11 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
Não me incomodei de passar aquele dia com Alma. Miguel melhorou, mas não saí com ele.
A situação com Piloto permaneceu incerta. O GPS apontava seu carro parado na Zona Sul e eu ainda não tinha comunicação com ele ou os carinhas que mandei.
Obviamente, foi um dia inquieto. Só parei com a cerveja quando me senti chapar, Alma já ‘tava chapadinha também — acabamos nos distraindo.
Ela jantou conosco, mas chovia e a convidei a pernoitar em casa — nem tinha outras intenções.
Pati continuou com a gente e me recolhi cedo, por volta das dez — isso ‘pra não explodir de ansiedade.
DG assumiu, o que me deu tranquilidade. Não tomei remédio ‘pra febre por causa de toda a cerveja.
De verdade, eu ‘tava merecendo um bom descanso há algum tempo e, naquela noite, eu tive isso.
Nem sonhei e acordei cedo com muita energia.
Era habitual levantar antes das cinco e não foi diferente, com exceção do zumbi sentado aos meus pés.
— ‘Bença, pai. — Miguel falou.
— Que isso? Sonâmbulo? — brinquei.
— Não. — Ele acabou rindo.
— Que Deus te abençoe e faça feliz. — Eu fui até ele ‘pra beijar sua cabeça. — Não parece febril. Como meu filho ‘tá se sentindo no dia de hoje?
— Um pouco cansado e ainda triste...
— É difícil lidar. Seu pai vai tomar um banho e a gente desce. ‘Tá medicado? — perguntei, indo à janela.
Abri e não chovia no lado de fora — menos mäl.
— Não, senhor, eu não tive mais febre à noite.
— De boa! — assenti, pegando minha roupa ‘pra seguir ao meu banho. Fui relativamente rápido.
Voltando ao quarto, reparei que ele já estava arrumado, então não puxei sua orelha ‘pra ir ao banho.
— Pronto ‘pro nosso rolé? — perguntei.
— ‘Pra isso que vim.
— Ótimo! — sorri. — ‘Bora descer.
Peguei dois copos de dose e uma vodka ‘pra ir com ele à casinha, um barraco decrépito. Nunca reformei ‘pra manter a mística, que afastava crianças.
Radij cochilava à porta e um soldado vigiava. Ele acordou e nos olhou, mas gesticulei ‘pra ele circular.
— Segura nossa bebida que já volto — falei com Miguel, entregando garrafas e copo ‘pra entrar.
Dentro, tinha sete coroas, amarrados uns nos outros, sangrando. Verifiquei e todos ainda viviam. Peguei duas das cadeiras de ferro que tinha lá dentro e saí, fechando a porta, para abri-las na frente do lugar.
— O Espinho vivia aqui. — Acabei sorrindo enquanto tomando a garrafa ‘pra nos servir. — Ele era o cara mais sanguinário e doente que eu já conheci.
— Aquele teu amigo?
— Irmão! — arfei. — Espinho foi muito exposto à violência. Muitas vezes, pensei que ele não conhecia outro idioma; não sabia fazer diferente, sabe!?
— Pelo hábito...
— Sim! — Brindei com seu copo ‘pra tomar a primeira dose numa só. Ele repetiu e nós dois respiramos fundo, olhando ‘pros barracos distantes.
— O senhor sabe que não sou assim...
— Ah... De todo mundo, eu sou, talvez, o único que tem certeza disso! — Eu o olhei e sorri. — ‘Cê é uma joia raríssima. Uma flor que nasceu nessa merda de lixão!
Engoli seco e respirei fundo.
— Tem que pegar a visão — comecei. — Nunca vou te mandar fazer porrä nenhuma. Eu não sou assim...
— Eu sei, pai.
— Lá dentro, tem sete. Provável que destruíram a mente de muito meninos e meninas. Eles não ligam.
Deu ‘pra ouvir seus dentes trincando.
— Odeio o tipo deles. Não só por ser assim, mas por alimentar esse maldito hábito repugnante! — arfei.
— Eu também odeio! — falou baixo. — Encontrei Pati deitada na sala. Quando eu vi sangue, eu juro que eu só precisava de um alvo... e eu faria sangrar!
— Sei disso! — ri, tirando a pistola da cintura e deixando-a sobre a palma da mão ‘pra ele ver. — Essa coisinha de metal dá uma putä sensação de poder.
Uma lágrima correu seu rosto — partiu meu coração —, mas eu ainda mantive a seriedade, arfando.
— ‘Cê sabe como usar. Sabe onde estão a maior parte das armas do seu pai... e eu nunca tive medo de ver você pegando uma porrä dessa ‘pra fazer merda.
Eu o olhei e ele assentiu com a cabeça.
— Você podia. ‘Pra que arriscar tomar prejuízo numa briga, se você pode ter uma quarenta? — Fitei seus olhos e ele alternou o olhar entre a arma e eu.
— Não posso ser irresponsável...
— ‘Cê sempre foi responsável — sorri —, mas eu nunca te impediria de estragar seu futuro. Ele é seu!
— Odeio eles, pai! — lamentou.
— Entrar e atirar vai causar a sensação mais forte que ‘cê terá na vida! Não tem bucetä apertada que supere o prazer de tirar uma vida — falei sério.
Ele engoliu seco e abaixou a cabeça.
— Nem se ela oferecer cu ou o boquete mais gostoso do mundo... Não tem rebolado... Não tem onda de droga ou de bebida que supere essa sensação.
— Perigoso... — Ele acabou rindo.
— Sim, o mais difícil é parar.
— Isso significa que eu não devo? — Ele me olhou com confusão e eu enxuguei as lágrimas em seu rosto.
— Significa que, a independer do que faça, não pode esquecer porque vai querer a morte de outros. Eles são pouco comparados ao que tem nesse mundão.
Ele estendeu o copo ‘pra eu encher.
— Só existe uma decisão errada. — Enchi nosso copo. — Nós já falamos dela algumas vezes e eu sempre vou repetir, se você achar que deve ouvir de novo.
— É difícil... Muito difícil... — Meneou a cabeça.
— Sei disso. Quer um conselho de alguém que te ama? — Ele me olhou e assentiu. — Não deixa essa porrä desse sentimento crescer. Pode ser muito ruïm sentir, mas você não precisa fazer algo ruïm com isso.
— E o que eu faço?
— Extravasa, mas não se vingando. Transforma isso em algo bom ‘pra ela. ‘Cê vai saber que deu certo porque ela vai sorrir ‘pra você e ‘cê vai lembrar de mim.
Ele ficou pensativo e nós seguimos a bebedeira. Não vou mentir, eu me senti bem satisfeito com o papo.