15 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
Toquei o baile pelo pouco tempo da tarde em que trabalhei no morro. Com um possível resgate ‘pra acontecer no presídio, eu precisava fazer barulho.
A presença de figuras ilustres já eram mais do que esperadas — convenhamos, com uma responsa tão grande, tudo quanto é chefe decidiria dar as caras.
— Vai ficar contigo, Naval! — Foi a notícia que chegou do Filho por volta das seis da noite. — ‘Tô caindo aí já já. Se puder, já deixa tudo esquematizado.
Nem respondi, preferindo esperar por ele.
Por volta das sete, a música já tinha começado e o povo ‘tava começando a chegar. Subi ‘pra me arrumar e voltei ao meu cantinho na frente da boca.
VK surpreendeu quando chegou. ‘Tava com Lena, claro. Ela se vestiu muito bem, o rosto já tinha uma aparência muito melhor — talvez por isso ela subiu.
Apenas cumprimentei ambos com um aceno.
— Qual é a do papo? — DG parou ao meu lado.
— Tem que mandar alguém na 33. Filho quer que a gente lide com a recuperação do Gago e eu não me incomodo, contanto que possa quebrar as pernas dele.
— Vai negociar? — riu.
— Vou — assenti com a cabeça. — Se ele não me deixar quebrar as pernas dele quando ele chegar no morro; mando quebrarem ele no presídio.
— Eita! — Ele riu alto. — Enfim, a tropa mandou avisar que ‘tá chegando gente. — Eu o olhei e ele parecia preocupado. — Tipo, da CHB. Não sei qual é a da treta...
— Hmm... tenho um negócio com eles.
— Fiquei bolado, sei lá, ‘né? — deu de ombros, rindo. — Mostrei a paradinha ‘pra mina e ela pareceu gostar... Depois tem que ver se curtiu mesmo.
— Falo com ela depois.
— Vou tocar as paradas ‘pra te deixar livre.
— Vou precisar. Tenho gente demais ‘pra receber e as horas só tem malditos sessenta minutos — arfei.
— Valeu, meu cria! — Ele riu, saindo.
Só precisei continuar olhando o movimento do povo. Poucas foram as ordens que precisei dar no rádio.
Filho foi o primeiro a chegar. Diferente da última vez, ‘tava com escolta padrão, cinco carinhas. Parando ao meu lado, ele só estendeu a mão ‘pra eu apertar.
— ‘Bora? — Eu convidei e ele assentiu.
O camarote ‘tava vazio com um dos nossos vigiando e o dono do bar aguardando — ele já ‘tava comunicado que era dia de conversa de gente grande.
— É mole tirar ele. — Eu o olhei. — Assim que ele pisar no meu morro, eu vou quebrar as pernas dele.
— Eita, que isso, mano!? — Filho riu.
— Ele quase custou a vida do Piloto; sabe que nada comigo é de graça. — Gesticulei ‘pra pedir nossa cerveja e me recostei, cruzando os braços.
— Aí ‘cê me fode...
— Por quê!? Se ele ficar de viadagem por isso, é mais fácil apagar o filho da putä na cadeia... dá menos trabalho... é muito mais barato. — Dei de ombros.
— Sabe que eu não gosto de papo de dissidência, ‘né!? — Ele ‘tava quase implorando. — Deixa essa porrä ‘pra lá... No próximo vacilo, eu te entrego ele.
— Nem fodendo, Filho. — Meneei a cabeça.
— A gente ajeita uma paradinha... o que acha?
— ‘Tô ouvindo...
Ele ainda silenciou enquanto o carinha nos servia e só observei o baile até estarmos sós e ele falar:
— A gente dá um corretivo lá dentro, antes de vocês tirarem ele. Todo mundo ganha...
— Não sou homem de mandar recado. — Neguei.
— E o que vai fazer? Entrar na porrä do presídio ‘pra isso? Sabe que é arriscado ‘pra caralhö, ‘né!?
Acabei sorrindo de canto de boca pela ideia.
— Que isso, cria! Perdeu o juízo? — Soou preocupado. — Não concordo e nem vou concordar.
— Nem tinha pensado em ir lá, mas a ideia é boa.
— Putä que pariu. — Ele meneou a cabeça.
— Escolhe o que é menos pior... Não precisa se preocupar com dissidência. Sou bom em acatar ordem, mas não vou me esquecer e ‘cê sabe disso.
— Pega ele quando chegar, eu troco. — Ele se rendeu. — Sorte que tu é leal e muito valioso, mano.
— Sei que sou — sorri. — Sei que a gente é muito de boa com tudo, mas o cara vacilou numa situação muito esquisita... isso, ‘pra mim, nem devia ter perdão.
— Entendo seu ponto. — Ele assentiu. — Pensei ‘pra caralhö nessa porrä, mas é foda... a gente nunca sabe quando é só neurose... quando é verdade.
— Na dúvida, tomo como verdade. — Dei de ombros. — Vou garantir que ele vai falar o que houve.
— Valeu pela ajuda.
— Valeu nada. Quero dinheiro! — ri e ele também.
— Vai chegar uma chuva de barão ‘pra tu.
— Ótimo. Vou circular! — Eu levantei.
Saí do camarote, observando tudo. Era um hábito me ater a rostos diferentes ou formas de vestir distintas.
Na multidão, era difícil identificar, mas ainda observei um grupinho de meninas. Elas mais pareciam nunca terem ido a nenhum baile de favela na vida.
Eram bonitas, pareciam novas e muito ingênuas — no mínimo, algo difícil de se ver. Ainda observei um pouco e elas não tinham nenhum conhecido.
Só passei por um soldado ‘pra chamar atenção ‘pras minas e mandar ele ficar de olho — nunca se sabe.
Voltando na boca, DG jogou o frasco de um lança e eu só agradeci com um sorriso. Nem ‘tava na vibe de usar nada, mas ignorei e me recostei ‘pra olhar tudo.
Era meia-noite quando me chamaram no rádio.
— Qual foi? — Eu já ‘tava chapadinho.
— A mãe Ana ‘tá chamando... — Foi a fala do garoto que ‘tava cuidando de Alma, fiquei preocupado.
— ‘Tô descendo. Problemas?
— Nada muito grave pelo que entendi... A mina recebeu mais mensagem do tal carinha e quer te ver.
Só avisei que sairia, deixei o lança com o DG e desci sem pressa. A mãe ‘tava no portão, bordando uma blusa e bebendo cerveja enquanto olhando ‘pro nada.
— ‘Bença, mãe! — Eu lhe sorri.
— Hmm... que filho cheiroso... — Ela sorriu largo. — Tirando essa porcaria de loló! — repreendeu. — Que Deus te abençoe! — suspirou. — Ela ‘tá lá dentro.
Assenti com a cabeça e entrei. Alma ‘tava no sofá.
Não parecia tão nervosa quanto a última vez, mas ainda tinha certa apreensão no semblante.
— Noite, linda. — Eu lhe sorri. — Cheguei.
— Boa noite... ‘Cê precisa olhar isso aqui! — Com tom muito sério, ela só me entregou o telefone rápido.