17 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
— A gente tem uma situação rolando, não é nada boa. — Meneei a cabeça. — Até então, conchavo de paulistas com vermelhos... fazem parecer pequeno...
— Motivo da tal guerrinha? — Jéssica perguntou.
— Sim e não — ri. — O motivo caiu no meu colo...
Todo mundo se entreolhou.
— Já terminei. — Alma chamou a atenção de todos ao chegar. — Queria... um minutinho. — Ela se acanhou.
— Te dou vários, mas, vem cá, princesa! — chamei.
Ela só assentiu com a cabeça, se encolheu um pouco, mas se aproximou. Estendi a mão ‘pra sentá-la ao meu lado — coitada, deve ter sido uma tortura!
— Todo mundo sabe que Helena me pediu algo há um tempinho. Ajudar a prima dela. — Olhei na direção de Alma que só faltou sumir de vergonha.
— A gente ‘tá sabendo. — DG assentiu.
— O bagulho tem que ficar baixo. — Olhei ‘pra todo mundo e eles assentiram. — Ela se meteu com quem não devia e ‘tão vindo atrás dela.
— A gente derruba, ‘pô. — Celo deu de ombros.
— Esse é o objetivo — assenti. — Ninguém toca num fio de cabelo dela, ‘tenderam? Nem a Helena.
— Eric... — Ela me chamou num tom baixo.
— ‘Tô ajudando, calma! — Tentei tranquilizá-la. — Dizem que ela fugiu com meio milhão. Acho que meteram a mão no dinheiro e ela é só a bucha da vez.
— ‘Tão vindo em peso? — Jéssica perguntou, franzindo o cenho. — Isso tem cheiro de algo maior, travestido de um roubo menor... só ‘pra levantar poeira...
— ‘Tô apostando que é isso — assenti.
— Conta com a gente. — Foi a vez de Jéssica dar de ombros. — Meu novinho pode assumir, se ‘cê precisar que eu caia ‘pra pista. Acho todo mundo que ‘cê quiser.
Alma olhou ‘pra ela com preocupação.
— Vou precisar logo — assenti. — Tenho uns negócios ‘pra fechar. Tem a tropinha ‘pra chegar. A gente precisa manter a ordem e abastecer os amigos.
— Fodä! Vieram ‘pra guerra, ‘né!? — DG arfou.
— Não, mas os vermelhos, sim, ‘tão ‘pra guerra. Vou subir a informação e ver o que a chefia prefere. Dependo disso ‘pra qualquer outra ordem.
— Já ‘tava desconfiado, ‘né!? — DG perguntou.
— Sim, o demônio falou no meu ouvido. Enfim, vou ver o que a princesa quer e volto logo. — Olhei ‘pra Alma que voltou a ser tomada por rubor.
Levantei e estendi a mão ‘pra ela, que tomou minha mão e respirou fundo antes de se levantar. ‘Tava levemente trêmula, então segui à cozinha ‘pra sentá-la.
Segui à geladeira ‘pra servir uma água.
— Nervosa? — perguntei ao parar na sua frente.
— Muitas armas... — Ela aceitou a água.
— Do que precisa?
— A doutora do seu filho... — Ela bebeu um gole generoso e suspirou. — Podia ajudar com a menina...
Fiquei curioso, mas esperei que ela falasse.
— Parece que tiveram problemas com o contato íntimo... Não sei... Talvez a mulher da saúde mental possa ajudar... não só a menina, mas também ele.
— ‘Tendi — assenti. — Pode deixar. Devo conseguir trazer a doutora na segunda. Não gosto de incomodar nos fins de semana, se não houver urgência.
— ‘Brigada... ‘Tô indo.
Eu me aproximei ‘pra beijar o canto de sua boca.
— Não quer almoçar com a gente? — ofereci.
— É melhor não, ‘né!? — falou sem graça.
— Medo de ser chamada de primeira-dama?
Acabei rindo e ela só se levantou rápido. Antes que desse qualquer passo, agarrei sua cintura ‘pra fitar seus olhos que tinham um misto de ansiedade e tesäo.
— ‘Cê não disse que não gosta de brincar com isso? — Ela falou baixo, quase me implorando.
— Não ‘tô brincando... — Meneei a cabeça. — Só que ‘cê ‘tá implorando por proximidade... eu só ‘tô obedecendo... é difícil, sabe!? — sorri de canto de boca.
Observei seus olhos por alguns instantes, gostei de sentir a respiração ofegante, mas não fui abusado.
Soltei e dei um passo atrás.
— Depois ‘cê me dá uma ajuda? — pedi.
— Se envolve você atirar ou bater em qualquer um, eu realmente não gostaria! — Ela meneou a cabeça.
— Não. Envolve você e Patrícia dando um rolé qualquer. Pode ser no morro mesmo, tomar um sorvete... ou até cerveja, acho que ela bebe cerveja.
— Não vou beber cerveja com uma criança! — Seu semblante quase torceu. — E ‘cê não devia também.
— Pode ser refri... tanto faz. — Dei de ombros.
— Depois quando?
— Depois... amanhã, talvez...
— ‘Tá bom.
— Valeu... vai ajudar bastante! — sorri.
Voltando até meu pessoal, eu só servi a minha cerveja e sentei ‘pra respirar fundo, olhando ‘pra todos.
— Por ora, ninguém sabe onde ela ‘tá — falei.
— A gente não conta, ‘pô! — Caveira riu.
— Isso vai mudar. Eu vou mudar isso, assim, se eles vierem, vão vir na certa e ninguém vai sofrer por causa das nossas paradas por aí, ‘tenderam?
— A tropa ‘tá afiada! — DG sorriu ladino.
— Vai ser pouco tempo ‘pra adaptar os carinhas que vão chegar. Vou assumir isso. Até a segunda ordem, não quero conflito com mais ninguém!
— E o vizinho problema? — Celo perguntou.
— Vou lidar. Vamos enrijecer a escolta da mina. Assim que der, os caras da 33 sobem ‘pra uma conversa.
— Eita! — DG riu alto. — Fechou!
— De resto, a gente ‘tá operando normalmente. Vou chamar uns velhos amigos ‘pra dar uma reforçada nos nossos carregamentos. — Terminei a fala e bebi.
— Agora... a gente tem festa? — Jéssica riu.
— Fica à vontade. Meu filho ‘tá lá em cima de castigo. — Dei de ombros. — Se for chamar alguém ‘pra cima, só não tira ninguém da guarda... ou do foguete.
— Uma pena... — Ela torceu o rosto.
— Tenho fogo! — DG se ofereceu.
— Gosto! — Ela sorriu largo e eles já se atracaram.
— Posso juntar com o Ramon e ajudar com os contatos. — Danilo se aproximou. — Até ajudo com a 33, eles não costumam dar as costas a velhos aliados...
— Não optaria por te expor, mas aceito — falei.
— ‘Tá tranquilo. ‘Cê faria pela nossa família... é o mínimo que a gente pode fazer! — Os outros assentiram.
— ‘Cês são fodäs, tropa! — sorri. — Um brinde a sua lealdade. — Ergui a minha tulipa e eles brindaram.
— À tua lealdade, mano. — Celo falou ao brindar.