Capítulo 48. Vingativo

1174 Words
15 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo Toquei o baile pelo pouco tempo da tarde em que trabalhei no morro. Com um possível resgate ‘pra acontecer no presídio, eu precisava fazer barulho. A presença de figuras ilustres já eram mais do que esperadas — convenhamos, com uma responsa tão grande, tudo quanto é chefe decidiria dar as caras. — Vai ficar contigo, Naval! — Foi a notícia que chegou do Filho por volta das seis da noite. — ‘Tô caindo aí já já. Se puder, já deixa tudo esquematizado. Nem respondi, preferindo esperar por ele. Por volta das sete, a música já tinha começado e o povo ‘tava começando a chegar. Subi ‘pra me arrumar e voltei ao meu cantinho na frente da boca. VK surpreendeu quando chegou. ‘Tava com Lena, claro. Ela se vestiu muito bem, o rosto já tinha uma aparência muito melhor — talvez por isso ela subiu. Apenas cumprimentei ambos com um aceno. — Qual é a do papo? — DG parou ao meu lado. — Tem que mandar alguém na 33. Filho quer que a gente lide com a recuperação do Gago e eu não me incomodo, contanto que possa quebrar as pernas dele. — Vai negociar? — riu. — Vou — assenti com a cabeça. — Se ele não me deixar quebrar as pernas dele quando ele chegar no morro; mando quebrarem ele no presídio. — Eita! — Ele riu alto. — Enfim, a tropa mandou avisar que ‘tá chegando gente. — Eu o olhei e ele parecia preocupado. — Tipo, da CHB. Não sei qual é a da treta... — Hmm... tenho um negócio com eles. — Fiquei bolado, sei lá, ‘né? — deu de ombros, rindo. — Mostrei a paradinha ‘pra mina e ela pareceu gostar... Depois tem que ver se curtiu mesmo. — Falo com ela depois. — Vou tocar as paradas ‘pra te deixar livre. — Vou precisar. Tenho gente demais ‘pra receber e as horas só tem malditos sessenta minutos — arfei. — Valeu, meu cria! — Ele riu, saindo. Só precisei continuar olhando o movimento do povo. Poucas foram as ordens que precisei dar no rádio. Filho foi o primeiro a chegar. Diferente da última vez, ‘tava com escolta padrão, cinco carinhas. Parando ao meu lado, ele só estendeu a mão ‘pra eu apertar. — ‘Bora? — Eu convidei e ele assentiu. O camarote ‘tava vazio com um dos nossos vigiando e o dono do bar aguardando — ele já ‘tava comunicado que era dia de conversa de gente grande. — É mole tirar ele. — Eu o olhei. — Assim que ele pisar no meu morro, eu vou quebrar as pernas dele. — Eita, que isso, mano!? — Filho riu. — Ele quase custou a vida do Piloto; sabe que nada comigo é de graça. — Gesticulei ‘pra pedir nossa cerveja e me recostei, cruzando os braços. — Aí ‘cê me fode... — Por quê!? Se ele ficar de viadagem por isso, é mais fácil apagar o filho da putä na cadeia... dá menos trabalho... é muito mais barato. — Dei de ombros. — Sabe que eu não gosto de papo de dissidência, ‘né!? — Ele ‘tava quase implorando. — Deixa essa porrä ‘pra lá... No próximo vacilo, eu te entrego ele. — Nem fodendo, Filho. — Meneei a cabeça. — A gente ajeita uma paradinha... o que acha? — ‘Tô ouvindo... Ele ainda silenciou enquanto o carinha nos servia e só observei o baile até estarmos sós e ele falar: — A gente dá um corretivo lá dentro, antes de vocês tirarem ele. Todo mundo ganha... — Não sou homem de mandar recado. — Neguei. — E o que vai fazer? Entrar na porrä do presídio ‘pra isso? Sabe que é arriscado ‘pra caralhö, ‘né!? Acabei sorrindo de canto de boca pela ideia. — Que isso, cria! Perdeu o juízo? — Soou preocupado. — Não concordo e nem vou concordar. — Nem tinha pensado em ir lá, mas a ideia é boa. — Putä que pariu. — Ele meneou a cabeça. — Escolhe o que é menos pior... Não precisa se preocupar com dissidência. Sou bom em acatar ordem, mas não vou me esquecer e ‘cê sabe disso. — Pega ele quando chegar, eu troco. — Ele se rendeu. — Sorte que tu é leal e muito valioso, mano. — Sei que sou — sorri. — Sei que a gente é muito de boa com tudo, mas o cara vacilou numa situação muito esquisita... isso, ‘pra mim, nem devia ter perdão. — Entendo seu ponto. — Ele assentiu. — Pensei ‘pra caralhö nessa porrä, mas é foda... a gente nunca sabe quando é só neurose... quando é verdade. — Na dúvida, tomo como verdade. — Dei de ombros. — Vou garantir que ele vai falar o que houve. — Valeu pela ajuda. — Valeu nada. Quero dinheiro! — ri e ele também. — Vai chegar uma chuva de barão ‘pra tu. — Ótimo. Vou circular! — Eu levantei. Saí do camarote, observando tudo. Era um hábito me ater a rostos diferentes ou formas de vestir distintas. Na multidão, era difícil identificar, mas ainda observei um grupinho de meninas. Elas mais pareciam nunca terem ido a nenhum baile de favela na vida. Eram bonitas, pareciam novas e muito ingênuas — no mínimo, algo difícil de se ver. Ainda observei um pouco e elas não tinham nenhum conhecido. Só passei por um soldado ‘pra chamar atenção ‘pras minas e mandar ele ficar de olho — nunca se sabe. Voltando na boca, DG jogou o frasco de um lança e eu só agradeci com um sorriso. Nem ‘tava na vibe de usar nada, mas ignorei e me recostei ‘pra olhar tudo. Era meia-noite quando me chamaram no rádio. — Qual foi? — Eu já ‘tava chapadinho. — A mãe Ana ‘tá chamando... — Foi a fala do garoto que ‘tava cuidando de Alma, fiquei preocupado. — ‘Tô descendo. Problemas? — Nada muito grave pelo que entendi... A mina recebeu mais mensagem do tal carinha e quer te ver. Só avisei que sairia, deixei o lança com o DG e desci sem pressa. A mãe ‘tava no portão, bordando uma blusa e bebendo cerveja enquanto olhando ‘pro nada. — ‘Bença, mãe! — Eu lhe sorri. — Hmm... que filho cheiroso... — Ela sorriu largo. — Tirando essa porcaria de loló! — repreendeu. — Que Deus te abençoe! — suspirou. — Ela ‘tá lá dentro. Assenti com a cabeça e entrei. Alma ‘tava no sofá. Não parecia tão nervosa quanto a última vez, mas ainda tinha certa apreensão no semblante. — Noite, linda. — Eu lhe sorri. — Cheguei. — Boa noite... ‘Cê precisa olhar isso aqui! — Com tom muito sério, ela só me entregou o telefone rápido.
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