Capítulo 26. Mentes Jovens

1101 Words
11 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo Não me incomodei de passar aquele dia com Alma. Miguel melhorou, mas não saí com ele. A situação com Piloto permaneceu incerta. O GPS apontava seu carro parado na Zona Sul e eu ainda não tinha comunicação com ele ou os carinhas que mandei. Obviamente, foi um dia inquieto. Só parei com a cerveja quando me senti chapar, Alma já ‘tava chapadinha também — acabamos nos distraindo. Ela jantou conosco, mas chovia e a convidei a pernoitar em casa — nem tinha outras intenções. Pati continuou com a gente e me recolhi cedo, por volta das dez — isso ‘pra não explodir de ansiedade. DG assumiu, o que me deu tranquilidade. Não tomei remédio ‘pra febre por causa de toda a cerveja. De verdade, eu ‘tava merecendo um bom descanso há algum tempo e, naquela noite, eu tive isso. Nem sonhei e acordei cedo com muita energia. Era habitual levantar antes das cinco e não foi diferente, com exceção do zumbi sentado aos meus pés. — ‘Bença, pai. — Miguel falou. — Que isso? Sonâmbulo? — brinquei. — Não. — Ele acabou rindo. — Que Deus te abençoe e faça feliz. — Eu fui até ele ‘pra beijar sua cabeça. — Não parece febril. Como meu filho ‘tá se sentindo no dia de hoje? — Um pouco cansado e ainda triste... — É difícil lidar. Seu pai vai tomar um banho e a gente desce. ‘Tá medicado? — perguntei, indo à janela. Abri e não chovia no lado de fora — menos mäl. — Não, senhor, eu não tive mais febre à noite. — De boa! — assenti, pegando minha roupa ‘pra seguir ao meu banho. Fui relativamente rápido. Voltando ao quarto, reparei que ele já estava arrumado, então não puxei sua orelha ‘pra ir ao banho. — Pronto ‘pro nosso rolé? — perguntei. — ‘Pra isso que vim. — Ótimo! — sorri. — ‘Bora descer. Peguei dois copos de dose e uma vodka ‘pra ir com ele à casinha, um barraco decrépito. Nunca reformei ‘pra manter a mística, que afastava crianças. Radij cochilava à porta e um soldado vigiava. Ele acordou e nos olhou, mas gesticulei ‘pra ele circular. — Segura nossa bebida que já volto — falei com Miguel, entregando garrafas e copo ‘pra entrar. Dentro, tinha sete coroas, amarrados uns nos outros, sangrando. Verifiquei e todos ainda viviam. Peguei duas das cadeiras de ferro que tinha lá dentro e saí, fechando a porta, para abri-las na frente do lugar. — O Espinho vivia aqui. — Acabei sorrindo enquanto tomando a garrafa ‘pra nos servir. — Ele era o cara mais sanguinário e doente que eu já conheci. — Aquele teu amigo? — Irmão! — arfei. — Espinho foi muito exposto à violência. Muitas vezes, pensei que ele não conhecia outro idioma; não sabia fazer diferente, sabe!? — Pelo hábito... — Sim! — Brindei com seu copo ‘pra tomar a primeira dose numa só. Ele repetiu e nós dois respiramos fundo, olhando ‘pros barracos distantes. — O senhor sabe que não sou assim... — Ah... De todo mundo, eu sou, talvez, o único que tem certeza disso! — Eu o olhei e sorri. — ‘Cê é uma joia raríssima. Uma flor que nasceu nessa merda de lixão! Engoli seco e respirei fundo. — Tem que pegar a visão — comecei. — Nunca vou te mandar fazer porrä nenhuma. Eu não sou assim... — Eu sei, pai. — Lá dentro, tem sete. Provável que destruíram a mente de muito meninos e meninas. Eles não ligam. Deu ‘pra ouvir seus dentes trincando. — Odeio o tipo deles. Não só por ser assim, mas por alimentar esse maldito hábito repugnante! — arfei. — Eu também odeio! — falou baixo. — Encontrei Pati deitada na sala. Quando eu vi sangue, eu juro que eu só precisava de um alvo... e eu faria sangrar! — Sei disso! — ri, tirando a pistola da cintura e deixando-a sobre a palma da mão ‘pra ele ver. — Essa coisinha de metal dá uma putä sensação de poder. Uma lágrima correu seu rosto — partiu meu coração —, mas eu ainda mantive a seriedade, arfando. — ‘Cê sabe como usar. Sabe onde estão a maior parte das armas do seu pai... e eu nunca tive medo de ver você pegando uma porrä dessa ‘pra fazer merda. Eu o olhei e ele assentiu com a cabeça. — Você podia. ‘Pra que arriscar tomar prejuízo numa briga, se você pode ter uma quarenta? — Fitei seus olhos e ele alternou o olhar entre a arma e eu. — Não posso ser irresponsável... — ‘Cê sempre foi responsável — sorri —, mas eu nunca te impediria de estragar seu futuro. Ele é seu! — Odeio eles, pai! — lamentou. — Entrar e atirar vai causar a sensação mais forte que ‘cê terá na vida! Não tem bucetä apertada que supere o prazer de tirar uma vida — falei sério. Ele engoliu seco e abaixou a cabeça. — Nem se ela oferecer cu ou o boquete mais gostoso do mundo... Não tem rebolado... Não tem onda de droga ou de bebida que supere essa sensação. — Perigoso... — Ele acabou rindo. — Sim, o mais difícil é parar. — Isso significa que eu não devo? — Ele me olhou com confusão e eu enxuguei as lágrimas em seu rosto. — Significa que, a independer do que faça, não pode esquecer porque vai querer a morte de outros. Eles são pouco comparados ao que tem nesse mundão. Ele estendeu o copo ‘pra eu encher. — Só existe uma decisão errada. — Enchi nosso copo. — Nós já falamos dela algumas vezes e eu sempre vou repetir, se você achar que deve ouvir de novo. — É difícil... Muito difícil... — Meneou a cabeça. — Sei disso. Quer um conselho de alguém que te ama? — Ele me olhou e assentiu. — Não deixa essa porrä desse sentimento crescer. Pode ser muito ruïm sentir, mas você não precisa fazer algo ruïm com isso. — E o que eu faço? — Extravasa, mas não se vingando. Transforma isso em algo bom ‘pra ela. ‘Cê vai saber que deu certo porque ela vai sorrir ‘pra você e ‘cê vai lembrar de mim. Ele ficou pensativo e nós seguimos a bebedeira. Não vou mentir, eu me senti bem satisfeito com o papo.
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