Capítulo 7

1025 Words
Kael pegou o copo e o pão fumegante, sentindo o calor e o aroma do leite com café, que, apesar da raiva de Cássia, era um bálsamo para sua ressaca. Ele deu um gole, e a falta de açúcar despertou seus sentidos. Enquanto ela se movia pelo pequeno espaço, limpando a louça e reorganizando as poucas coisas que haviam sobrado intactas, Cássia continuou. — Você está hospedado onde, afinal? Pelo seu jeito, veio turistar. Kael engasgou. A pergunta o pegou de surpresa. Como mentir para ela, depois de tudo? Como dizer que ele estava dormindo no chão de seu quiosque? O orgulho, mesmo machucado, ainda o impedia de revelar a verdade completa. — Eu… eu estou procurando um lugar. Um lugar bem barato para ficar. — Ele balbuciou, com a voz soando forçada até para si mesmo. Cássia parou de arrumar a louça e o encarou, com as sobrancelhas arqueadas em ceticismo. A mentira dele era óbvia, mas ela não pressionou. Apenas balançou a cabeça, com um sorriso amargo nos lábios. — Procurando lugar… Sei. — Ela voltou à sua tarefa, com os movimentos firmes e rítmicos. — E, por acaso, você está procurando trabalho também? Porque pelo jeito que você martela, talvez devesse tentar uma carreira como… modelo de roupa de praia florida. Kael soltou uma risada rouca, misturando a ressaca com a ironia da situação. A pergunta de Cássia, por mais que fosse uma provocação, o havia atingido de uma forma inesperada. — Eu estou querendo um trabalho, sim. E uma pousada. Quem sabe… curtir uns dias, viver a vida de verdade, né? Me acha tão bonito para até modelar com look de praia? — Ele gesticulou vagamente para o nada, como se quisesse apagar toda a sua existência anterior. Cássia parou de repente, virando-se para ele com uma expressão de genuína intriga. Ela o olhou de cima a baixo, e então seu olhar varreu a área ao redor. — Você… até parece, né? — Ela começou, com as sobrancelhas franzidas. — Você não tem mala? Mochila? Nada? Chegou aqui de paraquedas? Cadê seus amigos do surf? Kael sentiu um leve sorriso surgir em seu rosto, mas a ressaca e a aceitação surreal daquela situação o impediam de se importar demais. Ele decidiu, naquele momento, que abraçaria a persona do surfista despojado. Seria mais fácil do que explicar sua vida de magnata preso na ilha. — Não. Não tenho nada. Viajei sem nada. E o pouco dinheiro que eu tinha… — Ele gesticulou com o dedo machucado. — Bom, já era. Eu ia encontrar um amigo, ele sumiu. Cássia o observava, com os olhos apertados. A história dele era absurda, mas a forma como ele a contava, com aquela mistura de arrogância e resignação, parecia… estranhamente crível. Aquele homem, que minutos antes parecia um bêbado inconveniente, agora se apresentava como um tipo de turista excêntrico e sem bagagem, procurando por uma vida nova. Ela balançou a cabeça, sem saber se ria ou se preocupava com a sanidade dele. Kael terminou o pão na chapa e o leite com café, sentindo-se um pouco mais humano, apesar do cheiro de cerveja velha que ainda o impregnava. Ele olhou para o oceano, as águas azuis-esverdeadas convidativas. — Preciso de um banho. — Ele disse, quase para si mesmo, mas alto o suficiente para Cássia ouvir. — Acho que vou dar um mergulho no mar. Lavar a alma, renovar as energias. Cássia o olhou, um julgamento silencioso em seus olhos. A ideia de alguém, ainda que fedorento e de ressaca, simplesmente "mergulhar no mar" para se limpar, em vez de se preocupar com a reconstrução de um negócio, parecia absurda para ela. — Mergulhar? Está frio. — Ela resmungou, sem parar de arrumar as coisas. — Tem umas roupas do meu irmão aqui. Velhas, mas limpas. Você pode tomar banho ali na esquina, no bar. Custa dez reais. Ela fez uma pausa, e então, um lampejo de algo prático e desesperado surgiu em seu olhar. Ela precisava de ajuda, e ele, por mais inusitado que fosse, estava ali, sem nada para fazer. — E… — Cássia continuou, hesitando por um instante. — Se estiver afim, pode trabalhar para mim. O Natan vai precisar de ajuda hoje e eu vou para a pousada… já não aguento mais as reclamações dele. Kael a olhou, com os olhos arregalados, com a proposta o pegando de surpresa. Trabalhar para ela? Ele, o herdeiro de uma fortuna, o homem que empregava milhares? A ironia da situação era quase cômica, e ele teve que reprimir um sorriso. — Eu pago sessenta reais. — Ela disse, com a voz quase um pedido. — É o que posso hoje. Aceita ou não? E dou almoço. Kael, o herdeiro disfarçado, olhou para Cássia. Era uma quantia irrisória. Mas, de repente, o valor monetário se tornou irrelevante. A proposta não era sobre dinheiro, era sobre algo mais profundo: a chance de experimentar uma vida que ele nunca conheceu, de se despir de seu próprio fardo e mergulhar em uma realidade completamente diferente. E a ideia de ser o "modelo de bermuda florida" de Cássia tinha um apelo estranho, de que ela o achou atraente. — Aceito. — Kael respondeu, com um sorriso raro e genuíno despontando em seus lábios, embora ainda um pouco abafado pela ressaca. — Ainda mais depois do pão com o leite com café. Justo. Ele pegou as roupas que Natan colocou no balcão. Tinham cores e desenhos que ele jamais usaria em sua vida "real", mas que, naquele momento, pareciam a farda perfeita para seu novo papel. Cássia apontou a direção da casa do bar, deu uma toalha também. Natan foi junto e levou os dez reais para pagar o banho. Kael seguiu, com o chinelo batendo na areia. O banho foi um alívio, mas a água lavou não apenas a sujeira e o cheiro de cerveja, mas também um pouco do peso que ele carregava. Ao vestir as roupas de Natan, sentiu-se um pouco ridículo, mas também estranhamente leve. A bermuda apertava um pouco nas coxas, e a camiseta era justa demais, mas a estampa exibiu sua boa forma, e sua transformação.
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