Capítulo 3. Ares de Mudança

1056 Words
5 de maio de 2015, Favela da Linha, Macaé — Você ‘tá bem? — A tia perguntava do outro lado da linha. — Leninha ainda não conseguiu falar com ele. Teve um problemão danado! — Soou bem chateada. — Ela ‘tá bem, tia? — Eu me preocupei. — Vai ficar... Deve falar com ele hoje. Os meninos estão te tratando bem? — insistiu, o que me fez rir. — Sim, tia. Ninguém me destratou. Estou comendo direito e até ganhei algumas roupas ‘pra não ficar com aquela mesma porcaria de dois dias. — Que bom. Eu vou tentar encontrar com ele ou com o menino. Não sei. Fico com medo de você estar tão longe assim de casa! — Respirou fundo. — ‘Brigada, tia. — Não agradece. Ainda não falei com minha irmã, mas é bom se preparar, hein! — alertou. — Nada de mentir ‘pra sua mãe, mocinha. — Prometo que não vou mentir, mas quero estar em segurança primeiro. — Foi a minha vez de respirar fundo. — Não quero que ela se preocupe muito. — Impossível, ‘né, menina? — Eu sei, tia. Mas, pelo menos, eu tento, ‘né!? — Tudo bem, tudo bem. Tenta descansar, ‘tá bom? — Sim, senhora. Sua benção, tia. — Deus te abençoe. Desliguei a chamada e me joguei na cama. Assim como no dia anterior, tudo seria muito monótono e silencioso. Não era ruïm, após tanto caos, mas também não era bom — pensamentos demais. Mesmo tentando cumprir com o pedido da tia, descansando, meus sonhos sempre me levavam até Diego me matando de diferentes formas. Sentia que enlouqueceria a qualquer momento! Era por volta das seis horas da noite quando a tia ligou de novo. Atendi rápido, é claro. Estava há alguns minutos de receber a minha quentinha da noite. — Noite, tia! — Não consegui falar com Eric, nem com Helena, mas um menino que trabalha com ele disse que vai mandar um carro ‘pra você vir mais ‘pra perto. — Tudo bem, tia! — Eu respirei fundo. — Não se preocupa com os custos. O menino vai ajudar com isso também. Falei com Aninha e já ‘tá tudo pronto. Ele deve te buscar pela manhã. — Sim, senhora. — Se cuida. Que Deus te abençoe! — desligou. Aquela notícia me deixou eufórica, não mentirei. Eu não estava tão otimista antes, mas aquilo me encheu de felicidade e medo das incertezas. Foram muitos anos longe do Rio de Janeiro. Cresci em São Paulo e já não sabia se seria capaz de me acostumar novamente com a vida carioca. — Senhora! — Uma moça chamou após bater à porta. — Trouxe a quentinha. Senhora! — Bateu de novo. Eu me apressei à porta e era uma moça nova, talvez tivesse minha idade. Ela tinha uma grande bolsa térmica e já estava abrindo quando cheguei. — B-boa noite. Desculpa a demora! — falei rápido. — Não demorou! — Ela meneou a cabeça. — Está tudo apagado, pensei que estivesse dormindo — riu. Eu só cocei a cabeça e sorri acanhadamente. “Não tenho luz...”, foi o que pensei comigo. — Bife e fritas. — Ela falou, tirando a quentinha, que tinha isso escrito em letras redondinhas. — Bom apetite. Pode deixar que já ‘tá pago! — alertou. Tinha talheres de plástico junto ao pratinho. — C-claro. ‘Brigada. — Nada. — Ela fechou a bolsa e acenou ‘pra sair. Odiava comer no escuro, então me sentei na porta de casa, me aproveitando da iluminação da viela mais próxima — que era bem forte... invejável! Enquanto comia, o novinho — nitidamente meu “guarda” — se aproximou e sentou nos degraus abaixo. — Como ‘tá? — Ele perguntou, sem me olhar. — B-bem. ‘Brigada pela ajuda. — ‘Tá tranquilo! — Ele riu. — Quando chegar lá, manda um abraço ‘pro Naval. Ele vai cuidar bem de você. — Ele me olhou sobre os ombros. — É gente boa. — Todo mundo fala bem dele — ri. — É um bom chefe... — Ele assentiu com a cabeça. — Leal ‘pra caralhö. Não deixaria você na mão, principalmente sendo parente da primeira-dama. — Faz muito tempo que não fala com ele? — perguntei. — ‘Cê soa alguém com bastante saudade. — Porra... e como! — riu. — Desde que vim ‘pra cá, não falo com ele, nem com ninguém do Batan. A tropa em casa é coisa de louco... Tenho ‘mó saudade. — Quem ‘cês são aqui? — Fiquei curiosa. — Como assim? — Ele recostou na parede ‘pra me olhar. Ajeitou o fuzil ‘pra conseguir alternar o olhar tanto ‘pra cima quanto ‘pra baixo. — A facção... Qual é? — A gente é amigo, ‘pô. Não sabia que Batan virou amigo há... sei lá... dez anos? — Ele franziu o cenho. — Não fazia ideia. — Meneei a cabeça. — Foi uma guerra do caralhö. — Ele arfou. — Acho que a maior que eu já vi, ‘tá ligada? A tropa trabalhou a pampa. Alguns irmãos caíram, mas sobrevivemos... — Quantos anos ‘cê tem? — Franzi o cenho. — Vinte. Até arregalei os olhos, não acreditando que aquele garoto, que mais parecia ter quinze anos, tinha aquela idade realmente — fiquei de cara. — Nunca adivinharia — ri. — Alguns de nós não envelhecem — riu. — Sei que não pareço. Já ‘tô no movimento desde novinho... — Estudou? — perguntei. — Um pouco. Naval pegava no meu pé ‘pra isso. Acabei atendendo. — Deu de ombros. — Ele sempre tentou tirar a gente dessa, mas é fodä, sabe? — Não... — Meneei a cabeça e ele acabou rindo. — É sério. Não sei como pode ser fodä viver essa vida! — reafirmei. — É perigoso. Pouco digno... e ‘cê sabe! — Claro que sei, mas não me acostumaria se saísse. Já cresci com as facilidades do crime. Nunca me acostumaria com as dificuldades da honestidade. — Complicado... — Foi o que concluí. Apesar de tudo, eu podia entender perfeitamente o que ele queria dizer, mas ainda me fiz de idiotä e só segui mantendo a mesma chateação no semblante. Não era totalmente mentira...
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