7 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
— É ótimo que a senhora ainda esteja bem — sorri largo quando finalmente ficamos sozinhas. — Nem consigo explicar quanto fico feliz com isso.
— Sou muito grata por tanto viver! — Ela sorriu timidamente. — É uma pena que as coisas não deem sinal de boas mudanças, sabe!? — Ela me olhou.
Dona Ana era a grande mãe do Batan. Todo mundo em Realengo conheceu ou, ao menos, já ouviu falar da velha senhora caridosa que ajudava todos!
Quando falo todos, é bem literal.
Tive pouco contato com ela na infância, há tanto tempo que já nem me lembrava tão bem. Depois, a ida à Zona Norte do Rio; depois, a ida a São Paulo...
Muito tempo passou; vivi muita coisa; mas ela resistiu. Já não tinha aparência tão jovial quanto eu lembrava — claro —, mas ainda parecia ótima.
Tive vergonha de perguntar sua idade, mas ela já devia estar ‘pra lá dos oitenta, talvez quase noventa.
— Meu filho falou comigo; a mãe de Helena também. Sua situação não me parece boa, moça. — Soou preocupada e carinhosa. — O que houve?
— Um príncipe que virou sapo...
— Vivia com seu pai, não!? — Ela me olhou.
— Sim, mas meu pai já faleceu. — Não pude conter a chateação. — Faz alguns anos... A mãe até falou ‘pra eu voltar, mas eu não tinha como abandonar tudo.
— Imagino. Os sentimentos. Faz algum tempo que não vejo a senhora sua mãe — riu. — Casou de novo...
— A mãe sempre foi namoradeira — brinquei e ela riu. — Foi só isso. Acho que tenho dedo podre, sabe?
— Ah, minha filha. Não pense assim — falou piedosa. — O mundo está louco. Não o contrário.
Ela se levantou e gesticulou para eu acompanhar.
— Bebe água? — ofereceu.
— Eu poderia pegar...
— Não estou morta, garota! — retrucou. — O barraco mudou pouco. Só tenho um quarto, mas sempre cabe mais gente. Então... fique à vontade.
— Obrigada, tia.
Ela bateu com a bengala em uma cadeira, tipo sinalizando ‘pra eu me sentar, e seguiu até a geladeira.
A casa de Ana era em meio a alguns barracos muito pobres e, apesar da aparência externa, o interior era muito mais luxuoso e conservado do que parecia.
A cozinha era um luxo! Com tudo que havia de mais sofisticado, o local e os móveis eram tão impecáveis que pareciam recém-comprados.
Ela serviu minha água e abriu a janela.
— Sei que um dos meninos ficará te vigiando. — Ana falou enquanto eu bebia água. — Não precisa se incomodar. Dificilmente eles entram ‘pra vigiar — riu.
— Até parece algo que ocorre muito...
— Muito mais do que imagina! — Ela suspirou. — Os meninos sempre arrumam alguém que precisa de ajuda e recorrem à mãezona aqui — riu.
— Posso ajudar a senhora com algo? — ofereci.
— Chegou há pouco. Imagino que esteja muito cansada. — Ela soou preocupada. — Pode me ajudar mais tarde. Por ora, é bom que você descanse...
— Sim, senhora.
— Já soube que é professora... Parabéns. É uma profissão difícil. — Ela sentou perto de mim. — Posso ajudar a conseguir um emprego bem perto.
— Obrigada. Eric ofereceu um negócio com uma mocinha, amiga do filho dele, enquanto não lida com as coisas ‘pra eu conseguir um emprego.
— Terá trabalho! — Ela alertou. — A menina sofreu um abuso recente. Finge estar bem, mas não está realmente lidando bem com o que ocorreu...
— É uma pena. — Eu me compadeci, suspirando.
— Sim, lastimável mesmo. — Ela assentiu, mas logo respirou fundo para sacudir aquele sentimento ruïm ‘pra longe. — Enfim, você tem roupas, moça?
— Fiz algumas compras com Helena. Acabou ficando lá em cima. — Eu me acanhei por só me lembrar das roupas naquele momento. — É... esqueci.
— Depois pedimos ‘pros meninos buscarem. — Ela deu de ombros, sorrindo. — Pode tomar seu banho. Devo ter algo do seu tamanho no meu armário.
Fiquei curiosa, afinal, nossos corpos eram bem diferentes, mas não a indaguei. Era um dia quente e um banho definitivamente cairia muito bem.
Segui ao meu banho. O lado bom é que, naquele calor, a água estupidamente gelada era ótima! Ana me ajudou com a toalha e as roupas.
Era até um modelito bem bonito, realmente proposto ‘pra minha idade e ‘pro meu corpo — o que me surpreendeu. “É realmente normal...”, concluí.
— A senhora pode me ajudar? — pedi ao ir à sala.
— Claro, do que precisa?
— Alguns cadernos e canetas seria bom. — Eu lhe sorri. — Algumas informações sobre a menina também, se tiver. Tipo, em que ano ela está... parte do currículo.
— Ah, posso ajudar, sim! — Ela assentiu com a cabeça. — Só vou pedir ‘pra um menino buscar o material. Tenho algum, mas não tanto.
Assenti e a aguardei. Era a famosa sexta série.
Ana tinha cópia dos boletins de algumas crianças, incluindo do filho de Eric, então isso colaborou ‘pra eu ver as matérias que ele tinha.
Ela tinha um telefone e me bastou ‘pra eu dar uma olhada na base curricular que tinha disponível na Secretaria de Educação do Estado.
Acabei ocupando toda a manhã. Não só vendo o material ‘pra ensinar a menina, mas também ‘pra me atualizar quanto ao conteúdo das escolas cariocas.
A diferença não era tão grande assim, mas ainda me foi bom observar. Querendo ou não, ainda era o trabalho da minha vida e eu realmente o amava.
Pausamos ‘pro almoço e fomos surpreendidas pela chegada de Miguel, sem o pai. Um dos garotos do morro foi o responsável por buscá-lo.
— Cadê teu pai, garoto!? — Foi a pergunta de Ana.
— O chefe ‘tá lá em cima com a primeira-dama. Ocupado. — O guardinha justificou pelo menino, que só deu de ombros. — Ele disse que tinha que vir aqui.
— Sim, tem que subir com a prima. — Miguel confirmou, olhando para mim. — A Pati sobe depois...
— Ninguém vai subir sem comer! — Ana falou.
— Sim, senhora, vó. ‘Bença. — O menino entrou.