13 de maio de 2015, Park Shopping, Sulacap
— Isso é terrível! — A mãe ficou muito apreensiva quando contei o que estava ocorrendo. Obviamente, eu precisei omitir bastante naquela conversa.
Lidar com as burocracias nem tomou toda a minha manhã, dando tempo de eu conseguir buscá-la em sua casa ‘pra levá-la ‘pra almoçar.
Claro, só falei de problemas depois de comer.
— Agora ‘tá tudo bem. Devo conseguir me organizar logo. Por enquanto, ‘tô aproveitando a proteção que o ex da Helena ‘tá me provendo — arfei.
— Minha filha. — Ela ‘tava tão preocupada que logo sentou mais perto ‘pra me abraçar. — Esse mundo ‘tá de ponta-cabeça... muita maldade em todo lugar.
— Sei disso, mas vou ficar bem — sorri otimista.
— Como chegou? — Ela respirou fundo.
— A tia ajudou muito. Foi quem mandou alguém me buscar. ‘Tava num ônibus na Rio–São Paulo quando falei com ela e ela me ajudou desde então.
— Minha filha! — Tornou a exclamar.
— ‘Tá tudo bem, minha mãe. Eu não podia mentir ‘pra senhora quanto a isso, mas esse é o motivo de precisar de te ver tanto. Tenho saudade também — ri.
— Só eu sei como sinto sua falta. — Ela apertou o abraço. — ‘Cê tinha que ter voltando quando seu pai... se foi. Eu sabia que tinha alguma coisa errada.
— Eu não tinha como saber, mãe! — lamentei.
— Eu sei, mas eu devia ter insistido...
— Sabe que eu não abandonaria meus alunos. — Meneei a cabeça. — Das coisas que mais me entristecem nessa história, é a ameaça que alguns sofreram.
Engoli seco, lembrando de cada um deles.
Eram todos muito carinhosos comigo, crianças maravilhosas com futuros brilhantes, eu sentia muita falta — considerava cada um deles meus filhos.
O olhar acabou enchendo de lágrimas.
— Nem consigo manter contato, já que pode ser perigoso. — Um soluço entravou na garganta, o que me fez simplesmente desistir de continuar falando.
Silenciamos. A mãe estava bem comovida e a chateação foi bem forte. Não podia me impedir de ficar preocupada com cada um deles.
Claro, aquela melancolia se foi devagar. Tomei um chopp com a mãe e nós ainda papeamos um pouco, marcamos algo quando eu tivesse uma casa.
Até iríamos ao segundo, mas ela recebeu uma ligação e precisou sair correndo. Era algo com seu novo companheiro, mas ela me disse ‘pra me despreocupar.
Eram duas da tarde quando ela saiu.
O soldado que Eric deixou comigo estava sentado na mesa às minhas costas. Eu ainda o olhei sobre os ombros ‘pra perguntar:
— Come ou bebe algo?
— ‘Tô tranquilo. Valeu! — Ele foi breve.
— Vou tomar outro — avisei.
Aquele shopping era pouco agitado. Tinha a mesma vibe do que lidei em Bangu, talvez até mais sofisticado, mas um fluxo muito menor de pessoas.
O bairro da Sulacap não era tão agitado.
Até tinha algumas favelinhas próximas, talvez devêssemos chamar Complexo do Jardim Novo, já que englobava algumas favelas diferentes.
Tinha um enorme complexo policial à frente do shopping. Isto é, uma delegacia, um terreno baldio do governo e um centro de treinamento de policiais.
Ali, era o início de um trecho militar daquela área da Zona Oeste. Não muito distante, tinha mais instalações da polícia e forças armadas.
Quando criança, nem lidei com o shopping ali e a área era muito igual, apesar de muito mais perigosa.
Tornando-se um dos acessos à Barra da Tijuca, os prédios e casas já começavam a parecer mais luxuosos; as ruas já transmitiam uma vibe muito menos pobre.
Tomei meu chopp na paz, tentando não me ater a qualquer pensamento nostálgico ou melancólico, o que foi difícil dada a memória das reações da mãe.
Estava me preparando ‘pra sair quando esbarrei com Miguel e Patrícia. Eles riam bastante, estavam bem arrumados e tinham algumas sacolas consigo.
— Olá, duplinha! — Eu lhes sorri.
Miguel apenas deu um sorriso acanhado.
— Boa tarde! — Patrícia foi quem me respondeu.
— O que estamos fazendo? — Eu olhei as bolsas.
— Compras ‘pra mim. — Ela riu. — Algumas roupas, principalmente de frio. Ele nunca aceita nada, senão coisas de comer... É um chato! — reclamou.
— Tenho muita roupa... — Miguel deu de ombros.
— Aproveitei ‘pra pegar algumas coisas ‘pra mãe também. Espero que ela goste! — A mocinha sorriu de canto de boca, tímida. — ‘Tô longe há tanto tempo, ‘né!?
— O pai já falou com ela. — Miguel olhou ‘pra amiga. — Quer vir, prima? — Ele me olhou. — Daqui a pouco a gente deve ‘tá voltando. Sem segurança?
Ele olhou às minhas costas, franzindo o cenho — até pareceu o pai ao demonstrar descontentamento.
— Achei. — Ele se tranquilizou ao ver meu rapaz.
— Seu pai não me deixaria sair sozinha — ri.
— Sei disso, mas ‘tá tenso, ‘né!? — Ele deu de ombros com semblante chateado. — Os vacilos têm acontecido numa frequência bem anormal...
— Enfim! — Eu decidi trocar o assunto. — Onde estamos indo agora? Já comeram alguma coisa?
— Vamos comer um sorvete. — Patrícia sorriu.
— Não acompanho com o sorvete, dada toda a cerveja que bebi, mas ainda posso estar lá ‘pra papear.
O garoto só assentiu e eu segui com a duplinha.
Apesar dos esporádicos assuntos adultos demais, ainda eram crianças, eu os enxergava como crianças e alguns de seus comportamentos eram infantis.
Foi um momento de aquecer o coração.
Mostrando o quanto podia ser galanteador como o pai, Miguel ainda nos comprou arranjos de flores.
Era realmente um doce e eu ainda conseguia me impressionar com o quanto isso se reafirmava sempre.
— A casa deve ‘tá cheia de homem, ‘cê ficará desconfortável. — Miguel olhou à menina. — A gente pode ir ‘pra vó com a prima, o que acha? — sugeriu.
— ‘Brigada... Sabe que ainda pode curtir a festa.
— Não, hoje eu vou cuidar de você! — Ele a sorriu.
Eram uns fofos!