Capítulo 18

1815 Words
As horas se esvaíram no bar da praia, embaladas pelo ritmo contagiante do funnk e pela crescente influência da cerveja. Kalel, agora vestindo uma de suas camisas floridas, encontrou uma estranha liberdade em meio aos outros frequentadores, muitos dos quais ele já reconhecia da noite anterior. Quando o karaokê improvisado começou, com um microfone empoeirado e uma tela piscando letras borradas, Kalel, incentivado pela bebida e pela súbita ausência de suas habituais amarras, agarrou o microfone. Sua voz, antes reservada para negociações e discursos corporativos, ecoou pela noite, desafinada, mas carregada de uma alegria infantil. Ele cantou clássicos do cancioneiro popular, misturando português com letras que m*l lembrava, arrancando risos e aplausos da plateia improvisada. Aquele não era o Kalel, era apenas um turista desajeitado se divertindo sem se importar com o amanhã. Quando a noite já avançava, Kalel, um pouco tonto e com o coração cheio de uma esperança teimosa, decidiu que era hora de ir. Conseguiu uma carona com um dos músicos do bar, um sujeito simpático com uma velha caminhonete. Agradeceu ansiosamente, deixou uma gorjeta generosa e saltou da caminhonete na estrada de terra que levava à casa de Cássia. Na mão, ele carregava uma garrafa de pinga que havia comprado no bar, lembrando-se vagamente de Cássia mencionar que gostava de caipirinha. Nas costas, sua mochila continha as roupas coloridas e itens de higiene pessoal. O quintal da casa de Cássia estava escuro e silencioso. A única luz vinha de uma pequena janela, filtrada por cortinas finas. Kalel hesitou por um instante, com a ansiedade crescendo como a maré alta. Ele não tinha certeza de como seria recebido, mas a imagem de Cássia, sua força, sua beleza e a intensidade da noite anterior o impulsionavam. Com um passo hesitante, ele atravessou o quintal de terra batida e se aproximou da porta, com a garrafa de pinga balançando suavemente em sua mão. A noite havia caído sobre a pequena casa de Cássia, mas a escuridão do lado de fora era um mero reflexo da tempestade que se agitava em seu interior. Ela havia acabado de chegar do trabalho, com o corpo moído pela labuta exaustiva, mas a dor física era insignificante perto do peso que carregava na alma. Estresse. Nervosismo. Preocupação. As emoções se misturavam em um nó apertado em seu peito. A imagem do irmão, Natan, longe, a saudade apertava. E as dívidas… Uma montanha que parecia crescer a cada dia, apesar de todo o seu esforço. O incidente com Kalel naquela manhã, a sensação de ter sido usada, apenas adicionava mais uma camada de amargura à sua exaustão. Cássia havia se forçado a tomar um banho longo, buscando algum alívio na água que escorria por seu corpo. Vestiu uma camisola curta de alças, surrada pelo tempo, sem nada por baixo. O tecido macio e familiar era um pequeno consolo. Mas, ao sentar-se na sala, a quietude da casa apenas amplificou o turbilhão em sua mente. Lágrimas quentes começaram a escorrer livremente por seu rosto, molhando as bochechas e pingando na camisola. Não eram lágrimas de tristeza apenas, mas de frustração, de impotência. Ela chorava com o corpo tremendo em soluços abafados, sentindo o peso do mundo em seus ombros, alheia ao som dos passos hesitantes que se aproximavam de sua porta. Kalel, com a garrafa de pinga na mão e a mochila nas costas, chegou ao quintal escuro. A luz fraca que escapava da casa de Cássia era um farol. Ele respirou fundo, com a ansiedade e a bebida lhe dando uma coragem extra. — Cássia! — ele chamou, com a voz um pouco alta demais, ecoando na quietude da noite. — Cássia! Dentro da casa, Cássia sobressaltou-se. As lágrimas cessaram abruptamente, e ela enxugou os olhos rapidamente com as costas da mão, sentindo o rosto inchado e úmido. A raiva da manhã voltou com força total. "O que esse i****a quer agora?", pensou. Com a camisola surrada, ela caminhou até a porta e a abriu, revelando Kalel parado no quintal. Seus olhos, ainda vermelhos de tanto chorar, o varreram dos pés à cabeça, notando as roupas coloridas e baratas que ele usava. A seriedade em seu rosto era inabalável, e a expressão de cansaço e irritação era evidente. — O que você quer, Kalel? — ela perguntou, com a voz fria e cortante, sem um pingo de calor. — Estou ocupada. Kalel, com um sorriso largo e um pouco desengonçado, levantou a garrafa de pinga. — Eu comprei para você, Cássia! — ele disse, com a voz cheia de uma alegria embriagada. — Pensei em você. Para adoçar essa sua vida linda... e a minha também, quem sabe. Cássia o olhou nos olhos, com a raiva fervendo. Ele estava vermelho, com o sorriso largo demais, o cheiro de álcool chegando até ela. Era óbvio que havia bebido, e muito. A garrafa em sua mão parecia um insulto à sua dor da manhã. — Não quero você aqui! — ela disparou, com a voz baixa, mas carregada de fúria contida. Ela deu um passo para trás, preparando-se para fechar a porta. Seus olhos, antes marejados, agora brilhavam com uma determinação fria. Antes que ele pudesse responder, antes que pudesse sequer processar o que ela dizia, ela desferiu o golpe final. — E só para deixar claro, não estou abrindo uma pousada aqui! Sem esperar por qualquer reação, sem dar-lhe a chance de responder, Cássia