11 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
A pele de Naval, enquanto estava possesso, avermelhava com muita facilidade. Não bastava eu estar apavorada pela atitude e o tiro anterior.
Ele saiu da casa como uma bala até o garoto, que era um jovem, nem parecia muito mais velho que a irmã. Tudo desceu numa ladeira direto ao abismo!
Eu não consegui reagir àquilo.
— É assim que trata os seus? — Era a frase calma que Naval proferia quando eu cheguei à porta da casa.
O tom de voz diferia do quanto eu vi ele sentir raiva. Dessa vez, não foi só o olhar que pareceu raivoso.
Ele tinha pistolas em mãos, provavelmente ainda destravadas, mas ele não usou. O garoto tentava se arrastar e os chutes que ele usava para derrubá-lo eram suficientemente audíveis — apesar dos altos gritos.
Bastou ver um único deles ‘pra eu simplesmente virar o rosto. Engoli seco e me percebi trincando os dentes — era agonizante demais até ‘pra mim.
As pancadas continuaram. Eu ainda ouvi quando a mulher saiu e só isso me retornou à realidade. Foi ali que eu entendi o pedido dele, o porquê de estar ali.
Ao menos, foi o que eu concluí ao ouvi-la.
Fui rápida ao impedi-la de seguir na direção do filho — senti minha alma rachar um pouquinho por isso, uma aflição simplesmente indescritível.
Bastou segurá-la ‘pra frágil muralha que ela conseguiu reerguer, voltar a desmoronar. Sobre os joelhos, ela chorou e eu acabei chorando também.
As pancadas continuaram se repetindo e os gritos também. Até que simplesmente cessaram.
— Alguém leva esse filho da putä ‘pra casinha! — Eric foi quem quebrou o silêncio. — Avisa o Aílton que o filho da putä ‘tá lá... se ele roncar, mata ele!
— Meu filho! — A mulher gritou.
Olhei na direção de Eric e ele estava olhando ‘pra nós. A tal melancolia intensa estava lá de novo, o que me fez simplesmente largar a mulher e ir até ele.
Conforme me aproximei, notei o olhar perdido vez ou outra, o que estranhei, mas só parei em sua frente, fitando seus olhos.
O coração mäl se aguentava no peito. Não só pela apreensão que eu sentia por ele, mas também pelo pavor que eu tinha dele naquele momento.
— Eric! — Eu o chamei.
Quando fitou meu olhar, ele simplesmente pareceu vazio. De repente, era como estar de frente ‘pra alguém que nem existia, que nada sentia.
— ‘Bora... — Foi só o que ele falou.
Não abaixou a cabeça ‘pra me olhar, a postura mais altiva que nunca foi mais que suficiente ‘pra me intimidar... eu nem consegui falar nada, só assenti.
Outros garotos com balaclavas, roupas e armas pesadas saíram do meio do mato — mais pareceu do meio do nada — e pegaram o menino desacordado.
Pensei que Eric sairia, mas ele voltou a entrar na casa. Só caminhou no interior, olhou cada armário, cada gaveta daquele lugar. Ali, a pobreza era pior.
Num dos quartos, encontrou muito dinheiro dentro de um fichário, abaixo do colchão. Ele ainda abaixou a cabeça e respirou fundo. Deu para ver seu peito tremular, mas ele espalhou as notas no colchão.
Só assentiu com a cabeça repetidamente.
Tinha algumas folhas no tal fichário, elas tinham nomes de homens. Sete nomes com alguns valores anotados, ele acabou lançando o fichário na parede.
Enquanto voltava a respirar fundo, eu o envolvi às suas costas. Pude ver sua pele arrepiar e ele só parou, abaixou a cabeça e eu senti os soluços em seu peito.
— Calma... — Eu só podia pedir.
— Eu ‘tô tentando! — Foi a primeira vez que eu lidei com sua voz embargada pelo choro. — Eu juro...
Dava ‘pra sentir sua carne tremer, dava ‘pra ver!
— Eu sinto muito. — Foi o que pude falar.
— Eu também! — Ele arfou.
Os ombros relaxaram, não por calma, mas transmitindo o quanto ele se sentia derrotado. Eu pude me sentir derrotada, meramente por estar ali com ele.
— Eu sei pilotar motos — sussurrei.
— Eu não ‘tô bem ‘pra isso.
— Posso sentir. Eu te levo.
— ‘Brigado, linda!
Ele mexeu no bolso da bermuda e tirou um isqueiro. Ao menos, parecia um isqueiro, até ele abrir e começar a entornar algo sobre o dinheiro.
Mexeu em outro bolso ‘pra tirar um isqueiro mais vagabundo e pôs fogo na roupa de cama. Com todo aquele jeito bruto, ele me tomou pela cintura.
Acabou sendo quem me guiou à moto.
Ainda fui aquela que pilotou e ele veio logo atrás. Não parecia capaz de deixar a pistola de lado, algo que eu achei exótico — logo atribuí a algum hábito que ele desenvolveu com sua vida perigosa, pelo perigo talvez.
Quando paramos na frente de sua casa, ele ficou na moto e eu nem me movi ‘pra sair. Respirava fundo de forma tão forte que era audível ‘pra mim.
Com a testa encostada nas minhas costas e uma das mãos em minha cintura, mäl eu podia me mexer.
Demorou alguns minutos, mas eu pude sentir seu corpo acalmar. Deixou de tremular e, devagar, a respiração já não estava tão acelerada.
— Eu te levo ao seu quarto — falei quando ele desceu da moto. — Não gostaria que negasse. Estou muito preocupada e não sei bem como ajudar.
Tenho certeza que meus olhos imploravam.
— Eu vou. — Ele assentiu com a cabeça. — Se pedi tua ajuda, seria idiotä não te ouvir. — Soava muito mais sério, apesar de ainda tentar sorrir.
— Seu sorriso não me convence...
— Sei, mas eu prometi tentar. — Seu olhar perdido logo voltou à melancolia. — Se Miguel perguntar, diz que ‘tô lutando. Ele vai entender.
— Já falou com ele sobre isso?
— Meu filho é um grande amigo também. — Ele acabou sorrindo. Aquela foi a primeira lágrima que eu vi correr seu rosto e eu só consegui engolir seco.
Ele se virou e entrou rápido.
Foi como uma faca atravessando meu peito e eu só entrei, me sentindo desolada — como nem o pior dia de ameaças com Diego me fez sentir.
Na real, era uma impotência bem diferente!