Mas, apesar do desconforto físico, a mente de Kalel estava em paz. Por uma noite, ele havia conseguido se desconectar completamente de sua vida real, de seu império, de suas responsabilidades e de sua amargura. Ele não era o herdeiro, era apenas Kalel, o turista desastrado de bermuda e chinelo, que havia conhecido uma mulher fascinante e se entregado a uma aventura inesperada.
O cansaço físico e a liberdade mental o envolveram. Em poucos minutos, ele mergulhou em um sono profundo e com sonhos aleatórios, sem se importar com a avalanche de problemas que o aguardava no dia seguinte. Por uma noite, Kalel foi apenas isso: livre, despreocupado e, pela primeira vez em muito tempo, genuinamente feliz.
Na manhã seguinte, Kalel despertou antes do sol alcançar a sala, sentindo a rigidez do sofá no corpo, mas com uma leveza inesperada na alma. O cheiro da maresia e o canto dos pássaros substituíam os alarmes estridentes e as chamadas de vídeo que marcavam o início de seus dias em São Paulo. Ele se levantou devagar, cuidando para não fazer barulho e acordar Cássia.
Vestiu as roupas emprestadas de Natan, a bermuda, que agora pareciam menos ridículas e mais um uniforme de sua nova e temporária identidade. Com um olhar rápido para o quarto de Cássia, onde o silêncio indicava que ela ainda dormia profundamente, ele caminhou até a mesinha na cozinha. Pegou um pedaço de papel rabiscado e uma caneta que encontrou por ali no armário.
Com sua caligrafia habitual, que traçava contratos, ele escreveu um bilhete simples, um reflexo do homem que ele estava se permitindo ser naquele momento:
"Obrigado pela noite e a estadia. Precisei sair cedo. Espero te encontrar à tarde no quiosque."
Ele deixou o bilhete visível sobre a mesa, em cima de um prato limpo. Um último olhar para a casa simples, para a quietude do lar que o havia acolhido e para a porta do quarto de Cássia, e então ele saiu. O dia prometia calor e, para Kalel, um reencontro com a realidade, que agora significava mais do que um simples ponto de negócio.
Ele partiu, deixando para trás apenas a lembrança de sua presença e um bilhete que selava a expectativa de um novo capítulo em sua inesperada aventura.
Cássia despertou com o sol já alto, o corpo dolorido em lugares que não doíam há anos. O prazer da noite anterior ainda estava em sua memória, mas ao notar o vazio da casa, uma pontada de incômodo se instalou. Ela olhou o sofá vazio. Sentou-se à mesa da cozinha, com o cenho franzido, e avistou o pequeno pedaço de papel na mesa. O "Obrigado pela noite e a estadia" a atingiu como um tapa. "Precisei sair cedo", "espero te encontrar à tarde no quiosque".
A simplicidade daquelas palavras, a ausência de um adeus mais elaborado, fez seu estômago embrulhar. A euforia da noite evaporou, substituída por uma raiva crescente e a amarga sensação de ter sido usada.
"Babaca!" ela pensou, sentindo-se uma i****a. "Eu avisei que não queria expectativas! E ele, o 'turista pobre', some de fininho como um ladrão! É claro que só queria uma noite fácil."
A desconfiança a invadiu. Levantou-se rapidamente e começou a inspecionar a casa, os olhos atentos a qualquer sinal de roubo. Abriu armários, verificou gavetas, tocou nos poucos objetos de valor. Nada havia sido levado. A casa estava exatamente como ele a havia encontrado, exceto pelo cheiro de seu corpo e a lembrança incômoda do que havia acontecido. A raiva se misturou à vergonha.
Irritada, Cássia saiu de casa mais cedo do que o usual. Foi direto para o quiosque, movendo-se com uma energia quase agressiva. Abriu o estabelecimento, arrumou as poucas coisas, mas sua mente não estava ali. A imagem de Kalel a possuindo, a promessa de um jantar, as palavras de galanteio, tudo parecia uma farsa barata agora. Ficou no quiosque apenas o tempo suficiente para sentir o movimento fraco e, depois, tomou a decisão. Não iria esperar por ele à tarde.
