Capítulo 6. Malandro é Malandro...

1058 Words
6 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo Trabalhei igual um corno da terça ‘pra quarta. Só consegui realmente parar ‘pra me sentar e comer algo por volta das nove da manhã. Estava na porta da minha casa quando vi Miguel subindo. A cara de poucos amigos deixou claro que teve problemas no colégio, mas ele ainda estava alinhado — sabia como fingir que nada aconteceu. — Problemas? — Foi a minha pergunta. — Um pouco. — Ele respondeu. — ‘Bença. — Sua mãe sabe que ‘tá aqui? — Não. — Ele meneou a cabeça. — O que houve? Senta aí. Ele jogou a mochila perto da parede e sentou, usando a mochila de encosto. Suspirou e recostou. — Brigou? — perguntei. — Ainda não... ‘Tô tentando... — O mesmo moleque? — Sim. Diz que tem muita moral na área dele e acha que vai ser igual aqui. Isso ‘tá me tirando do sério. — Ele meneou a cabeça. — Mas, eu ainda ‘tô bem. Apenas o olhei de soslaio e bem não definia. — Pretende ficar? — Só até dar a hora do almoço... — Quase pediu. — Pode ficar. Daqui a pouco eu ‘tô descendo ‘pra ver a tropa, mas volto logo. Sua, sei lá, prima, tia-avó... fodä-se, ‘tá chegando... — Dei de ombros e ele riu. — Peço a comida e tudo mais, pai... — Faz a Su cozinhar ‘pra tu, ‘pô! — sugeri. Sorri de canto de boca e ele repetiu o sorriso. — Sabe que é treta, ‘né!? — Eu o olhei de soslaio. — A gente tem nada não, pai. — Esse sorriso não parece dizer isso... — Nada sério, pelo menos. — Deu de ombros. — Sabe que ela vive nas festinhas da endolação, ‘né!? — alertei. — Deve ‘tá nessa em busca de coca... — Eu não tenho coca comigo. Nem quero. Se ela ‘tá querendo, vai ficar chateada com essa notícia — riu. — Até lá, eu já me dei bem vezes o suficiente, ‘né? — Esperto! — ri. — Se tua mãe ouve isso, ela me mata e depois te mata... tudo na porrada... sabe? Miguel acabou gargalhando. Consegui fazê-lo relaxar um pouco com qualquer conversa idiotä — funcionava comigo e com ele também. Quando deu minha hora de rodar o morro, eu o deixei sozinho. Teria ainda mais carga ‘pra lidar naquele dia e quinta-feira era dia de endolar... Sexta-feira era dia de baile. A semana ‘tava muito corrida! — Chegamos. — Foi o dito de Piloto no rádio. — Pode subir. Miguel ‘tá em casa e alguém deve ‘tá cozinhando. Como foi a viagem? — perguntei. — Bem tranquila... Sei que deixou um dinheiro ‘pra mina e tal. Não quer que eu deixe ela na mansão? — Tem que ver se Lena ‘tá por lá — suspirei. — Seria ótimo se Lena ficasse com a garota por hoje. Até eu me desocupar, pelo menos... Aí a gente papeia. — Quem ‘tá lá? — VK. — Valeu! — A comunicação comigo encerrou. Ele alternou a frequência ‘pra falar com VK e eu só acompanhei. Nada falei. Ainda estava averiguando as descargas do dia anterior ‘pra se ter uma ideia. Terminei perto do almoço. Estava esfomeado, então fui direto ‘pra casa. Para minha felicidade, a tal prima de Lena não estava na minha casa. Miguel estava de bermuda e descalço, sentado num dos bancos da cozinha enquanto conversando com a tal Suelen, que realmente cozinhava. Ela era uma branca baixinha de dezesseis. Já trepava com a tropa desde os catorze, começou a usar mais cedo ainda — e eu só podia ficar olhando... Não podia bater em quem comesse aquela porrinha, nem podia bater nela por trepar com a porrä do meu filho — uma sinuca de bico do caralhö. — Atividade! — Foi só o que falei enquanto seguindo ao sofá. — Que Deus te faça feliz, garoto. — ‘Bença. — Ele riu. — A mãe saiu... — E qual foi a do papo da tal festinha de vocês? — Ela deixou, mas preciso voltar às nove... — Soou chateado, porém contentado. — Já falei com a Pati e ela ‘tá esquematizando tudo ‘pra isso. — ‘Tô ocupado hoje. Não me arrume nenhuma merda grande. Usa camisinha. Fica longe das drogas. — Repeti o discurso de sempre. — Qualquer coisa... — Peço ‘pra te passarem um rádio — concluiu. — Ótimo! — Vitinho ficou de passar lá no Alan. — Ele falou. — Parece que ‘tão realmente curtindo essas paradas. — Só não se mistura... — Jamais, pai. — Ele deu de ombros. Acabei deitando no sofá. Nem me notei cochilar. Pior, Miguel e a garota não me chamaram, então só acordei em meio à tarde porque um putä vento gelado entrou pela janela e me arrepiou. Olhando ao redor, não tinha ninguém. Subi alguns degraus e deu ‘pra ouvir um pagode tocando no quarto de Miguel — ‘tava acompanhado. Não incomodei, fui à cozinha ter o meu almoço ou jantar... Já nem sabia que refeição era aquela mais. O que eu gostava na Su era o quanto a mão era boa ‘pra comida. Ela não era uma mocinha feia, mas já se estragava com cocaína e o futuro mostraria seu erro. Lastimável, honestamente. — Qual é a da treta, tropa? — perguntei após ligar o rádio e o deixei à minha frente na mesa ‘pra eu comer enquanto ouvia todo mundo reportando. Na frequência mais privada, DG reportou por último, falando que tomou parte do meu trabalho após passar na minha casa e me encontrar dormindo. — Valeu, meu mano. — Volta a dormir que ‘tá tudo sob controle. Os caminhões só chegam por volta das seis. Assim que eles brotarem na Brasil, passo um rádio e ‘cê vem. — Porrä. Vou aproveitar, sim. — Já estava sonolento, nem consegui cogitar negar aquilo. — Eu te dou uma moralzinha depois, meu mano. — Sabe que nem precisa! — riu. — ‘Cê ainda vai ter que esquematizar a festinha na casinha... não tomei essa liberdade ‘pra segurança dos nossos... — De boa. Isso é mole!
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