Cássia deu um passo à frente, com o corpo tenso, a respiração ofegante.
— Você acha que eu sou o quê? Uma qualquer para ser comprada? Você me viu trabalhando, eu ralei muito feito uma condenada o dia inteiro, limpando a sujeira dos outros, tentando salvar o que é meu! E você tem a audácia de me oferecer dinheiro como se eu fosse um objeto?
Kael, encharcado de cerveja e com a boca aberta em surpresa, percebeu o tamanho do seu erro. O álcool, o cansaço e a amargura haviam nublado seu julgamento, e ele havia levado sua frieza transacional para um território completamente errado.
— Não, não, Cássia! Me desculpe! — Ele tentou se explicar, secando o rosto.
— Foi um m*l-entendido! Eu… eu não quis dizer isso! Foi uma brincadeira, uma piada de péssimo gosto, eu juro!
Mas Cássia não estava disposta a ouvir. A fúria em seus olhos não diminuía.
— Brincadeira? — Ela retrucou.
— De péssimo gosto! Você não me conhece! Não sabe nada da minha vida! E acha que pode chegar aqui e me ofender desse jeito?
Ela balançou a cabeça, com a decepção e a raiva se misturando em sua expressão.
— Eu não quero mais saber de você. Fique com sua cerveja e sua prepotência.
Com essas palavras, Cássia se virou abruptamente e se afastou, desaparecendo na multidão que dançava o funk, deixando Kael ali, pingando cerveja, com o rosto ardendo não apenas pela bebida, mas pela humilhação.
Por um momento, Kael ficou parado, com o som da música parecendo ainda mais distante. Ele estava encharcado, com o corpo cansado e o ego ferido. Mas então, uma risada baixa, quase um ronronar, começou a borbulhar em seu peito.
Ele estava bêbado, com certeza. E, na sua mente alterada pelo álcool, a cena que acabara de presenciar era, de alguma forma, absurdamente engraçada. Ele, o herdeiro mimado que nunca era contestado, tinha acabado de levar um banho de cerveja de uma garota da ilha, e o motivo era uma piada de mau gosto.
Kael, o amargurado, cafajeste, o impenetrável, achou graça da própria desgraça. A risada, que começou baixa, foi ganhando força, um som incomum vindo de um homem que raramente sorria, muito menos em público.
Encharcado de cerveja e com a mente um tanto turva pelo álcool e pela risada inesperada, Kael decidiu que era hora de beber, começou a tomar gin, uma cerveja atrás da outra, dançou sozinho e com mulheres. Caindo de bêbado, decidiu que era hora de voltar para a pousada. No entanto, a iluminação precária do local, combinada com a sua embriaguez e o fato de nunca ter se preocupado em memorizar o caminho, transformaram a simples caminhada em uma jornada labiríntica. Ele tentou seguir o som da festa, mas as direções se confundiam.
Passou por coqueiros caídos, que a tempestade havia destruído, e por caminhos que pareciam levar a lugar nenhum. A cada passo, a frustração aumentava, e a escuridão da noite o fazia perder o senso de direção. Encontrou uma rave na praia e ficou por lá, tinham muitos jovens. Por lá, ele ficou por perto, caindo de bêbado. O celular, que ele havia tentado usar o dia inteiro para se reconectar com o mundo, escapuliu de sua mão em algum momento daquela caminhada errante, sumindo. Ele nem percebeu a perda.
Finalmente, exausto e sem esperanças de encontrar seu caminho de volta, Kael se viu de volta ao quiosque de mais cedo. O som do funk estava mais distante agora, e a única coisa que ele reconheceu foi o quiosque de Cássia, na penumbra, mas ainda assim um ponto de referência.
Com um suspiro pesado, ele se arrastou até lá, encontrando um canto um pouco mais abrigado da brisa. A exaustão e o álcool pesavam em suas pálpebras. Em pouco tempo, Kael, o magnata acostumado a lençóis de seda e travesseiros de pluma, desabou sobre um papelão, adormecendo profundamente no quiosque de Cássia, inconsciente de que não estava apenas sem dinheiro e sem comunicação, mas também sem seu precioso celular, a última ligação com seu mundo real.
O sol m*l despontava no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados, quando Natan chegou ao quiosque com a irmã. A dor de cabeça da ressaca ainda não latejava em Kael, mas a luz fraca do amanhecer revelava a imagem que o faria despertar abruptamente. Lá estava ele, o bêbado descarado e prepotente da noite anterior, roncando ruidosamente entre o papelão.
Cássia parou, com os olhos arregalados em descrença e fúria. A imagem dele ali, dormindo placidamente como se fosse um sem-teto, foi a gota d'água depois de um dia exaustivo e uma noite de raiva.
— Ei! Acorda seu babaca! — ela gritou, com a voz cortante como um chicote. Ela chutou suavemente um pedaço de madeira perto dele.
— Você tem cinco minutos para desaparecer daqui! Eu não quero olhar essa sua cara inchada de bêbado, e você está fedendo! Some daqui!
Kael remexeu-se, resmungando, com os olhos se abrindo lentamente para o brilho do sol. A visão de Cássia, de pé sobre ele, com a mesma expressão de fúria da noite anterior, fez com que as lembranças voltassem em um turbilhão. A cerveja no rosto, a humilhação, a briga, e agora, a cena de si mesmo dormindo como um mendigo. A viagem estava se tornando um pesadelo de humilhações. Natan começou a rir muito.
Kael se levantou, cambaleando ligeiramente, e o cheiro de maresia misturado ao seu próprio odor de suor e álcool atingiu suas narinas. Um riso abafado, quase uma afronta, escapou de seus lábios. Era um riso que misturava vergonha, exasperação e um toque de deboche consigo mesmo.
Cássia, que já havia entrado no quiosque, começou a abrir o balcão, ignorando-o.
— Tem café com leite e um pingado? — Kael perguntou, com a voz rouca pela ressaca e pela ironia, com um sorriso irônico brincando em seus lábios.
— Faz um fiado, eu não tenho dinheiro. Estou sentindo o cheiro de café. Acho que fui roubado. Nossa.
Cássia parou o que estava fazendo e se virou para Kael, com os olhos flamejando em irritação. A audácia dele, depois de tudo, pedir fiado e ainda por cima debochar, era inacreditável. Mas, apesar da raiva, a humanidade falou mais alto. Ela caminhou até onde uma chaleira pequena borbulhava e pegou um copo americano.
Com um gesto brusco, ela serviu o café, com leite, sem açúcar, e empurrou-o para ele. Em seguida, Natan pegou um pão francês, colocou-o na chapa quente e começou a prensá-lo com uma espátula e margarina. O barulho foi preenchendo o silêncio tenso entre eles.
— Comida não se n**a nem a um inimigo. — Natan resmungou, sem olhar para ele, com a voz carregada de deboche.
Cássia falou brava.
— Come logo isso e vê se para de me dar prejuízo. Quero que suma do meu quiosque.