Cássia observava Kalel do canto do olho, com julgamento. Ele, por sua vez, retornou ao quiosque com um sorriso vitorioso. Tinha vendido tudo e, ao ver Cássia se aproximar do balcão com a mesma seriedade de sempre, seu sorriso se alargou em orgulho de si mesmo.
— Vendi tudo! — ele exclamou, eufórico, tirando notas de dinheiro do bolso.
— A maioria pagou por Pix!
Ele estendeu o dinheiro para ela, com os olhos brilhando.
— Agora você pode me dar atenção?
Cássia, que já estava contando e organizando seu próprio dinheiro com uma expressão cética, nem sequer olhou para as notas na mão dele.
— Você acha que eu já acabei? — ela disse, com um tom de sarcasmo.
— Ahhh, se fosse fácil assim. Vou trabalhar o dia todo na praia.
Ela levantou o olhar para ele, a intensidade em seus olhos era um aviso.
— Você não precisa fazer nada disso, porque, realmente, nada vai mudar a nossa realidade.
Kalel suspirou, com a exaustão se misturando à frustração. Ele havia insistido, oferecido tudo, e ainda assim Cássia permanecia impassível.
— Você vai se arrepender de tudo isso. — ele disse, com a voz baixa, carregada de uma decepção genuína.
— Achei que fosse mais esperta.
Cássia sorriu, um sorriso vazio e amargo.
— Você tem irmãos, Kalel? — ela perguntou, com a pergunta pegando-o de surpresa.
Ele balançou a cabeça.
— Não. Mas isso é algo para nós dois resolvermos sozinhos. Seu irmão está querendo te abandonar, sendo egoísta, imaturo…
Cássia o cortou, com a voz gélida.
— Não vai adiantar explicar o que significa ter um irmão e como isso pode impactar a vida de uma irmã. Você não sabe o que é amar incondicionalmente um pedaço de você, ter um coração que bate fora do peito.
Os olhos dela se encheram de uma dor antiga, mas a determinação era inabalável.
— Estar com você vai afastar meu irmão de mim. Eu prometi que nunca mais ia colocar alguém no nosso meio. E, sinceramente, acredito que isso jamais daria certo. Você quer se aventurar, não tem nada a perder.
Kalel exalou um suspiro de pura frustração. A parede que Cássia erguia era impenetrável, e suas palavras, tão carregadas de dor, pareciam atingir um muro invisível.
— Cássia, você deveria me dar uma oportunidade. — ele insistiu, com a voz carregada de um apelo desesperado.
— Tire um tempo para conhecer a minha realidade, para saber com convicção se poderia ou não dar certo.
Cássia o olhou, com os olhos marejados de emoção, uma tristeza profunda transparecendo.
— Eu não posso, Kalel. — ela respondeu, com a voz quase inaudível.
— E o fato de você não entender como isso é difícil só reforça o que eu penso sobre você não me entender. Você não enxerga que eu estou de luto, com o meu irmão acamado, sem vê-lo há semanas, sem trocar uma única mensagem.
Eles estavam encostados no balcão, a conversa transcorrendo em um tom baixo, quase secreto, no meio do movimento do quiosque. As palavras dela, como golpes lentos, atingiam Kalel. Cássia começou a chorar abertamente, com as lágrimas escorrendo por seu rosto exausto. Com um movimento brusco, ela pegou o cooler e o isopor, virou as costas para ele e saiu andando, sentindo uma angústia sem tamanho que a sufocava a cada passo pela areia quente.
Kalel ficou parado, observando Cássia se afastar pela areia, com os ombros curvados sob o peso do cooler e do isopor. Uma sensação de incompetência o invadiu, algo que ele, o CEO bem-sucedido e acostumado a resolver qualquer problema com sua fortuna e inteligência, não aceitava ser. Ele se sentiu profundamente chateado. O desprezo de Cássia, a recusa em aceitar sua ajuda, a clareza de suas prioridades, tudo isso o deixou sem chão.
Decidiu que era hora de dar um tempo a ela. Salvou o Pix que havia coletado no cooler, um lembrete tangível da breve e inesperada parceria deles na venda. Enquanto retornava ao resort, a ideia de mandar dinheiro para ajudá-la de forma anônima ou direta cruzou sua mente, mas ele teve a certeza de que ela não ia gostar. Cássia não era movida por dinheiro, e isso o frustrava ainda mais, pois era sua principal ferramenta de "resolução".
Enquanto Kalel se debatia com sua frustração no luxo da pousada, Cássia continuava sua batalha diária. Foi pegar mais geladinhos, assou mais tortas, e passou o dia todo trabalhando exaustivamente sob o sol escaldante da ilha. Cada venda era uma pequena vitória, cada passo na areia uma lembrança de sua resiliência.
Em meio ao cansaço, ela sabia, com uma clareza dolorosa, que estar com alguém como Kalel era um privilégio que ela não podia ter. As complexidades de sua vida, as promessas feitas ao irmão, o luto, as dívidas, tudo isso criava um abismo intransponível entre os dois. Aquele encontro, aquela paixão, por mais intensa que tivesse sido, não cabia na realidade dela.
Natan continuava ignorando a irmã, e Cássia estava sendo consumida pela culpa. Cada minuto do dia era preenchido por imagens do irmão acamado, as acusações ecoando em sua mente. Apesar de toda a dor e do seu apego ferrenho à realidade, ela se pegou pensando em Kalel. Passou o dia todo imaginando como a vida dele era, o luxo, as facilidades, um contraste gritante com sua própria luta diária.
À noite, Cássia ficou horas na sala, olhando para a porta, uma parte de seu coração, ainda esperançosa, desejando que ele a procurasse novamente. Era o que seu coração queria, ansiando por um refúgio da dor e da solidão. No entanto, seu cérebro racional repetia incansavelmente que ela devia esquecer tudo e seguir em frente, que a aventura com Kalel não cabia em sua vida cheia de problemas. O conflito interno a deixava exausta, mas a esperança, por mais tênue que fosse, ainda existia.
Kalel, por sua vez, também não conseguia tirar Cássia da cabeça. Ele estava pensando em um modo de trazer algo real de sua vida, algo que não fosse apenas dinheiro ou "diversão", para a dela. Queria mostrar que era mais do que a imagem arrogante que ela tinha dele.
No dia seguinte, bem cedo, ele montou um roteiro de passeio detalhado, cuidadosamente planejado para que ela pudesse ver um pouco do seu mundo, ou pelo menos, um vislumbre do que ele poderia oferecer. Ele mandou entregar o roteiro na casa dela, junto com um buquê de girassóis, flores que simbolizavam a alegria e a lealdade, na esperança de iluminar a escuridão que a cercava e de transmitir uma mensagem de que ele estava ali, disposto a se mostrar de verdade e a lutar por ela.