5 de maio de 2015, Favela da Linha, Macaé
— Você ‘tá bem? — A tia perguntava do outro lado da linha. — Leninha ainda não conseguiu falar com ele. Teve um problemão danado! — Soou bem chateada.
— Ela ‘tá bem, tia? — Eu me preocupei.
— Vai ficar... Deve falar com ele hoje. Os meninos estão te tratando bem? — insistiu, o que me fez rir.
— Sim, tia. Ninguém me destratou. Estou comendo direito e até ganhei algumas roupas ‘pra não ficar com aquela mesma porcaria de dois dias.
— Que bom. Eu vou tentar encontrar com ele ou com o menino. Não sei. Fico com medo de você estar tão longe assim de casa! — Respirou fundo.
— ‘Brigada, tia.
— Não agradece. Ainda não falei com minha irmã, mas é bom se preparar, hein! — alertou. — Nada de mentir ‘pra sua mãe, mocinha.
— Prometo que não vou mentir, mas quero estar em segurança primeiro. — Foi a minha vez de respirar fundo. — Não quero que ela se preocupe muito.
— Impossível, ‘né, menina?
— Eu sei, tia. Mas, pelo menos, eu tento, ‘né!?
— Tudo bem, tudo bem. Tenta descansar, ‘tá bom?
— Sim, senhora. Sua benção, tia.
— Deus te abençoe.
Desliguei a chamada e me joguei na cama.
Assim como no dia anterior, tudo seria muito monótono e silencioso. Não era ruïm, após tanto caos, mas também não era bom — pensamentos demais.
Mesmo tentando cumprir com o pedido da tia, descansando, meus sonhos sempre me levavam até Diego me matando de diferentes formas.
Sentia que enlouqueceria a qualquer momento!
Era por volta das seis horas da noite quando a tia ligou de novo. Atendi rápido, é claro. Estava há alguns minutos de receber a minha quentinha da noite.
— Noite, tia!
— Não consegui falar com Eric, nem com Helena, mas um menino que trabalha com ele disse que vai mandar um carro ‘pra você vir mais ‘pra perto.
— Tudo bem, tia! — Eu respirei fundo.
— Não se preocupa com os custos. O menino vai ajudar com isso também. Falei com Aninha e já ‘tá tudo pronto. Ele deve te buscar pela manhã.
— Sim, senhora.
— Se cuida. Que Deus te abençoe! — desligou.
Aquela notícia me deixou eufórica, não mentirei. Eu não estava tão otimista antes, mas aquilo me encheu de felicidade e medo das incertezas.
Foram muitos anos longe do Rio de Janeiro. Cresci em São Paulo e já não sabia se seria capaz de me acostumar novamente com a vida carioca.
— Senhora! — Uma moça chamou após bater à porta. — Trouxe a quentinha. Senhora! — Bateu de novo.
Eu me apressei à porta e era uma moça nova, talvez tivesse minha idade. Ela tinha uma grande bolsa térmica e já estava abrindo quando cheguei.
— B-boa noite. Desculpa a demora! — falei rápido.
— Não demorou! — Ela meneou a cabeça. — Está tudo apagado, pensei que estivesse dormindo — riu.
Eu só cocei a cabeça e sorri acanhadamente.
“Não tenho luz...”, foi o que pensei comigo.
— Bife e fritas. — Ela falou, tirando a quentinha, que tinha isso escrito em letras redondinhas. — Bom apetite. Pode deixar que já ‘tá pago! — alertou.
Tinha talheres de plástico junto ao pratinho.
— C-claro. ‘Brigada.
— Nada. — Ela fechou a bolsa e acenou ‘pra sair.
Odiava comer no escuro, então me sentei na porta de casa, me aproveitando da iluminação da viela mais próxima — que era bem forte... invejável!
Enquanto comia, o novinho — nitidamente meu “guarda” — se aproximou e sentou nos degraus abaixo.
— Como ‘tá? — Ele perguntou, sem me olhar.
— B-bem. ‘Brigada pela ajuda.
— ‘Tá tranquilo! — Ele riu. — Quando chegar lá, manda um abraço ‘pro Naval. Ele vai cuidar bem de você. — Ele me olhou sobre os ombros. — É gente boa.
— Todo mundo fala bem dele — ri.
— É um bom chefe... — Ele assentiu com a cabeça. — Leal ‘pra caralhö. Não deixaria você na mão, principalmente sendo parente da primeira-dama.
— Faz muito tempo que não fala com ele? — perguntei. — ‘Cê soa alguém com bastante saudade.
— Porra... e como! — riu. — Desde que vim ‘pra cá, não falo com ele, nem com ninguém do Batan. A tropa em casa é coisa de louco... Tenho ‘mó saudade.
— Quem ‘cês são aqui? — Fiquei curiosa.
— Como assim? — Ele recostou na parede ‘pra me olhar. Ajeitou o fuzil ‘pra conseguir alternar o olhar tanto ‘pra cima quanto ‘pra baixo.
— A facção... Qual é?
— A gente é amigo, ‘pô. Não sabia que Batan virou amigo há... sei lá... dez anos? — Ele franziu o cenho.
— Não fazia ideia. — Meneei a cabeça.
— Foi uma guerra do caralhö. — Ele arfou. — Acho que a maior que eu já vi, ‘tá ligada? A tropa trabalhou a pampa. Alguns irmãos caíram, mas sobrevivemos...
— Quantos anos ‘cê tem? — Franzi o cenho.
— Vinte.
Até arregalei os olhos, não acreditando que aquele garoto, que mais parecia ter quinze anos, tinha aquela idade realmente — fiquei de cara.
— Nunca adivinharia — ri.
— Alguns de nós não envelhecem — riu. — Sei que não pareço. Já ‘tô no movimento desde novinho...
— Estudou? — perguntei.
— Um pouco. Naval pegava no meu pé ‘pra isso. Acabei atendendo. — Deu de ombros. — Ele sempre tentou tirar a gente dessa, mas é fodä, sabe?
— Não... — Meneei a cabeça e ele acabou rindo. — É sério. Não sei como pode ser fodä viver essa vida! — reafirmei. — É perigoso. Pouco digno... e ‘cê sabe!
— Claro que sei, mas não me acostumaria se saísse. Já cresci com as facilidades do crime. Nunca me acostumaria com as dificuldades da honestidade.
— Complicado... — Foi o que concluí.
Apesar de tudo, eu podia entender perfeitamente o que ele queria dizer, mas ainda me fiz de idiotä e só segui mantendo a mesma chateação no semblante.
Não era totalmente mentira...