13 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
— Ao que parece, a guerra da Roça foi só o começo. — VK falava enquanto eu bolava ‘pra gente. — ‘Tão falando que eles ‘tão tretando na Barra também.
— Posso me informar sobre. — Dei de ombros. — Alguém andando muito por lá ou eles só ‘tão neuróticos demais? — desconfiei, olhando-o com atenção.
— Acho que tem muita treta envolvida. Eles nunca enchem a rua de gente... e tem segurança a cada esquina. Muita ronda de viatura... Alguém sabe algo.
— Tranquilo. Vou mandar um convite formal — ri. — Tem uns amigos por lá que ainda são gente boa e não tretam muito com a gente, apesar de odiar o tráfico.
— Valeu. Se esquentar, já avisei a Helena que ela não vai abrir o salão. Ela ficou putä, como sempre, mas ainda acatou. — Ele me olhou com certo receio.
Terminando de bolar o baseado, eu só acendi.
A pior parte de tomar decisões de cabeça quente é que o arrependimento pode ser horrível.
A pior parte de ser eu é que nem consegui sentir arrependimento algum por aquele tapa nela.
A culpa acabava sendo por isso.
— A gente ‘tava querendo... uma parada mais oficial... sabe!? Uma parada mais séria — falou sem jeito. — Não quero problema contigo... nem vou tretar.
— Ela é solteira, meu mano. — Passei a bola ‘pra ele. — Nunca vou reagir a você por causa de ciúme...
— Mas, não quero que piore, ‘né!? — riu.
— Agradeço a consideração! — Eu lhe sorri.
— É o mínimo, ‘né!? O bagulho só...
— Tem que tomar cuidado, ‘tá ligado!? — Eu me ajeitei no sofá e respirei fundo ‘pra olhar nos olhos dele. — A treta com Lena é fodä... difícil a pampa.
— Sei que ‘cês ainda se enrolam.
— Pois é! — assenti com a cabeça. — Odeio isso, mas acontece. Não vou te garantir que se ela vier, eu não vou aceitar... eu não sei negar a vagabunda...
— Fodä é que ela mexe comigo ‘pra caralhö — arfou, devolvendo o baseado. — Tudo podia ser muito melhor ‘pra gente... só que não, ‘né!? — lamentou.
— Se for tentar algo com ela, eu realmente espero que ‘cês fiquem bem — falei com toda minha franqueza. — Odeio isso, mas ‘cê é meu irmão, ‘pô.
— Valeu, meu mano. — Ele sorriu acanhado. — Vou me adiantar, antes que ela venha e ‘cês acabem em outro barraco — riu. — Precisando, é só chamar.
— Tranquilo! — sorri amarelo.
Ele deixou a minha sala e eu só segui com meu baseado. Aquela fumaça até ajudou a organizar os miolos de volta na cabeça.
Nem foi necessário me mover. Peguei o telefone ‘pra fazer contato com todo mundo que podia ajudar com qualquer esclarecimento da situação nos vizinhos.
Na área onde Helena criou o salão, eu tinha alguns velhos colegas. Era uma área tomada por uma milícia que nunca quis problemas com ninguém.
Na real, toda aquela nossa área da Zona Oeste era desse tipo. Cada um, a sua maneira, tinha como principal objetivo ter mínima paz durante sua atuação.
Isso fazia todo mundo ser obrigado a cooperar.
Mesmo a velha rivalidade, ADA e CV, já foi colocada de lado, considerando a quietude da nossa área — disso, tínhamos muito orgulho diariamente.
Claro, quando alguém resolvia fazer merda, devia ser imediatamente eliminado e isso era feito com a colaboração de todo mundo que fosse necessário.
Nem precisei recorrer a esse velho acordo de paz.
Na hora do almoço, eu só coloquei os óculos escuros e desci. Nem me importei com a blusa ou com o chinelo, senão me atrasaria ‘pra buscar Miguel.
Honestamente, eu já estava lento o suficiente.
Quando cheguei na porta do colégio, ele ‘tava com Patrícia. Sentados na porta do colégio enquanto um dos meus soldados não estava tão distante.
— ‘Bença. — Miguel me cumprimentou.
— Que Deus te abençoe, meu anjo. — Eu beijei sua testa. — Boa tarde, Pati. Como foi a aula?
— Boa... — Miguel respondeu. — A gente pode dar uma saída hoje, pai? — Ele me olhou com aquela cara de quem estava implorando. — Tipo, comer um sorvete...
— Tipo, comer um sorvete — repeti, rindo.
Ele acabou virando o rosto rápido, acanhado.
— Ele ‘tava falando que eu preciso de mais roupas e disse que a gente podia cair no shopping da Sulacap ‘pra isso. — Patrícia falou. — Não sei onde ‘tá o sorvete nisso.
— Não me incomodo que saiam. Tem algumas dessas coisas de colégio ‘pra fazer? — perguntei.
— Tem, mas a gente chega antes da noite cair ‘pra isso. — Ele assentiu com a cabeça. — Não devemos exagerar, nem nada disso — sorriu de canto.
— Fiquem à vontade. Já sabe quem chamar...
Miguel assentiu com a cabeça e nós subimos com muita tranquilidade. No caminho, cuidei de comunicar Piloto sobre a saída dele e tudo já começou a se ajeitar.
— Teu pai deve fazer uma festinha lá em cima. Na hora que chegar, deve ‘tá tudo mais calmo ou mais quente — alertei. — Pode subir direto.
— Sim, senhor! — Ele assentiu.
— Se quiser se juntar, tranquilo também. — Dei de ombros. — O assunto de gente grande deve acabar cedo, se tudo der certo.
Ele até sorriu de canto, mas nada falou.
Lidamos com nosso almoço e seguimos ‘pra casa. Eles não se apressaram ao comer, mas foram ágeis com a louça ‘pra subirem ao quarto, se arrumarem e saírem.
Foi rápido ajeitar tudo na casa. O espaço atrás de casa era bem grande com direito a piscina e churrasqueira, suficiente ‘pra uma festinha.
Só precisei da bebida, das carnes e das putäs.
Em uma hora, eu já ‘tava sentado na minha cadeira, observando as meninas chegarem em seus biquinis, toda rebolativas, como sempre.
— Não quero ninguém em cima de mim — falei quando elas se reuniram na minha frente. — Tem uns amigos chegando. Coca e lança na mesa.
Elas se entreolharam e sorriram largo.
Já se distribuíram pelo espaço, me deixando em paz. Um amigo foi quem assumiu a churrasqueira e, em instantes, já tinha muita raba rebolando na piscina.
A visão era bonita, não vou negar, mas eu não tinha o menor intuito de usufruir de nenhuma delas.