No dia seguinte, Milena chega na casa de Dona Nora, junto com a mãe. Cláudio ainda não havia chegado, mas elas na ansiedade haviam chegado mais cedo. Tomaram um café e ele logo apareceu. Percebeu que Milena estava um pouco nervosa e tentou acalmar a moça.
Dirce agradeceu pela oportunidade que ele estava dando prá filha e foi cuidar do seu trabalho.
Cláudio continuou tentando acalmar e ela por fim, esclareceu:
- Sabe o que é, doutor? Apesar da dona Marlene extrapolar nos horários, e agir de maneira rude comigo, esse trabalho me ajudou na hora que eu mais precisei e eu estou me sentindo um pouco ingrata.
- Não é ingratidão tentar melhorar de vida. Seria uma ingratidão com você mesma e com a sua mãe que também se sacrificou pra que você estudasse, deixar passar a oportunidade. Mas quero que você pense bem. Tá querendo desistir?
- Não, vamos lá. O senhor tem razão. É pra frente que se anda e ela nunca me deu valor mesmo, é bobagem minha. Vamos?
Cláudio se despediu e ao chegar ao hospital, foi pessoalmente no setor apresentar Milena como pretendente a vaga.
O pessoal procurou deixá-la bem a vontade e começou a explicar como o setor funcionava, iniciando o teste. O primeiro paciente que chegou, Cristina, que estava encarregada de fazer o treinamento, mandou que ela prestasse atenção. No computador, achou a ficha e começou a preencher, acrescentou os exames que o paciente ia fazer e já marcou nova consulta, para quando esses exames estivessem prontos.
Milena achou uma rotina muito fácil.
Quando apareceu mais um, Cristina perguntou se ela já se achava capaz de atender e ela disse que sim.
Pegou os exames solicitados e seguiu direitinho confirme Cristina havia feito. Terminada essa tarefa devolveu as solicitações dos exames ao paciente e o encaminhou para o laboratório para realizar os procedimentos prescritos.
Naquele horário, a maior parte era prá fazer exames.
Ela não cometeu nenhum erro.
Quando chegou uma paciente sem hora marcada, mas se sentindo m*l, Cristina acudiu. Era um processo novo que ela não conhecia. Atendeu a paciente com Milena prestando atenção e devolveu o posto a ela assim que acabou de atender a paciente, conseguindo uma brecha para encaixe.
Cristina percebeu que ela havia ficado muito atenta.
Assim que a paciente se afastou, Milena perguntou:
- E se ela tivesse hora marcada, como seria atendida aqui?
- Você ia entrar na ficha dela, confirmar o horário e pelo computador avisar ao médico que a paciente já tinha chegado e mandado ela aguardar a chamada perto do consultório. Quando chegar alguém nesse caso, eu faço a primeira prá você ver como é.
- O trabalho é muito fácil.
- Você tem facilidade de aprender e é muito interessada. Tenho certeza de que a vaga é sua.
- Desculpa a curiosidade, essa vaga abriu como?
- Uma das meninas vai casar e parar de trabalhar. Vai casar com um dos médicos daqui e ele não quer que ela continue a trabalhar.
- Eu trabalho desde bem nova. Acho que não ia conseguir virar simplesmente dona de casa.
- Também acho. Eu também sou casada e meu marido ganha bem, mas não quis parar de trabalhar. É tão bom ganhar o nosso próprio dinheiro. Mais tarde se começar a vir filhos, eu posso até mudar de idéia, mas por enquanto, não.
E ficaram aguardando a chegada de mais pacientes.
Na hora do almoço, parecia que Milena já estava ali há muito tempo.
Quando Cláudio apareceu pra saber o que ela tinha achado, foi Cristina que respondeu:
- Ela já pegou a rotina toda e se saiu muito bem. Nem parece que está fazendo teste.
Cláudio perguntou:
- Então por você ela já está aprovada?
- Com certeza, parece que já faz isso há muito tempo. Eu ia atendendo um paciente de cada procedimento e ela olhava, os outros ela atendeu, sem cometer nenhum erro e com uma segurança que o senhor precisava ver.