fechou a porta com um clique seco, deixando Kalel no escuro do quintal. Ele ficou parado ali, com a garrafa na mão, a mochila nas costas, sem reação, surpreso e com o sorriso desfeito. A porta fechada era um muro intransponível entre eles, um fim abrupto para sua visita embriagada e cheia de esperança. Desmotivado, Kalel deu alguns passos cambaleantes para trás, saindo do quintal de Cássia. A porta fechada ressoava em sua mente, um eco doloroso da rejeição inesperada. Ele havia se permitido ser vulnerável, havia levado licor, e tudo o que ganhou foi uma porta na cara e a sensação de que havia ultrapassado um limite invisível. Parado na rua escura, ele pegou seu celular. A tela acendeu. Ele olhou para os lados, a escuridão da ilha parecendo mais densa agora. Não tinha para onde ir. O resort era uma opção, mas o pensamento de voltar para a formalidade e os problemas corporativos era quase tão repulsivo quanto sua situação atual. Ele estava perdido, físico e emocionalmente. Dentro da casa, Cássia estava espiando pela fresta da cortina. Ela o viu parado ali, o corpo curvado, a cabeça baixa. A raiva da manhã e a frustração de vê-lo bêbado se dissiparam rapidamente, substituídas por uma pontada de dó. A imagem dele, sozinho na escuridão, com a mochila e a garrafa, despertou algo nela. Afinal, por mais que ele fosse um "i****a", ele não parecia ter má intenção. E, em sua própria solidão e carência, Cássia sentiu uma ponta de empatia. Ele parecia genuinamente perdido, e a possibilidade de que ele não tivesse para onde ir naquela noite a inquietou. O coração dela amoleceu. Com um suspiro que misturava indecisão e um impulso incontrolável, Cássia abriu a porta novamente. — Kalel? — ela chamou, com a voz mais suave do que ele esperava, quase um sussurro na quietude da noite. Kalel virou-se abruptamente, com a surpresa em seu rosto. Os olhos dela o encontraram, e não havia mais raiva neles, apenas uma expressão de preocupação. — Você já jantou? Ao ouvir a voz de Cássia, Kalel sentiu um alívio imenso. Ele se virou, vendo a porta semiaberta e o rosto dela na fresta, com a expressão suavizada pela preocupação. Sem hesitar, ele deu alguns passos largos, de volta para dentro do quintal. Seus olhos fixaram-se nos dela, buscando desvendar o que havia por trás daquele chamado. A fúria da porta fechada havia sumido, substituída por algo mais complexo. — Eu só queria te ver, Cássia. — Kalel disse, a voz baixa, carregada de uma sinceridade que o surpreendeu. — Não tenho intenção de me hospedar aqui de novo, nem de te dar qualquer prejuízo. Juro. Se quiser, eu posso te ajudar, com a comida, qualquer coisa. Cássia o observou por um instante, avaliando suas palavras. Algo no olhar dele, na vulnerabilidade que ele mostrava, a fez ceder. Ela deu um passo para o lado, abrindo mais a porta e oferecendo espaço para ele entrar. Kalel sentiu a mudança no ar, na postura dela. Ela estava diferente, a guarda mais baixa, a rigidez de antes desaparecida. Ele entrou na casa, caminhando com uma seriedade que contrastava com sua embriaguez de minutos antes. O cheiro doce da pele de Cássia pairava no ar. — Eu… eu estou gostando muito de estar com você, Cássia. — Ele confessou, olhando-a nos olhos, com a voz quase um sussurro. — E eu precisei ir encontrar um amigo para pegar as minhas coisas. As minhas... roupas. Ele não aprofundou a explicação, deixando a frase pairar no ar, um prelúdio para uma verdade que ele ainda não estava pronto para revelar. Cássia o ouvia, com os olhos fixos nele, percebendo a seriedade por trás de suas palavras embriagadas. Cássia se virou e caminhou para a cozinha, o silêncio preenchido apenas pelos passos dela. Kalel a seguiu com o olhar, com a mochila ainda nas costas. Ela pegou um copo no armário e esticou a mão para ele, pedindo a garrafa de licor. Kalel entregou-lhe, e ela encheu o copo com um gesto firme. Séria, com o olhar fixo no líquido escuro, Cássia levou o copo aos lábios. — Não queria acordar com um bilhete. — ela disse, com a voz baixa e firme, com a cabeça ligeiramente inclinada para baixo. A dor e a mágoa daquela manhã estavam evidentes em seu tom. Kalel colocou a mochila na cadeira mais próxima, o som do tecido contra a madeira quebrando a tensão. Ele a olhou, confuso. Não esperava que a reação dela fosse tão forte. — Tem razão. — Kalel respondeu, com a voz mais sóbria agora, refletindo o peso de suas palavras. — Sem bilhete. Foi… uma péssima ideia. Ele fez uma pausa, tentando se justificar, mas sem querer estragar o momento de trégua. — Eu já comi alguma coisa lá no bar. — Ele continuou, observando-a. — Fui no karaokê, na esperança de te ver. Cássia o olhou, com a expressão séria, enquanto bebia o licor em grandes goles. Ela suspirou, um som profundo, como se estivesse ponderando sobre algo muito maior do que um simples bilhete. O licor parecia um bálsamo para sua alma cansada, e a intensidade com que bebia chamava a atenção de Kalel. Ele a observou, intrigado pela profundidade de sua reação. A frieza era notável, mas parecia vir de um lugar mais profundo do que ele imaginava. — Ficou tão brava, pelo bilhete? — ele perguntou, com a voz suave, quase um sussurro. — Que m*l pode falar comigo?
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