Cássia o olhou nos olhos, com a intensidade em seu olhar o desarmando.
— Sinceramente, ele gosta de apoiar esse comportamento. Não ajuda com nada desde que saiu de casa. Eu tive um ex que me ajudou um tempo, e depois a minha vida virou um inferno. Ele mandou meu irmão para o hospital porque ia me bater, e Natan entrou no meio, sabe? E ele era pequeno. Por isso eu não confio mais em ninguém para colocar dentro de casa.
Ela pegou um pedaço de lasanha e o levou à boca, mastigando devagar. Logo o olhou séria.
— Por isso, é bom você não criar expectativas. Não sou dessas que se entregam e depois ficam sonhando com um felizes para sempre. O que aconteceu hoje… foi bom. Muito bom, na verdade. Mas foi isso. Uma noite. Eu não quero mais nada sério com ninguém.
Kalel sentiu um aperto no peito, mas a franqueza dela era quase um alívio. Era a verdade, nua e crua.
— Entendo perfeitamente. Eu também tive grandes decepções em meus relacionamentos anteriores.
Cássia continuou, com a voz firme e inabalável, o aviso claro.
— E tem mais uma coisa. Eu jamais. Ouviu bem? Jamais vou colocar um homem para morar na minha casa. Se você é mendigo, sei lá, não conte comigo. Aqui sou eu e meu irmão. É a minha fortaleza. Não tem espaço para mais ninguém. Entendeu? Não sei de onde você vem, se tem um lar ou não.
Kalel a encarou, processando as palavras. A determinação dela era notável, e a dor de seu passado, evidente. Ele, o homem que sempre quis ter controle, estava diante de uma mulher que controlava a própria vida com uma força avassaladora. Ele assentiu, com um sorriso fraco nos lábios.
— Entendido, patroa. Sem expectativas. Sem moradia. Apenas... comida e bom papo?
— Nada mais?
Cássia sorriu, com uma ponta de diversão nos olhos novamente.
— Exatamente. Agora, come. Você deve estar faminto. Pelo visto, não é só de drinks que você vive, não é mesmo?
Eles continuaram a jantar, com a conversa fluindo para tópicos mais leves, mas o aviso de Cássia pairava no ar, um lembrete constante dos limites que ela impunha. Kalel, no entanto, em sua nova pele de turista despojado, sentia que aqueles limites, por mais que dolorosos, eram o que tornavam Cássia tão real e, ironicamente, tão atraente, como um desafio.
Depois do jantar, com os pratos vazios e a satisfação no ar, Cássia se levantou com deboche.
— Bom, hora de encarar a realidade. A louça não se lava sozinha.
Kalel, que estava mais relaxado do que em muito tempo, ofereceu-se imediatamente.
— Deixa que eu ajudo. É o mínimo que posso fazer depois dessa comida maravilhosa. Tudo o que você faz é gostoso, sem dúvidas.
Cássia o olhou com uma sobrancelha arqueada, cética, mas um sorriso gentil brincava em seus lábios.
— Você? Ajudar na louça? Não precisa lavar. Mas tudo bem, pode secar. Gosto da minha casa organizada.
Enquanto Cássia lavava, com movimentos rápidos e eficientes, Kalel, desajeitado no início, começou a secar os pratos e copos simples. O silêncio da noite foi preenchido pelo som da água e do atrito da bucha.
— E então, turista, você gosta de que tipo de música? — Cássia perguntou, quebrando o silêncio, com um leve tom de provocação em sua voz.
Kalel sorriu, pegando um copo para secar.
— Gosto de quase tudo. Sertanejo, pagode, às vezes. Mas sou mais eclético. E você?
— Ah, eu sou do funk, do pagode, claro. — Ela riu.
— Mas também curto um sertanejo, umas românticas.
A conversa fluiu dali para os cantores que ambos conheciam, as músicas que marcavam épocas. Para a surpresa de Kalel, eles tinham mais artistas em comum do que ele imaginava. Da música, pularam para filmes.
— Qual seu filme favorito? — Kalel perguntou, secando um garfo com mais cuidado do que o necessário.
Cássia pensou por um momento.
— Ah, é difícil! Mas adoro aqueles romances antigos, com comédias. Aqueles filmes que te fazem rir e chorar. E você?
Kalel riu.
— Eu gosto de filmes de ação, de estratégia. Mas confesso que, às vezes, um bom drama me pega de jeito.
