10 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
Eu estava com uma dor de cabeça infernal; sentia tanto frio que o corpo inteiro doía pela tensão; mas, ainda não podia simplesmente parar de trabalhar.
Não era o fim do mundo e eu sabia, mas ficava muito puto quando alguém cometia algum erro que tinha risco de acabar com a vida dos meus.
Pior, Piloto era parte da família. Eu não podia ter contato com ele, as notícias eram do avanço dos putos e, muito provavelmente, ele lidaria com o confronto.
Longe demais ‘pra eu mandar um batalhão inteiro, muito em cima da hora ‘pra eu conseguir mobilizar qualquer aliado nas cercanias.
Fiz o que ‘tava no meu alcance; mandei gente ‘pra garantir que Piloto voltaria. Só cinco. Claro, desfalcar cinco significou retorcer a tropa no morro ‘pra dar.
A comunicação com os outros gerentes estava limitada ao bom e velho telefone sem fio. Isso significou tirar mais três dos meus do morro ‘pra isso.
Uma completa merda!
Alma se juntou ‘pra beber e não vou negar que a companhia ajudou. Mesmo que não quisesse, eu ainda me forçaria a um humor melhor ‘pra socializar.
Não consegui falar muito, mas consegui não ser terrivelmente insuportável — ah, eu sabia bem como eu podia ser chato quando estava muito puto!
Era por volta das onze quando a doutora desceu.
Nem precisei mandar o corpo levantar ‘pra me ver de pé, olhando ‘pra doutora — felizmente, ela já estava acostumada comigo, senão poderia ficar intimidada... isso muito me ocorreu na vida.
— Ele ‘tá ótimo. — Foi a fala da doutora, sorrindo. — Já dei um antipirético e, como ‘tá anotado lá em cima, pode dar o próximo em oito horas, se a febre insistir.
— Sim, senhora! — assenti.
— Recomendo que ele descanse.
— Ele vai, ‘pô! — assenti com a cabeça.
— Nós conversamos bastante — falou com seu tom de voz calmo. — Darei o dia de hoje e o dia de amanhã. Pretendo voltar amanhã... Só ‘pra conversar.
— Sim, senhora! — Tornei a assentir.
— Não vou me demorar. — Ela sorriu.
Ainda a acompanhei até a porta. Apesar da vontade de correr, eu ainda subi devagar. A porta do quarto de Miguel ‘tava aberta, então só recostei.
Ele parecia cochilar.
Em situações similares, sempre tinha um caderno na mesa de cabeceira onde a doutora tomava suas notas e eu dei uma olhada ‘pra ver a temperatura.
A febre já tinha amainado àquela altura.
Fui ao telefone dele ‘pra marcar o horário e ligar o alarme. Acabei repetindo com o meu, mas, em meio ao caos, podia acontecer de eu não estar ‘pra ajudar.
Descendo, Pati já estava desperta.
— Ele ‘tá dormindo, mas pode subir — falei e ela se apressou ‘pra subir. Olhei na direção do rádio, que ainda tinha gente demais falando.
— Você não acha que devia se cuidar? — Alma me olhou com preocupação quando voltei à cozinha.
— Estou bem, por quê!?
— Pareceu febril... — Ela fitou meus olhos.
— É o estresse... Normal. — Dei de ombros.
— Tipo aquele negócio dos pais que ficam febris quando os filhos adoecem? — Ela riu. — Isso é bem fofo!
— Obrigado, eu acho. — Acabei rindo.
Felizmente, já tinha acesso aos GPS que davam a localização no telefone e isso me possibilitava observar o percurso de Piloto. Estava entrando na comunidade.
O reforçozinho que mandei ‘pra extrair ele não estava tão distante. Dentre eles, tinha uma das minhas melhores motos — corria muito e bebia pouco, ideal.
Assim que os carinhas chegaram dos vizinhos, a notícia era a mesma: nada vai acontecer com ele.
Bastava confiar nas palavras dos outros. O carinha que foi até Filho voltou com a planta certa:
— Gago foi quem deu mole! — falou no rádio.
Era gerente numa favelinha em Padre Miguel.
Nem respondi, mas já levantei e corri na porta.
Os julgamentos do nosso tribunal comumente ocorriam não tão longe da minha casa. Radij, de vinte e oito, era o herdeiro do meu velho algoz aposentado.
Bastava olhar e ele já sabia que era com ele.
— Agora? — Foi a pergunta no rádio. Tinha uma frequência só ‘pra falar com ele. — Dia, chefe.
— Pode marcar. Ainda vou ver qual vai ser.
— Tranquilo. ‘Tô sem ninguém por aqui. Só chamar que ‘tô disponível — respondeu com certa agilidade.
— De boa. Se adianta ‘pra tua casa... A gente não deve arrumar nenhuma treta nos próximos dias.
Ainda observei o movimento no morro enquanto a gente conversava. Como já era de praxe, ‘tava tudo muito calmo. Num dia chuvoso, era comum que o bairro mais parecesse uma cidade fantasma.
Entrei de novo ‘pra ir ao sofá.
Finalmente deixei o maldito rádio de lado.
DG foi quem subiu com meu almoço, só chamou na entrada e eu fui até ele buscar as quentinhas.
— A gente já ‘tá subindo com os caras ‘pra casinha. Ailton ‘tá querendo ter uma parte deles... eu falei ‘pra ninguém se envolver ainda — reportou.
— Tem que matar eles! — Eu ouvi Miguel.
Muito tive tempo ‘pra pensar o que faria no dia que algo daquilo me acontecesse. Acredite, eu realmente pensei muito, mas nada me preparou.
Olhei sobre os ombros e ele ainda ‘tava na escada. Quando sentia muita raiva, o rosto logo avermelhava e os olhos ardiam.
— Tranquilo, meu mano. — Foi só o que consegui falar. Ainda aturdido, confesso. — Depois eu vou lá ‘pra lidar com essa merda. Só me dá tempo de comer...
— De boa... — A reação de DG não foi muito diferente da minha. Peguei as minhas quentinhas e ele logo se adiantou, talvez não quisesse lidar com aquilo.
— Melhor? — perguntei a Miguel ao entrar.
— Vim pegar água... Desculpa... Ouvi falar do Ailton e se tem gente ‘pra casinha e ele num assunto só podem ser os desgraçados que fizeram mäl ‘pra ela.
— ‘Cê é espertinho, ‘né!? — ironizei. — Vamos terminar de comer e eu vou te levar ‘pra um rolé. O que você me diz? ‘Cê toma seu banho e tudo mais...
— Sim, senhor! — Ele assentiu com a cabeça.