7 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
Era insuportável a falta que ela me fazia.
Bastava sentir seu beijo que a mão logo procurava seu cabelo e eu precisava me conter ‘pra não mandar — ela sempre se submetia e me obedecia.
Subiu no meu colo e eu só me deixei consumir pelo extremo relaxamento que seu corpo me causava.
Naquele momento, soube que não importava, ela sempre seria a mulher mais linda daquele morro. Nem os machucados podiam diminuir essa sensação.
Lena sempre gemia baixo com vergonha. Rubor tomava seu rosto e seus olhos me imploravam — ah, eu realmente sentia saudade daquele olhar!
Ela me deixava maluco com pouco. Talvez fosse coisa da minha cabeça ou só meu corpo implorando pela dona — isso seria muito difícil de saber.
Até deixei que ela, com os braços envoltos em meu pescoço, medisse o quanto me sentiria, mas eu sempre fui muito mais enérgico que aquilo.
Quando ela mostrou fraqueza na perna — o que nunca demorava quando ela ‘tava chapadinha —, eu só me recostei no sofá ‘pra tomá-la pela cintura.
Eu podia fazer todo o trabalho de matar a minha saudade do meu jeito. Isso fez o volume de seus gemidos aumentarem e eu só sorri largo por isso.
Era sempre com ela que eu cometia o vacilo de esquecer a porrä da camisinha. Não foi diferente naquele momento, ela era quente demais ‘pra negar.
— Cacetë, Lena! — sibilei, arfando forte.
— Eu te odeio! — Ela falou por entre gemidos e eu só sorri. Já estava quase gozando e bastou ouvir sua voz.
Ainda apertei sua cintura; o corpo queria muito mais, mas lembrei do garoto e olhei ‘pro relógio: quase meio-dia, já não podia continuar.
— Odeia porrä nenhuma! — retruquei, voltando a tomá-la pelo cabelo, só ‘pra ouvir o gemido. — Ninguém vai ser como eu, Lena... Nunca esquece disso!
Ela fitou meus olhos com melancolia.
A onda pegou forte, me fez recorrer a um cigarro e eu peguei o rádio ‘pra fazer alguém ir atrás do moleque — provavelmente eu não chegaria tão rápido.
— ‘Cê devia parar com isso... — Ela ainda estava ofegante. — A gente devia parar com isso. Que inferno!
— ‘Cê pode até não acreditar, mas eu te amo ‘pra caralhö. — Dei um trago generoso. — Se adianta, Lena... — Deixei o cigarro na boca ‘pra tomá-la pela cintura.
Ela gemeu quando a tirei do meu colo, mas a sentei ao lado. O arrependimento sempre batia rápido — dessa vez, foi por lembrar de VK no lado de fora.
— Ainda sou a mãe do seu filho, me respeita! — Ela fechou a cara. — Não sou como nenhuma delas...
— O que quer que eu faça? — Eu a olhei de canto.
— Se adianta, não é o que eu quero ouvir!
— Não me tenta. — Virei o rosto ‘pra encará-la. — Não sou só o melhor homem que vai te fodër, nem só o melhor pai. Tenho poder ‘pra caralhö e só não uso ‘pra te prender na minha casa ‘pra tentar me manter são.
— ‘Cê é escroto! — retrucou.
— Você nem sabe o quanto posso ser pior — ameacei. — É melhor você se adiantar. Teu macho deve ‘tá lá fora ainda... — Engoli seco, afinal, a vontade era só sair e atirar em meio mundo de gente.
Ela se ajeitou e saiu, batendo o pé.
Era um inferno. Eu estava mais relaxado e mais estressado simultaneamente. Ainda me recostei no sofá, ajeitei a bermuda e terminei o cigarro na paz.
O objetivo era só estar menos chapado quando Miguel chegasse. Um pouco de colírio e óculos foram mais que suficientes ‘pra dar uma disfarçada.
— Alguém sobe com a porrä do meu almoço! — Foi a única ordem que dei no rádio, me levantando.
— Já ‘tô com o garoto e com a mina. A gente ‘tá lidando com isso, chefe. — A resposta foi até rápida.
Não respondi. Fui até a cozinha ‘pra beber minha água — aquela deu uma sede da porrä! Ainda sentei na bancada, olhando na direção da porta.
Vivi muita coisa até ali e isso sempre martelava na cabeça. Nem saberia dizer se estava realmente satisfeito com aquela merda toda.
Antes que a onda ficasse mais depressiva, eu peguei meu caderno sobre a geladeira ‘pra ver os carregamentos dos próximos dias.
Eu já tinha tudo esquematizado. Tomei uma nota mental de quem contactar no decorrer do dia, isto é, até o momento do baile onde eu me dedicaria apenas a ele.
— ‘Tô caindo no Batan hoje. — Era Filho no rádio, o gerente da favela vizinha. Quase meu chefe, só pelo tempo a mais que ele tinha dedicado à facção.
— Só chegar. Treta, ‘né!? — respondi rápido.
— Alguma... Preciso de um suporte.
— Vou preparar a tropa ‘pra te receber.
— Valeu, cria.
Respirei fundo, adicionando mais aquele trabalho na lista. Não demorou ‘pra Miguel chegar; entrou com Alma, mas o soldado se adiantou.
— ‘Bença, pai. — Ele sorriu.
— Que Deus te abençoe e faça feliz. — Beijei sua testa quando ele se aproximou. — Quem te trouxe?
— Vitinho.
— Tranquilo. E aí, linda! — sorri ‘pra ela.
— Boa tarde. Trouxemos o seu almoço. — Ela sorriu, mostrando a sacola. — Espero que esteja bem...
— Sempre vou ficar.
— Vou tomar banho. — Miguel disse. — Já almocei com a vó. A gente trouxe outra ‘pra Pati, tudo bem?
— De novo!? — Levantei a sobrancelha.
— Parece que sim, ‘né!? — Deu de ombros.
— Depois ‘cê pega uma cesta e leva com os garotos. Sabe onde fica — suspirei. — Lembra de descer ‘pra receber sua amiga. Não se perde nessa porrä!
Ele sempre se distraía com o telefone e as putas.
— Sim, senhor! — riu, sem graça.
Ele subiu e Alma sentou à mesa, tirando a quentinha com meu nome ‘pra pôr na minha frente.
— Também comi, mas faço companhia!
— Valeu! — assenti com a cabeça.
— ‘Tá chapado, ‘né!? — riu.
— Quem pergunta!? — Eu brinquei.
— Os óculos até te dão um charme... — Ela riu ainda mais. — Aumenta essa aura poderosa, sabe!?
— As vantagens de ser chefe... — Dei de ombros.