Capítulo 2. Um Rei Descontrolado

1080 Words
4 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo — Para, porrä! — Helena gritava, tentava se proteger e combater, mas o puto a segurava forte e pressionava sua cabeça contra o sofá. — Desgraçado! Nunca me imaginei de frente àquela situação. Miguel cerrava os punhos, observando a cena com um olhar odioso que eu muito vi no espelho enquanto eu crescia — o que era realmente ruïm. — Fica calmo. — Foi o que sussurrei ao meu filho, tapando seus olhos com uma das mãos e sacando a pistola com a outra. — Respira fundo e tapa os ouvidos. Ele sempre foi obediente e não diferiu. Fui buscar nosso filho no colégio, como eu fazia todos os dias. Até conversamos enquanto subíamos. Por treze anos, ele nunca me viu atirar em ninguém. Já devia conhecer o cheiro de pólvora e das porcarias que eu vendia, mas ele nunca precisou lidar. Mesmo que ele soubesse, só queria que não lidasse com aquela face minha e consegui... até então. “Merda!”, foi só o que consegui pensar quando puxei o gatilho. Atirei duas vezes no filho da putä e o olhar de Helena arregalou quando o sangue respingou. Miguel nem se assustou, talvez já esperasse. Olhei ao redor e o maldito soldado que deixei guardando ela não estava. Num primeiro momento, relevei, pensei que estivesse na cozinha almoçando. — Sobe ‘pro teu quarto — falei e Miguel assentiu com a cabeça. — Sua mãe ‘tá bem. Eu cuido dela... Soltei e ele subiu sem nem olhar ‘pros lados. Lena já tinha alguns hematomas. Ele bateu de mão fechada, principalmente na cara e isso a fez ficar inchada, sangue escorria do supercílio esquerdo. Ela chorava muito e era de partir o coração. — Vou chamar o VK ‘pra te ajudar, mas vai ao médico — falei, indo ao corpo do playboy, que nunca nem vi na vida ‘pra tentar identificar. — Eric! — Ela se sentou. Meu nome ficava ótimo na voz dela. Achei o documento do puto na carteira. Milton Rodrigues da Cunha. 18 anos. Nunca ouvi falar, apesar de odiar o sobrenome por lembrar um velho inimigo. — ‘Tá bem? — Eu a olhei, suspirando. — S-sim — assentiu com a cabeça. — Cadê o puto? — Olhei à cozinha e estava vazia. — Imagina se eu não pagasse o desgraçado — arfei. Eu sempre desligava o rádio quando ‘tava voltando da escola com Miguel e, voltando a ligar, a tropa ‘tava doida querendo saber sobre os tiros. Alguns já falavam que foi na mansão e perguntavam por Van — o desgraçado que devia impedir aquele tipo de situação. — Também quero saber onde ‘tá — falei no rádio. — Quero ele na mansão. Rápido! Alguém tem que limpar essa merda. Preciso de um carro. VK desce! Bastou eu falar e todo mundo silenciou. — Não faz nada com ele, Eric. Paguei ‘pra ele sair. — Os olhos de Helena encheram de lágrimas muito rápido. — Porrä, sabe que ele é gente boa... — ‘Tá dando ‘pra ele também? — perguntei. — Nem tudo é sobre isso, Eric! — Ele te dá porrada também? — Ele nunca vacilou contigo e ‘cê sabe! — insistiu. — Até agora, Lena. Não vim discutir. O almoço vai chegar. Miguel foi quem escolheu — dei de ombros. — Tenta fazer teu filho ter um almoço normal agora. Mesmo me sentindo revoltado, ainda fui até ela e beijei sua testa. Segui à cozinha. Era tipo americana com bancos nas bancadas onde eu me sentei. Eu já fiz todo tipo de coisa, mas nunca levantei a mão ‘pra ela na minha vida e nenhum filho da putä podia se julgar no direito de fazer isso. Mente vazia é oficina do inimigo. Enquanto esperei, a mente maquinou muita merda, mas eu respirei fundo seguidamente até conseguir parar. Felizmente, funcionou uma vez mais. VK chegou primeiro. Sonhou em ser médico quando criança, mas a vida esmagou seu sonho e eu ofereci muito dinheiro ‘pra ele ser médico ‘pra mim. Era um pretinho de vinte anos. Um dos mais inteligentes que já conheci. Ele sempre voou baixo e nem tinha nome sujo na praça — o que era bom. Assim que viu o estado de Lena, correu até ela. Era outro dos garotos ‘pra quem ela dava nas horas vagas. Isso incomodava, mas a gente já não tinha nada. A gente teve tudo ‘pra dar certo, mas a vida é uma desgraçada. Tudo que tinha ‘pra dar errado deu e a gente não tinha salvação — talvez meu maior pecado. Minha morena ‘tava quebrada no sofá e isso era o perfeito retrato da nossa relação e do que ela significava em minha vida: o total descontrole. Os fortes passos de Van soaram, entrando rápido pelo quintal. Eu já peguei a pistola, impaciente. — Não! — Helena gritou quando levantei. Van a olhou, facilitou. Atirei na cabeça do puto, sem nada falar. Ainda me aproximei ‘pra atirar no peito — fodä-se, era o que eu repetia mentalmente. — Eric! — Ela continuou gritando. — Que inferno! — Acalma ela, VK. ‘Tô subindo. — O carro é ‘pra levar ela? — Ele me perguntou e só assenti com a cabeça. — Vai lá, mano. De boa... Subi aos quartos com pesar. Construí uma putä mansão ‘pra ela, cercada com o que era mais eficiente possível ‘pra proteger ela e Miguel dos confrontos. Entrando no quarto de Miguel, ele ‘tava no banho. Depois que separei de Lena, dediquei todos os luxos ‘pra ele, aquele quarto tinha de tudo! Guardei a pistola ‘pra sentar na poltrona mais próxima da cama de pernas cruzadas. Não precisava falar nada com ele e nem sabia o que falar. Sempre pensei em não estimular que ele vivesse da mesma violência que eu, mas, naquele momento, eu não sabia se conseguiria falar algo realmente decente. Quando vi minha primeira morte, tive muitas dúvidas e não tive ninguém ‘pra responder. Eu não tinha resposta ‘pra tudo, mas ainda podia estar lá. Ele já saiu do banheiro arrumado. Meu filho era meu maior tesouro. Sempre fui um cara muito violento, mas, em nome dele, eu podia ser muito mais! — Oi, pai. — Ele sorriu ao me ver. — E aí. Senta. Vamos bater um papo...
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