Capítulo 4. A Única Salvação

1088 Words
5 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo — Já pedi ‘pros moleques irem. Nem falei com a sogra ainda. — arfei, meneando a cabeça. — A gente termina com a carga e eu preciso buscar Miguel. — É mais fácil ‘cê ir e eu cuido de tudo aqui. — DG falou, dando de ombros. — Tu parece na merda, cara. Só vai... e vê se dorme! — alertou. DG era um dos poucos da antiga tropa que ainda ficou. Crescemos juntos basicamente. Ele era pardo, sempre de cabelo cortado e cavanhaque feito. Tinha uma pinta de nerd que as minas curtiam. Era fodä com números e, se fosse mais novo, com certeza seria meu 02. — Vou me adiantar, então. — Dei de ombros. — Vai lá, ‘pô. — Ele assentiu com a cabeça. Já fazia algum tempo que o morro ‘tava em paz. Todas as minhas decisões, até as péssimas, frutificaram em bons tempos para, ao menos, a infância de Miguel. Foi razoável e os ventos não pareciam soprar mais guerra na direção da minha vida. Claro, eu jamais abaixava a guarda — nunca se pode duvidar da vida. Estava descendo quando achei a sogra. Ela sorriu largo ‘pra mim. Ao me aproximar, beijei sua testa. — Boa tarde! Indo buscar meu neto? — riu. — Sim — assenti. — Como a senhora ‘tá? — Bem. ‘Brigada por ajudar Helena. — Seu olhar logo entristeceu. — Não sei o que seria de nós se você não cuidasse tão bem da gente. — Só minha obrigação — sorri, modesto. — Ela já deve estar a caminho. ‘Brigada mais uma vez! — Ela começou a se acanhar. — Não sei o que deu nesse mundo ‘pra fazer mäl às minhas meninas. — Sempre foi assim — lamentei. — Infelizmente. — Se ‘cês não tivessem separado, ela não passaria por isso. — Meneou a cabeça. — Menina teimosa! — A gente não era ‘pra ser, ‘né, tia? — Claro que o assunto incomodava. — Bom, tenho que me apressar, senão me atraso e ele fica doido! — Fingi um riso. — Vai lá! Tornei a beijar sua testa e desci um pouco mais rápido. Atrasado, eu já estava. Contudo, Miguel não se incomodava realmente com isso. Saindo da favela, a tropa sempre espreitava. O colégio dele era pouco depois da principal descida do morro, ainda nosso domínio — apesar das armas e soldados ficarem omitidos nas diversas casas. Miguel estava com a amiga Patrícia. Eram inseparáveis desde cedo — pareciam Helena e eu, com o adendo que ele era mais malicioso naquela idade. Patrícia era uma preta muito bonita. Era mais velha que ele com quinze. Seu irmão mais velho trabalhava ‘pra mim e o mais novo flertava com a ideia. Nunca fui de envolver trabalho e a vida pessoal, então só aconselhava ‘pra ele não entrar — no fim, a decisão seria dele e eu não me incomodaria. Miguel não era tão diferente de mim. Tinha curtos cabelos escuros; era magro e herdou a altura da mãe, sendo bem alto ‘pra sua idade. Tinha os olhos claros da minha mãe. Eu nem me lembrava como os olhos da mãe pareciam até eu vê-los estampados no rosto do meu filho — foi provavelmente a emoção mais forte que já vivi. Naquela tarde, o olhar dele estava bem hostil. — Problemas? — Foi o que perguntei ao chegar. — Nada não, meu pai. — Ele se levantou. — ‘Bença. — Que Deus te faça feliz. Boa tarde, Pati. — Tarde, tio. — Ela sorriu. — Eu já vou andando. Tenho que encontrar minha mãe no ponto de ônibus. — Quer companhia? — ofereci. — Não, tio. Sabe que a mãe odeia! — riu. — Tudo bem. Então, vai lá. — A gente fica de olho! — Miguel sorriu. — Tudo bem. Fica calmo! — Ela falou ‘pra ele. Eles se abraçaram, silenciados, e ela partiu. — Problemas? — insisti na pergunta, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. — Aproveita agora... — Só... estresse! — Ele bufou, aceitando a ajuda. — Se for arrumar briga por aí, sua mãe vai ficar louca — falei, meneando a cabeça. — Qual é a do papo? — Um babaca. Chegou hoje e acha que é forte. — Ele respirou fundo, pondo as mãos no bolso. — Nem tenho grupinho, mas ele cismou com minha cara. — Devem ser as histórias... — Com certeza, pai! — Voltou a menear a cabeça. — A gente deve ter um negócio amanhã, lá na S... — Sua mãe vai ficar louca — ri e ele também. — É só uma festinha. Geral do colégio. — Fala com ela. Sendo no morro, eu sou quem menos se incomoda. Só usa a porrä da camisinha se for transär e fica longe das drogas — alertei. — ‘Tá tranquilo, pai. — Cuida da Pati também! — Claro! — Ele assentiu com a cabeça. — Ela é minha irmã, ‘pô. Agora ‘tá de namorado novo. Um playboy de Bangu. Não gostei, mas não falei nada. — Atividade! — Tornei a alertar. — Eu sei, pai. ‘Tá tranquilo. De volta à mansão, ele abriu o portão da casa e não tinha ninguém no quintal. Dessa vez, estava mais silencioso e, na sala, Helena escrevia. Já tinha curativos e tudo mais. No canto, perto da escada e bem escondido, era onde estava VK. Ele só cumprimentou com um aceno. — ‘Bença, mãe. ‘Tô subindo! — Miguel falou. — Deus te abençoe. — Helena o respondeu. — Sim, eu já sei da sua priminha — falei, parando na porta da casa. — Já tem gente indo buscar. Não pude parar ‘pra pensar nisso ainda, mas devo fazer logo. — Dormiu, Eric? — Ela soou preocupada. — Impossível! Mas, eu sobrevivo. Como ‘tá? — Melhor... — Ótimo. Vou deixar um dinheiro com VK e ‘cê sai com a garota ‘pra comprar roupa e tudo mais. Soube que ela ‘tá começando do zero, ‘né? — Sim — assentiu com a cabeça, chateada. — Dou essa moral. Ela deve ficar pelo hotel hoje, mas os garotos já vão ficar por lá mesmo. Se alguém vier tretar, já vai ser respondido com fogo! Ela respirou fundo. Sempre odiou que eu falasse daquela forma, mas fodä-se, ‘né? Cumprimentei VK e só saí. Ainda tinha muito trabalho pelo dia.
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