Capítulo 24. Espertinho

1081 Words
10 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo Eu estava com uma dor de cabeça infernal; sentia tanto frio que o corpo inteiro doía pela tensão; mas, ainda não podia simplesmente parar de trabalhar. Não era o fim do mundo e eu sabia, mas ficava muito puto quando alguém cometia algum erro que tinha risco de acabar com a vida dos meus. Pior, Piloto era parte da família. Eu não podia ter contato com ele, as notícias eram do avanço dos putos e, muito provavelmente, ele lidaria com o confronto. Longe demais ‘pra eu mandar um batalhão inteiro, muito em cima da hora ‘pra eu conseguir mobilizar qualquer aliado nas cercanias. Fiz o que ‘tava no meu alcance; mandei gente ‘pra garantir que Piloto voltaria. Só cinco. Claro, desfalcar cinco significou retorcer a tropa no morro ‘pra dar. A comunicação com os outros gerentes estava limitada ao bom e velho telefone sem fio. Isso significou tirar mais três dos meus do morro ‘pra isso. Uma completa merda! Alma se juntou ‘pra beber e não vou negar que a companhia ajudou. Mesmo que não quisesse, eu ainda me forçaria a um humor melhor ‘pra socializar. Não consegui falar muito, mas consegui não ser terrivelmente insuportável — ah, eu sabia bem como eu podia ser chato quando estava muito puto! Era por volta das onze quando a doutora desceu. Nem precisei mandar o corpo levantar ‘pra me ver de pé, olhando ‘pra doutora — felizmente, ela já estava acostumada comigo, senão poderia ficar intimidada... isso muito me ocorreu na vida. — Ele ‘tá ótimo. — Foi a fala da doutora, sorrindo. — Já dei um antipirético e, como ‘tá anotado lá em cima, pode dar o próximo em oito horas, se a febre insistir. — Sim, senhora! — assenti. — Recomendo que ele descanse. — Ele vai, ‘pô! — assenti com a cabeça. — Nós conversamos bastante — falou com seu tom de voz calmo. — Darei o dia de hoje e o dia de amanhã. Pretendo voltar amanhã... Só ‘pra conversar. — Sim, senhora! — Tornei a assentir. — Não vou me demorar. — Ela sorriu. Ainda a acompanhei até a porta. Apesar da vontade de correr, eu ainda subi devagar. A porta do quarto de Miguel ‘tava aberta, então só recostei. Ele parecia cochilar. Em situações similares, sempre tinha um caderno na mesa de cabeceira onde a doutora tomava suas notas e eu dei uma olhada ‘pra ver a temperatura. A febre já tinha amainado àquela altura. Fui ao telefone dele ‘pra marcar o horário e ligar o alarme. Acabei repetindo com o meu, mas, em meio ao caos, podia acontecer de eu não estar ‘pra ajudar. Descendo, Pati já estava desperta. — Ele ‘tá dormindo, mas pode subir — falei e ela se apressou ‘pra subir. Olhei na direção do rádio, que ainda tinha gente demais falando. — Você não acha que devia se cuidar? — Alma me olhou com preocupação quando voltei à cozinha. — Estou bem, por quê!? — Pareceu febril... — Ela fitou meus olhos. — É o estresse... Normal. — Dei de ombros. — Tipo aquele negócio dos pais que ficam febris quando os filhos adoecem? — Ela riu. — Isso é bem fofo! — Obrigado, eu acho. — Acabei rindo. Felizmente, já tinha acesso aos GPS que davam a localização no telefone e isso me possibilitava observar o percurso de Piloto. Estava entrando na comunidade. O reforçozinho que mandei ‘pra extrair ele não estava tão distante. Dentre eles, tinha uma das minhas melhores motos — corria muito e bebia pouco, ideal. Assim que os carinhas chegaram dos vizinhos, a notícia era a mesma: nada vai acontecer com ele. Bastava confiar nas palavras dos outros. O carinha que foi até Filho voltou com a planta certa: — Gago foi quem deu mole! — falou no rádio. Era gerente numa favelinha em Padre Miguel. Nem respondi, mas já levantei e corri na porta. Os julgamentos do nosso tribunal comumente ocorriam não tão longe da minha casa. Radij, de vinte e oito, era o herdeiro do meu velho algoz aposentado. Bastava olhar e ele já sabia que era com ele. — Agora? — Foi a pergunta no rádio. Tinha uma frequência só ‘pra falar com ele. — Dia, chefe. — Pode marcar. Ainda vou ver qual vai ser. — Tranquilo. ‘Tô sem ninguém por aqui. Só chamar que ‘tô disponível — respondeu com certa agilidade. — De boa. Se adianta ‘pra tua casa... A gente não deve arrumar nenhuma treta nos próximos dias. Ainda observei o movimento no morro enquanto a gente conversava. Como já era de praxe, ‘tava tudo muito calmo. Num dia chuvoso, era comum que o bairro mais parecesse uma cidade fantasma. Entrei de novo ‘pra ir ao sofá. Finalmente deixei o maldito rádio de lado. DG foi quem subiu com meu almoço, só chamou na entrada e eu fui até ele buscar as quentinhas. — A gente já ‘tá subindo com os caras ‘pra casinha. Ailton ‘tá querendo ter uma parte deles... eu falei ‘pra ninguém se envolver ainda — reportou. — Tem que matar eles! — Eu ouvi Miguel. Muito tive tempo ‘pra pensar o que faria no dia que algo daquilo me acontecesse. Acredite, eu realmente pensei muito, mas nada me preparou. Olhei sobre os ombros e ele ainda ‘tava na escada. Quando sentia muita raiva, o rosto logo avermelhava e os olhos ardiam. — Tranquilo, meu mano. — Foi só o que consegui falar. Ainda aturdido, confesso. — Depois eu vou lá ‘pra lidar com essa merda. Só me dá tempo de comer... — De boa... — A reação de DG não foi muito diferente da minha. Peguei as minhas quentinhas e ele logo se adiantou, talvez não quisesse lidar com aquilo. — Melhor? — perguntei a Miguel ao entrar. — Vim pegar água... Desculpa... Ouvi falar do Ailton e se tem gente ‘pra casinha e ele num assunto só podem ser os desgraçados que fizeram mäl ‘pra ela. — ‘Cê é espertinho, ‘né!? — ironizei. — Vamos terminar de comer e eu vou te levar ‘pra um rolé. O que você me diz? ‘Cê toma seu banho e tudo mais... — Sim, senhor! — Ele assentiu com a cabeça.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD