Cássia o interrompeu, com a raiva crescendo rapidamente em seu rosto.
— Não quis dizer o quê? Já ouvi essa ladainha antes. É melhor você ir embora. Agora! Eu não sou sua cota de liberal. Mulheres assim... as mais velhas que você fica têm b****a gelada? Você tem um pênis ou um termômetro no meio das pernas? Eu nem gosto de ficar com homem como você!
Kalel, apesar da seriedade da situação, não conseguiu evitar um riso nervoso. Era um riso que misturava a vergonha do próprio erro com a surpresa da fúria dela.
— Não é para tanto, Cássia! — ele disse, ainda rindo. — Calma! Que exagero! Não foi para tanto! Eu só quis dizer que… você é deslumbrante! Gostosa! A mais linda de todas! Ser quente é um elogio, não?
Ele se aproximou dela rindo, com os olhos cheios de uma admiração sincera, apesar da confusão em que se metera.
— Sua pele é como baunilha, seus olhos são esmeraldas, que brilham mais que as estrelas, e seu sorriso… seu sorriso é o sol da ilha. Nunca estive com uma mulher como você, Cássia. Não importa a idade, o lugar. Você é única! Me desculpe por não saber me expressar.
Cássia o ouviu, com a fúria diminuindo lentamente, substituída por um leve sorriso que tentava conter. Ela balançou a cabeça, com a indignação ainda presente, mas suavizada pelo elogio exagerado.
— Você fala demais. — Ela disse, com um riso escapando, com a voz mais suave agora. — E é um tremendo cara de p*u. Em vez de me agradecer por te dar uma chance, comida e ainda me comer, me chama de burra.
Ela deu um tapa leve no braço dele e, com um suspiro que misturava exasperação e um divertimento renovado, apontou para a mesa.
— Vem. A lasanha está pronta. E o jantar não vai se servir sozinho. Ah, mas você tem sorte, que eu estou de ótimo humor. Não transo há muito tempo.
Kalel sorriu, vitorioso, e a seguiu até a mesa. Apesar da gafe monumental, ele havia conseguido fazê-la rir novamente.
O cheiro da lasanha assada pairava no ar, um convite irresistível que aquecia o pequeno cômodo. Kalel e Cássia sentaram-se à mesa simples, com os pratos fartos à sua frente. A comida caseira, feita com carinho e esforço, era um luxo que Kalel, com todos os seus luxos, raramente experimentava. Eles comeram em silêncio por um tempo, o som dos talheres e o mastigar satisfeito preenchendo o espaço.
Cássia, com um suspiro satisfeito, quebrou o silêncio.
— Essa lasanha eu comprei para o Natan. Ele está tão difícil, não me respeita, nem ajuda.
Kalel, com a boca cheia, assentiu vigorosamente.
— Ele é muito novo. Eu vi mesmo vocês discutindo.
Cássia riu, um som seco e irônico.
— Todos estão vendo. Semana passada, ele tomou um porre e largou o quiosque aberto. Esses dias, levou uma menina para dormir lá, eu cheguei para abrir, levei um susto. Com os dois pela dos. E ele traz elas aqui também, enquanto eu trabalho, eu tive que começar a trancar meu quarto.
Kalel engoliu em seco, um pouco constrangido.
— E o pai dele? Não tenta ajudar, de alguma forma?