Com um suspiro pesado, Cássia rumou para a pousada. Precisava trabalhar, precisava do dinheiro, e a lavanderia, com seu calor abafado e o cheiro de sabão, seria um bom lugar para extravasar sua frustração. Passou as horas lavando, esfregando e dobrando, com o suor escorrendo pelo rosto, os pensamentos fixos na humilhação matinal.
Enquanto Cássia vivia sua manhã de ressaca emocional, Kalel, após sair da casa dela, conseguiu uma carona com um vizinho e, por sorte, encontrou um caminho que o levou de volta à pousada, antes que seu desaparecimento causasse um colapso ainda maior.
Após tomar um banho revigorante em um chuveiro enorme, Kalel voltou a ser quem realmente era, mas com um brilho nada familiar nos olhos. Resolveu pendências, rindo à toa e ouvindo as histórias de todos que estavam o procurando. Ali, ele reassumiu seu papel de herdeiro com uma facilidade impressionante. Deu ordens rápidas, acessou dados, resolveu problemas. As reuniões se sucederam, uma após a outra.
Ele trabalhou o dia todo, imerso nos problemas de seu império, e comeu com todo o glamour que gostava. A figura do "turista despreocupado" havia sido deixada para trás na praia. No entanto, por mais que estivesse focado, a imagem de Cássia, de sua casa simples e da noite intensa, vez ou outra invadia seus pensamentos.
A ausência dela, tanto em sua visão quanto em seus relatórios, era um alívio temporário, permitindo que ele se concentrasse em sua "vida real" antes de confrontar as complexidades da vida que ele havia brevemente abraçado na ilha.
Assim que as reuniões extenuantes do dia chegaram ao fim e Kalel conseguiu um momento de trégua, ele fez a mala com roupas simples. Cinco trocas de roupa, sungas.
Horas depois, Kalel estava de volta à ilha. Com o sol começando a se pôr e os últimos raios alaranjados banhando a ilha, ele se viu novamente no papel de "turista".
Comprou um celular popular e barato, dizendo que ia estender os dias lá e não queria se expor, chamando atenção na praia. Seu motorista só concordava, intrigado, e então, Kalel continuou surpreendendo, pediu a mochila e o perfume dele, e o mais importante, pediu segredo.
Kalel pensou em todos os detalhes. Ele ficou ligeiramente intrigado com o seu celular perdido, que não havia sido mexido e estava desligado, o que impedia de ser rastreado. Ele, fantasiado e com uma mochila nas costas, deixou a pousada para trás e seguiu direto para a praia, com um único objetivo: encontrar Cássia.
Ao se aproximar do local onde o quiosque de Cássia deveria estar fervilhando de clientes, Kalel sentiu um aperto no peito. O quiosque estava fechado, sem nenhum sinal dela. Ele olhou ao redor, buscando algum rosto familiar que pudesse dar informações.
Um dos barraqueiros vizinhos, que já estava recolhendo suas coisas, o reconheceu da confusão do dia anterior. Kalel foi até ele e perguntou sobre o quiosque. O barraqueiro informou que ela havia ficado por lá apenas durante a manhã.
Uma pontada de preocupação e frustração atingiu Kalel. Ele havia imaginado o reencontro, a surpresa dela, a ironia da situação. Mas ela não estava ali.
Sem desistir, Kalel foi até a casa dela, depois voltou e se lembrou do bar onde a vira, no forró. Talvez ela estivesse lá, desabafando sobre o dia, ou apenas tentando esquecer a rotina exaustiva. Ele caminhou até o bar, que começava a ganhar vida com as primeiras notas de música e o cheiro de cerveja. Pediu uma bebida, sentou-se em um banco e começou a beber. A cada gole, a esperança de vê-la diminuía. Os minutos se arrastavam, a música parecia mais alta, e a figura de Cássia, radiante como em outros dias, não apareceu. O "personagem" de Kalel estava completo, mas o palco parecia vazio sem sua protagonista.