Capítulo 11

1042 Words
Kael, que estava ouvindo tudo em silêncio, sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Ele era um desses "ricos esnobes". Havia se beneficiado de todo aquele sistema do qual ela tanto reclamava. A revelação dela, a franqueza em sua dor, o atingiu em cheio, fazendo com que sua própria "farsa" de turista despojado pesasse ainda mais. Ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que estava testemunhando a realidade de uma vida que ele, em seu privilégio, jamais poderia ter imaginado. E soube que ela não iria gostar de saber a verdade, de modo algum. Enquanto caminhavam, a conversa de Cássia pintava um quadro vívido de sua vida. Kael ouvia, cada palavra dela aprofundando o contraste entre seus mundos. De repente, uma luz forte vinda de uma pequena loja na esquina chamou sua atenção. Era uma farmácia simples, um dos poucos estabelecimentos da vila. — Espera um pouco, Cássia. — Ele disse, parando abruptamente. Ele passou a rua, entrou na farmácia, com o cheiro de medicamentos e produtos de higiene o atingindo. Com a bermuda apertada, ele se sentiu um pouco deslocado ali, mas a necessidade de se sentir minimamente limpo e preparado para suas segundas intenções falou mais alto. Rapidamente, ele comprou uma escova de dentes e creme dental, um desodorante aerossol, um repelente e, por um impulso ousado e uma intenção clara, um pacote de preservativos. Ele entregou o dinheiro que Cássia havia lhe pago pelo trabalho, e o troco mínimo que recebeu deixou lá, apenas moedas. Quando ele saiu da farmácia, com a sacola na mão, Cássia o esperava com um sorriso divertido no rosto. — Gastou tudo, é? — Ela perguntou, com os olhos brilhando com uma mistura de deboche e aprovação. Ela tinha notado os itens na sacola, e um sorriso maroto brincou em seus lábios. — Pelo jeito, está se preparando para a vida selvagem da ilha. Kael sentiu o sorriso envergonhado em seu rosto, mas manteve a compostura. Aquele pequeno ato de consumo, gastar todo o seu "salário" em itens de higiene e, sim, preservativos, era um sinal claro de suas intenções. Ele, o herdeiro cafajeste e egoísta, estava investindo tudo na possibilidade de um romance com a mulher que o havia tratado como um mendigo e depois o convidara para jantar. Cássia riu de novo, uma risada gostosa e cheia de malícia. Ela estava realmente se divertindo com ele, com a situação, e, Kael percebeu, estava receptiva. A risada dela, e o brilho em seus olhos, confirmavam que suas "segundas intenções" eram correspondidas. Ela estava flertando, adorando cada minuto daquela estranha e inesperada aproximação. A noite prometia mais surpresas do que Kael, em sua vida planejada e previsível, jamais poderia ter imaginado. Chegaram à casa de Cássia, uma construção simples, mas aconchegante, escondida entre algumas árvores. Não havia luxo, nem a grandiosidade dos espaços que Kael estava acostumado. A porta, de madeira gasta, estava fechada, e a única luz vinha de uma lâmpada fraca no pequeno quintal. A casa parecia um refúgio da cidade grande, mas também da ostentação. Cássia abriu a porta com a maçaneta enferrujada e entrou na frente de Kael. O interior era modesto: uma sala pequena que servia também de cozinha, com uma mesa e algumas cadeiras de madeira, e um sofá surrado. Ao fundo, duas portas indicavam os quartos. O cheiro de casa, um leve mofo da maresia, pairava no ar. — Não repara na bagunça, viu? — Cássia disse, sem se virar para ele, enquanto caminhava em direção a um dos quartos. — E não mexe em nada, ou eu vou cortar sua mão. Pode ir tomar banho primeiro. Vou pegar uma toalha para você. Kael ficou parado na entrada, com um sorriso divertido no rosto. A ameaça dela, dita com uma seriedade irônica, era um convite para o mundo despojado e direto de Cássia. Ele percebeu que a "bagunça" dela era a vida real, e ele estava prestes a mergulhar de cabeça nela. A ideia de tomar banho e se livrar da sujeira e do cheiro de suor era tentadora. Aquele dia, iniciado no inferno de uma ilha e culminado em um jantar na casa de uma mulher que o havia esnobado e depois o convidara, era, de fato, a mais inesperada das aventuras. Cássia foi até o banheiro, uma pequena área ao lado da cozinha, e verificou, tirou um bolo de roupas sujas. — Pronto. Pode ir. — ela disse, tensa, sem emoção em sua voz. Kael entrou no banheiro e fechou a porta. A ideia de se livrar da sujeira era aliviante. Ele ligou o chuveiro, a água foi esquentando lentamente. Quando saiu do banho, enrolado na toalha que Cássia lhe havia dado, ele encontrou Cássia esperando na porta do quarto. Ela segurava uma pilha de roupas: uma bermuda de jogar bola, com listras laterais, e uma camiseta de escola, com o logo desbotado de alguma equipe esportiva. Não havia cueca. Kael olhou para as roupas e para ela, com um sorriso discreto em seus lábios. — Não tem cueca, é? — ele perguntou, com um tom de voz neutro. — Acho que é melhor ficar sem, então. Cássia deu de ombros, sem alterar sua expressão. — É o que tem e nem serviria. Se não quiser, é só ficar sem nada. A lasanha já está no forno. Vou tomar banho agora. Ela entregou as roupas a Kael e se dirigiu ao banheiro. Kael pegou as roupas, a bermuda e a camiseta de escola, e as vestiu. A bermuda era um pouco mais larga, e a camiseta, embora desbotada, servia bem. Ele não expressou emoções sobre as roupas ou a falta de cueca, apenas as vestiu, se sentindo ansioso. Quando Cássia saiu do banheiro, o ar da casa simples de repente se transformou. Ela emergiu envolvida apenas por uma toalha que m*l cobria suas curvas, mas era o seu corpo, reluzente, que capturava a luz fraca. Sua pele clara e com tatuagens espalhadas, já naturalmente bela, agora brilhava com uma umidade cintilante, denunciando o uso generoso de óleo corporal de amêndoas e cereja. O perfume doce preencheu o ambiente, suavemente misturado ao cheiro da maresia e da lasanha assando no forno. Ela não era apenas bonita; era uma visão de sensualidade natural, com a pele macia e convidativa.
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