Capítulo 30. Monstro Invisível

1149 Words
11 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo — Eu juro que eu não ‘tava usando, nem fazendo nada disso! — Miguel se defendia com unhas e dentes. Tinha lágrimas nos olhos, o que o fazia soar convincente. Ele devia ter dez anos naquele momento. — ‘Tá chamando sua mãe de mentirosa!? — Lena logo aumentou o tom de voz, estava com bastante raiva. Era a porta da minha casa. Ela agarrou o menino pelo braço ‘pra subir o morro e quase derrubou a porta ao bater, chamando por mim esgoeladamente. Não ‘tava em casa, mas larguei tudo que ‘tava fazendo quando a tropa avisou que Lena ‘tava subindo enquanto chamando a atenção de Miguel. — O que houve? — Foi o que perguntei, olhando-o. — Houve que seu filho ‘tava enfiado numa casa cheia de maconheiro! — Helena assumiu a palavra por ele e eu apenas mantive o olhar em sua direção. — Eu não ‘tava usando! — Miguel insistiu. — Deixa ele aqui e eu converso com ele. — Foi só o que falei ‘pra Helena e pronto. Aquilo bastou ‘pra ela ficar ainda mais escandalosa, achando que eu o protegeria. Foi no meio da confusão que eu simplesmente parei e lembrei de Patrícia. Olhei na direção da rua que levaria para sua casa com certa confusão. — Pai. — Miguel me agitava. Acabei levantando rápido e o olhando com preocupação. Ainda tinha a mesma confusão do sonho. Já procurei a pistola ‘pra me levantar. — Calma, pai. É hora do jantar. — Miguel falou. — C-claro. ‘Brigado. — Eu me aproximei dele ‘pra beijar sua testa. — Que Deus te faça feliz. — ‘Bença. — Ele me olhou com preocupação. — Parecia um sonho agitado. O senhor ‘tá bem? — S-sim, nada que seu pai não aguente — ri, bagunçando seu cabelo. — Precisava sair ‘pra comprar umas roupas ‘pra Pati... Nem deu. Desculpa! — De boa! — meneou a cabeça. — Sabe que tem roupa dela no meu armário. Ela ainda ‘tá descansando. Acordou, mas eu pedi ‘pra voltar a dormir. — Como ‘cê ‘tá? — Eu segui na direção do banheiro ‘pra jogar uma água no rosto. — E tua prima... — Alma desceu ‘pra vó. Veio duas vezes, mas o senhor ainda descansava, então ela disse que não incomodaria — explicou, parando à porta. Parando na frente do espelho, eu ainda o encarei por algum tempo. Silenciado, eu só foquei em não voltar a sentir toda aquela raiva que me atropelou. Meu filho não merece isso, era o pensamento. — ‘Tá perdendo? — Ele soou preocupado. — Não, eu ‘tô vencendo. — Olhei-lhe e sorri. Miguel ainda se aproximou e me abraçou. Só há uma opção errada na vida: quando se abdica de ser qualquer um ‘pra viver em prol da violência; quando se permite inebriar por ela... essa foi uma lição que eu repeti muito ‘pra ele enquanto crescia. Existe um monstro dentro de todo mundo, só esperando a primeira gota de sangue ‘pra se fortalecer. Não tive escolha quando lidei com esse monstro crescendo após a morte da minha mãe. Não me ative e sentia tanta dor pelo luto que não pareceu relevante. Uma lição mais amarga, depois do nascimento dele, foi tentar aprender como não ser esse monstro em sua frente — a independer do que eu sentia. Um dos pontos fortes dos nossos demônios internos é justamente sua capacidade de gritar alto o suficiente ‘pra nos aturdir. — Seu pai vai ficar bem. — Retribuí o abraço. Foi, também, por ensinar isso ‘pra ele que seu maior medo era eu me perder. Consegui fazê-lo entender que a morte é breve e rápida. Bastava um tiro na minha cabeça e ele nunca mais ouviria minha voz. Contudo, pior que a morte por um mero tiro era a total entrega ao tal monstro onde ele ouviria minha voz como uma faca arrancando sua alma. Não vou mentir, era um medo meu também e, por esse medo que eu muito alimentava, ainda me era possível seguir em meio à corda-bamba. — Pati vai comer com a gente? — perguntei após consolá-lo. — É bom chamar ela, não acha? — sugeri. — Eu vou. — Ele assentiu. — Eu te amo, pai. — Seu pai também te ama muito, anjo. Miguel se apressou ‘pra fora do quarto e eu só me apoiei na pia do banheiro. A torneira ainda ‘tava aberta e eu só observei a água cair por um tempo. Era uma merda que um filho da putä, sem motivo algum, decidisse expor o meu filho àquela situação — mesmo que fosse só mais um cretino, parecia de propósito. Dos pensamentos perigosos, eu fugia desse tipo ‘pra impedir um inimigo de acordar: a paranoia. Eu a vi corroer meu último chefe, eu o vi virar um puto muito pior do que já era, eu o vi, suicida, correr na direção do meu braço direito, desarmado, tentando e conseguindo ter sua vida tirada com vários tiros. Ele era um puto, definitivamente. Nunca aceitou que a minha mãe foi muito fiel a ele, nem no fundo do poço teve a decência de me chamar de filho. “Eu não vou ser igual a você!”, eu muito gritei isso ‘pra ele enquanto crescia. Joguei na sua cara por anos. Era minha razão de ser, não ser ele. Isso tornava todo “eu te amo” recebido de Miguel muito mais forte. Dava sensação de missão cumprida e, buscando essa sensação, desci as escadas ‘pra ir à sala. Já peguei o rádio ‘pra ver como foi a chegada dos meus. ‘Pro meu alívio, estavam bem e não sofreram nenhum ferimento no processo. Não estava bem ‘pra trabalhar àquela hora, então nem fiz menção de descer. A mesa da cozinha ‘tava servida com a refeição, então eu assumi meu lugar e aguardei a duplinha. — Sua mãe já ‘tá avisada que você ‘tá aqui — falei ‘pra Pati. — Não se incomodou muito — sorri. — A mãe não se incomodou!? — Ela franziu o cenho, estranhando. — Ela ‘tá doente!? — riu. — Não, ‘tá saudável. A gente só bateu um lero muito franco. — Dei de ombros. — Como ‘tá se sentindo? — B-bem. ‘Brigada, tio. — Ela sorriu acanhada. Eles se juntaram à mesa ‘pra comermos. O silêncio imperou e eu não me atrevi a quebrá-lo. Honestamente, a quietude me caiu muito bem naquele momento e provavelmente até ‘pra eles. Ao fim, a dupla lidou com a louça e, como eu não desceria ‘pra trabalhar, fiz a sala de escritório noturno.
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