassicana"! Já está delirando! Boas condições? Com a roupa do corpo! Também não tenho o hábito de beber. E esse seu drink, está muito forte. Ela balançou a cabeça, secando os olhos marejados de tanto rir. Era claro que ela não o levava a sério, nem por um segundo. A piada, em sua mente, era que aquele homem "pobre" e desastrado estava tentando bancar um cavalheiro. Kael, vendo a reação dela, não conseguiu evitar. Ele também caiu na risada, um som sincero que ecoou pelo quiosque. Ele estava prestes a insistir, a revelar tudo, a contar quem realmente era e o quão absurda era a situação. A frase "eu tenho milhões" estava na ponta de sua língua. Mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Cássia o interrompeu, com um sorriso gentil e um brilho caloroso nos olhos. — Quer saber? — Ela disse, com uma voz mais suave agora. — Vou fazer lasanha a bolonhesa hoje. Quer jantar na minha casa? De graça! E também, pode tomar banho. Kael, com a revelação prestes a escapar, sentiu as palavras de Cássia como uma âncora que o prendia àquela nova e inesperada realidade. De euforia. Jantar. Na casa dela. A oferta era tão genuína e despretensiosa que o fez engolir o orgulho e a verdade. Era um convite para o mundo dela, um mundo que ele estava começando a descobrir. — Aceito! — Kael disse, com um sorriso que ia além da embriaguez, um sorriso de aceitação, despontando em seus lábios. Ele decidiu que o segredo permaneceria guardado por enquanto. Pensou que estava fedendo a suor e arriscou: — Você… tem outra roupa? Para me emprestar? Cássia riu, uma risada que o fez sentir-se estranhamente à vontade. — Pra quê? A gente está na praia! — Ela balançou a cabeça, mas então suavizou a voz. — Mas sim. Tenho. Enquanto começavam a fechar o quiosque, uma tarefa que Kael, com sua nova experiência, executava com um pouco mais de destreza, ela perguntou: — E de onde você é, afinal? Você não tem cara de ser daqui da ilha. E não tem perfil de mochileiro. Kael hesitou por um breve instante, buscando a versão mais simples e crível de sua história. — São Paulo. Sou de São Paulo. — Ele respondeu, com a voz carregando a melancolia sutil de quem está longe de casa. — Estou… de férias. Cássia o olhou, e um brilho de compreensão, ou talvez apenas de curiosidade, surgiu em seus olhos. — Férias, é? Pelo jeito, suas férias não estão sendo muito relaxantes. — Ela deu um sorriso. — Mas que bom que você veio para a ilha. E que bom que a gente se encontrou. Meu irmão não quer me ajudar. E eu não posso pagar a diária para ninguém. Kael, que estava guardando um guarda-sol com mais facilidade do que pela manhã, sentiu um calor inesperado no peito. Aquele dia, que começou com frustração e humilhação, estava terminando de uma forma que ele jamais poderia ter previsto. Ele estava sem dinheiro, sem comunicação, com um dedo machucado e usando roupas de adolescente, mas estava prestes a jantar na casa de uma mulher que, em poucas horas, havia virado seu mundo de cabeça para baixo. E ele não contaria mais nada, pelo menos não por enquanto. Queria se aproximar dela e a conhecer, sem ela saber de toda a verdade. No caminho para a casa de Cássia, a noite já havia abraçado a ilha. O som do pagode da praia diminuía à medida que se distanciavam, e a escuridão era pontuada. Kael, com as roupas de Natan e o chinelo arrastando, sentia-se estranhamente à vontade, com o álcool e o cansaço desarmando suas defesas. Cássia, ao seu lado, caminhava com passos firmes, e a conversa fluiu naturalmente. A princípio, Kael esperava ouvir mais da irritação e da resiliência que ela havia demonstrado, mas à medida que o caminho avançava, ela começou a se abrir. — Sabe, Kael… minha vida nunca foi fácil. — Ela começou, com a voz um pouco mais suave, tingida de uma melancolia que ele não havia percebido antes. — Eu fui… saco de pancadas da minnha mãe. Meu padrasto era um traste. Bêbado, agressivo. E quando eu mais precisei, com o Natan pequeno, ele simplesmente foi embora. Abandonou a gente. Minha mãe sumiu no mundo. Tive que amadurecer muito rápido. Kael sentiu um aperto no peito ao ouvir a história dela, um contraste brutal com a sua própria, de sua vida com falta de emoção, não por violência e abandono. — Desde então, sou eu por eles. — Ela continuou, com a voz um pouco mais forte agora, com a determinação voltando. — Cuido da minha avó, que é idosa e tem alguns problemas de saúde. E do Natan, claro. Nunca tive tempo r**m para trabalhar. Sol, chuva, tempestade… se tem serviço, eu estou lá. É o que eu sei fazer, é o que eu preciso fazer. Ela suspirou, olhando para as estrelas que começavam a aparecer no céu límpido da ilha. — Eu amo morar aqui. Apesar de tudo. É a minha casa, a casa da minha família. Mas é difícil, sabe? A gente vive do turismo, e quando a coisa aperta, como nessa tempestade, a gente sente na pele. Seu tom mudou, e a voz de Cássia endureceu novamente, um vestígio da raiva que ele conhecia. — Mas o que eu mais odeio, de verdade, é trabalhar na pousada. — Ela falou as palavras, com o desprezo evidente. — Lá, a gente é olhado como um pedaço de merda. Pelos ricos esnobes. Aqueles que vêm para cá com dinheiro, acham que podem fazer e desfazer, e olham para a gente como se a gente não fosse nada. Como se a gente fosse invisível, ou pior, um lixo. Se quiser, te arrumo uma vaga lá.
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