- Está na hora do almoço de vocês?
- Sim.
- Leva ela no refeitório e apresenta lá. Explica que começou hoje e ainda está sem o uniforme e o crachá.
- E se na quiserem servir?
- Você fala que fui eu que mandei. Depois do almoço vai com ela no Departamento Pessoal e que eu mandei fazer a contratação dela no cargo de recepcionista. Depois vão no almoxarifado e retirem dois uniformes completos pra ela. E procura um armário vazio pra ela guardar suas coisas quando chegar. Eu estou indo almoçar.
- Sim senhor.
E se dirigindo a Milena:
- Você vai saber ir embora sozinha?
- Sei sim senhor, eu conheço essa parte da cidade.
- Tá bem. Quando eu voltar do almoço vou entrar em reunião, que só vai terminar muito tarde. Amanhã nos falamos.
- Obrigado, doutor
- Eu só te trouxe. Quem mereceu a vaga foi você.
E saiu deixando as duas sem poder falar mais nada.
Depois de cumprirem as determinações de Cláudio, retornaram ao trabalho e o resto do dia passou rápido. Logo estava indo em direção a sua casa.
Quando chegou a mãe já estava e perguntou como tudo tinha sido.
Milena falou empolgada:
- O trabalho é fácil. Fui aprovada logo no primeiro dia e meus documentos já estão lá no DP. Agora sou oficialmente empregada do hospital. A Cristina, que ficou me treinando, falou com o Dr. Cláudio que eu tinha aprendido com facilidade e ele mandou me efetivarem logo.
- Temos que comemorar. Vai lá na padaria e compra um refrigerante para a janta. Vou encrementar lá na cozinha .
E abraçou a filha, a irmã se juntou às duas no mesmo abraço.
- Deixa que eu vou, disse a irmã, que se chamava Mirella, vai tomando banho em quanto isso.
Pegou o dinheiro com a mãe e saiu.
Enquanto já estavam jantando, Mirella perguntou a Milena se não dava prá ela indica-la para a antiga patroa.
- Não, você vai só estudar. Eu vou ganhar quatro vezes mais do que ganhava e com a mamãe trabalhando, não tem necessidade de você se sacrificar.
A mãe:
- Se fosse em uma casa como a que eu trabalho, não teria problema, mas na casa que a Milena está saindo, não pagam nem o salário mínimo e não respeitam o horário. Quantas vezes chegou tarde da noite tendo perdido aula por causa da patroa?
Também não concordo que você vá.
- Mas eu também queria ter o meu dinheiro.
- Procura alguma coisa por aqui. O mercado, a padaria e outras lojas têm dois turnos. Você estuda de manhã, procura alguma coisa prá parte da tarde. Disse Milena.
Mirella procurou se confirmar e voltaram a falar do primeiro dia de trabalho da Milena.
Ela foi explicando:
Lá também tem diversos horários, já que funciona vinte e quatro horas. Eu peguei o de oito às cinco com uma hora de almoço.
A Cristina falou que se chegar mais cedo, quinze minutos antes do horário, tenho direito de ir ao refeitório tomar o café da manhã. O almoço estava muito bom.
Dirce incentivou:
- Faz a tua parte que vai dar tudo certo.
- Eu tenho fé que vai.
Arrumaram a cozinha ainda comentando sobre o assunto e depois de tudo pronto, chamou as duas ao quarto que as irmãs dividiam, para mostrar o uniforme. Ela explicou que tinha um armário com cadeado para deixar as suas coisas, mas ela ia já de uniforme para o trabalho. Teria orgulho de desfilar com ele.
E foram se preparar para dormir.
No dia seguinte, antes de ir para o trabalho, passou no antigo emprego de Milena e avisou que ela não ia continuar.
Não foi bem recebida e teve que ouvir que a filha era uma ingrata e que ia se arrepender de trocar de casa para trabalhar.