À medida que conversavam, descobrindo gostos semelhantes em filmes e gêneros musicais, uma nova percepção começou a surgir para Kalel. As diferenças sociais eram gritantes, mas a essência das suas personalidades, seus gostos mais básicos, eram surpreendentemente parecidos.
— Quantos anos você tem, Cássia? — Kalel perguntou, com um tom mais casual.
Cássia o olhou, com um brilho de curiosidade em seus olhos.
— Estou com dezenove. E você, garotão? Pela cara de quem não perde uma festa, te daria uns vinte e oito?
Kalel riu, com uma risada genuína.
— Vinte e cinco.
A pouca diferença de idade, somada à afinidade de gostos, criava uma ponte inesperada entre eles. A conversa na cozinha, enquanto lavavam e secavam a louça, revelou que, sob as camadas de suas realidades tão distintas, havia uma conexão que ia além da atração física e da circunstância. Eles tinham muito mais em comum do que qualquer um deles poderia ter imaginado.
Com a cozinha limpa e um silêncio confortável preenchendo o ar, Cássia levou Kalel de volta para a sala. Ela foi até o sofá surrado e começou a desdobrá-lo, puxando um lençol fino e um travesseiro que pareciam um pouco velhos, mas limpos. Era claro que aquele seria o seu leito para a noite.
— Então, turista, sua cama está pronta. — Cássia disse, sem encará-lo, enquanto arrumava o travesseiro. A voz dela era neutra, quase mecânica, como se estivesse recitando uma regra.
— Dar uma transadinha, ok. Mas dividir a cama, não. Nunca.
Kalel a observou, com a confusão se instalando em seu rosto. Ele, o homem que sempre teve o que quis, estava sendo instruído sobre as regras do jogo. A conexão que os havia consumido minutos antes parecia ter sido colocada em uma caixa separada, longe da realidade.
— Gosto das coisas como devem ser. — Ela continuou, afastando-se um pouco do sofá e virando-se para encará-lo, com os braços cruzados sobre o peito. A expressão dela era séria, inabalável.
Kalel a olhou, com a curiosidade superando qualquer ressentimento. Aquela mulher era um enigma, cheia de regras e contradições.
— E como devem ser, minha gata? — Ele perguntou, com a voz suave, com um toque de ironia misturado à genuína curiosidade. A chama do desejo ainda ardia em seus olhos, e ele não conseguia entender a lógica por trás daquela distância pós-sexo.
— Qual o problema de dividir a cama? Se acabamos de unir nossas almas… e nossos corpos, de uma forma tão… intensa?
Cássia olhou para Kalel, com a seriedade em seus olhos contrastando com a atração que os havia consumido minutos antes. Ela precisava estabelecer os limites, e rápido.
— Eu prefiro manter os limites. — ela disse, com a voz firme, sem vacilar.
— Assim, ninguém sai ferido. Nem eu, nem você.
Ela o encarou com uma intensidade que cortava o ar, deixando claro o quão importante era aquele ponto para ela.
— Não ache que eu trago qualquer um para a minha casa. Eu realmente não faço isso. Mas o Natan foi viajar, e eu... — Ela hesitou por um momento, e então confessou, com a voz um pouco mais suave:
— Bom, eu te achei bastante interessante, atraente. E eu precisava… dar. A minha vida está péssima. E eu não ficaria com alguém da ilha.
Ela deu de ombros, um gesto de aceitação simples e brutalmente honesto.
— Bom, vou dormir. Boa noite.
Cássia se virou e caminhou em direção ao seu quarto, deixando Kalel na sala, sozinho com a complexidade de suas palavras e a nova realidade de sua noite.
Kalel observou Cássia desaparecer pelo corredor, o som de suas palavras ainda ecoando na sala. Um sorriso irônico, misturado com um toque de diversão e aceitação, surgiu em seus lábios. Ela era inabalável, prática e, de alguma forma, incrivelmente atraente em sua franqueza.
— Boa noite, Cássia. — Ele disse, com a voz suave, para o silêncio que ela deixou para trás.
Ele se aproximou do sofá desdobrado, sentindo o estofado fino e os lençóis ásperos. Era um contraste gritante com o luxo a que estava acostumado, mas, estranhamente, não o incomodou. Kalel se deitou, com o corpo ainda cansado daquele dia atípico e da intensidade da conexão deles. Ele sentia o peso de cada movimento que fizera, cada erro cometido e cada risada compartilhada, e o corpo, que não estava acostumado a dormir em camas tão duras, protestava.