6 de maio de 2015, Favela da Linha, Macaé
— Já ‘tá tudo ajeitado. Sua princesinha foi bem-tratada pela tropa — falava um dos soldados do lado de fora. — O chefe já ‘tá avisado de tudo. ‘Cês podem só partir...
— Tranquilo, meu irmão! — Outro respondeu.
Eu madruguei naquela quarta. Estava arrumada antes do sol nascer e fiquei quieta, sentada, olhando pela janela — tentando não morrer de ansiedade.
Assim que eu os ouvi, respirei fundo.
Não demorou para baterem à porta e finalmente levantei. Tinha um branquinho, totalmente grisalho, com o garoto que me fez companhia na última noite.
— Bom dia! — O garoto sorriu. — Chegou a sua hora...
— E aí. Bom dia. — O branquinho sorriu.
— Bom dia! — Eu lhe sorri. — Obrigada pelo cuidado e atenção que me deu! — falei ao menino que me acompanhou.
— ‘Tá tranquilo. A gente só trata família bem, ‘né!? — riu.
Ele nem disfarçou ao me medir de cima a baixo. Felizmente, sua reação parou por aí, sem nenhum sorrisinho ou coisa parecida — menos mäl, eu achei.
— Podemos? — perguntou e assenti.
Segui logo atrás em silêncio. Não sabia muito bem o que esperar daquela viagem, tampouco da chegada em casa e aquele olhar assustou.
Um carro de rico era o que me esperava. Duas duplas estavam em motos separadas, atrás do carro.
Ele abriu a porta do banco de trás para mim e deu uma breve corrida para assumir a direção do carro.
— Em caso de problemas, é só se abaixar. A gente tem blindagem nesse carro, mas nunca se sabe! — Ele alertou. — Imagino que não comeu ainda...
— Ainda não...
— Em uma hora, a gente deve chegar num ponto mais seguro. Aí fazemos uma parada ‘pra isso, tudo bem? — Ele me olhou sobre os ombros.
— ‘Brigada.
— Precisando de outra coisa, é só avisar que a gente dá um jeito. Tenta cochilar, sei lá. Quer música?
— Não, tudo bem! — ri.
Ele assentiu e deu partida.
Recostei, olhando pela janela. Ter as duas motos vindo logo atrás era, no mínimo, assustador... Lembrava dos dias de perseguição do louco.
Fiquei desconfortável, mas não reclamei.
Mesmo não me sentindo a fim de cochilar, acabei dormindo. Só acordei ao sentir o carro ficando lento.
Era um local tão quieto que até as motos, por mais silenciosas que fossem, soavam alto o suficiente.
Paramos num restaurante de beira de estrada no que parecia uma rodovia importante. Haviam poucos veículos passando por ali naquele horário — estranho.
Se fosse algo tipo uma interestadual, teria ao menos caminhões e nem isso. Os garotos das motos pararam e desceram primeiro para ir ao restaurante.
— Precisa ir ao banheiro ou algo do tipo? — O branquinho falou. — Quer algo mais, além de comer? Eu recomendo que aproveite para beber água.
— Aceito água e até posso ir ao banheiro... Se vou beber água, é bom esvaziar — ri e ele acabou rindo.
— Tranquilo. Os moleques vão vir e entro contigo.
Assenti e aguardei com ele. Os meninos demoraram um pouco, mas saíram olhando para o carro. Acenaram, numa comunicação difícil de decifrar, mas o branquinho saiu logo depois.
Abriu a porta para mim, sorrindo.
Eu estava bem sem graça. Tudo parecia estar indo bem, logo, não era sábio arriscar nada. Fui ao banheiro e fiz uma forcinha ‘pra esvaziar a bexiga.
Por sair cedo, eu acabei me agasalhando, mas, conforme nos afastávamos da costa e chegávamos aos centros mais agitados, o calor começava a aumentar.
Muito!
Tirei o casaco e ainda molhei o rosto. Umedeci o cabelo, molhei a nuca e os pulsos — um velho truque para combater insolação, nem sabia se funcionava.
Saindo do banheiro, o branquinho estava de braços cruzados. Parecia muito mäl-encarado — de forma que eu poderia dizer ser um homem diferente.
— Tudo bem? — Ele me perguntou.
— Sim, ‘brigada.
Olhando sobre os ombros e sorrindo, ele dispôs silenciosamente e voltamos ao carro ‘pra aguardar as refeições — eles compraram para todos nós.
Assim que as pegamos, ele dirigiu um pouco, parou à beira da estrada e os rapazes se ajeitaram nas motos e até nos bancos do carro para comermos.
Compraram três grandes garrafas d’água e todos estávamos sedentos o suficiente para quase secar duas delas — apenas a terceira sobreviveu até então.
Ninguém quis conversar enquanto comíamos e eu não me encorajei a puxar assunto. Numa época passada, até tentaria adquirir qualquer informação.
Talvez, pudesse ter aliados ao chegar...
Contudo, a situação com meu ex realmente me desencorajou quanto a essas coisas; essa forma de ser e de ganhar vantagem... Eu realmente não queria mais.
Recostada na porta e olhando para trás na estrada, acabei sentindo falta do pai. Ele foi quem me levou ‘pra São Paulo e batalhou muito por mim.
Comprou a casa, pagou parte da faculdade; ele foi um verdadeiro anjo na minha vida, grande guardião...
Era lastimável ver que falhei com seu cuidado.
Jamais me perdoaria por ter sido tão idiotä e me deixado levar por ideias estúpidas de ostentação e, convenhamos, um provável vício em adrenalina.
Terminando de comer, a viagem continuou.
Foi entediante, mas o coração palpitou quando chegamos na Avenida Brasil. Uma lágrima chegou a cair no rosto, meramente por me sentir em casa.
Tudo diferia do que lembrava, claro, mas aquele era um trecho que provavelmente jamais mudaria — sempre seria reconhecível para o olhar carioca.
— Vou te levar direto ‘pra casa do meu chefe. — O branquinho falou. — Lá vocês se resolvem. Conta comigo ‘pra dirigir. Sempre que eu puder, claro.
— ‘Brigada. E-eu sou... Alma.
— Piloto, moça. É como chamam — sorriu.
— Acho que já ouvi de você — ri.
— Tenho um currículo grande... É provável que Lena tenha falado de mim por aí — deu de ombros. — Contanto que fique entre nós. ‘Tá de boa.
— Sempre! — sorri-lhe.