Então Dirce, perdendo um pouco a paciência respondeu:
- Ela não está mudando de casa. Arrumou emprego de carteira assinada no serviço para o qual se formou. E digo mais: Se a senhora não passar a assinar as carteiras de quem vier trabalhar aqui e respeitar o horário de trabalho delas, não vai parar ninguém aqui.
Existe lei que protege o serviço doméstico. Era isso que eu tinha prá falar.
- Manda ela passar aqui no Sábado para receber os dias trabalhados.
- Vou falar com ela, se ela não vier, venho eu.
- Só vou acertar com ela.
- Tá bom. Viremos as duas. Até Sábado. Estou atrasada pro meu serviço.
E saiu deixando a outra cheia de raiva.
Quando chegou no trabalho encontrou Dona Nora muito nervosa, que perguntou:
- O que aconteceu? Porquê você está chegando só agora?
- Desculpa Dona Nora. Saí de casa mais cedo porque tinha que passar lá na casa da dona Sirlene prá avisar que ela não ia mais, mas ela engrossou comigo e eu demorei mais do que eu esperava. Se a senhora quiser, posso ficar até mais tarde para compensar.
- Não, Dirce. Não estou chamando a tua atenção. É que depois do acidente da Berenice, todo mundo da casa que atrasa, me deixa nervosa. Já fico imaginando uma outra tragédia. Desculpa se eu fui grosseira. Mas você falou que ela engrossou? Como assim?
- Ela disse que a Milena estava sendo ingrata, que ela estava indo para outra casa e eu tive que me segurar prá não perder a cabeça.
Aí joguei na cara dela que a menina não tinha carteira assinada, não tinha respeito no horário de trabalho e que ela não estava indo trabalhar em casa nenhuma. Falei que ela tinha arrumado um emprego de carteira assinada na função para qual se formou.
- E ela?
- Não quis me pagar o salário que a Milena tem direito e disse que só paga a ela.
- Se a Milena vier falar com ela, vai se aborrecer, com certeza. Não é melhor deixar prá lá?
- Não seria justo. A menina trabalhou. E ainda tem coisas dela lá.
- Mas às vezes vale mais um prejuízo do que um aborrecimento. Mas vocês é que sabem.
- Eu vou falar com ela. Se quiser vir, eu venho junto. Eu não queria ter respondido, afinal de contas, foi ela quem me indicou pra cá. Mas ela foi muito grosseira e eu não aguentei.
- Não foi assim não. A Neide encontrou com ela na rua e comentou que precisávamos de alguém, só que tinha que ser uma pessoa mais madura porque eu não queria nenhuma mocinha avoada pra me dar dor de cabeça. Pediu prá ela perguntar prá Milena se conhecia alguém e a menina trouxe você. Ela só passou um recado.
- Pensei que ela sabendo que eu estava com dificuldade de arrumar trabalho, por causa da idade, tinha me indicado.
- Não. Foi do jeito que eu te disse. O único favor que ela fez, foi dar um recado. Mas vamos deixar isso prá lá. Você pode aproveitar que ainda não mudou de roupa e dar um pulo no mercado prá comprar umas coisinhas comigo?
- A senhora não quer fazer a lista e eu vou?
- Não. Vou junto porque ainda não tenho certeza do que vou comprar. Vou pegar a bolsa.
E saíram, deixando aquele assunto desagradável para trás.
Depois das compras, voltaram para casa e cada uma foi cuidar de suas obrigações, quando bateram no portão.
Dirce foi ver quem era e feliz, chamou Dona Nora, avisando que eram Berenice e Júlio, que estavam voltando de viagem.
- E você não mandou eles entrarem?
- Estão descarregando as malas. Vieram de táxi.
Dona Nora foi ao encontro do casal para m***r a saudade e ajudar a colocar as coisas prá dentro.
Depois de arrumarem tudo num canto, se sentaram para conversar.
Dona Neide:
- Vocês não avisaram que vinham.
A filha respondeu:
- Queríamos fazer surpresa. Viemos do aeroporto diretos para cá.
Júlio acrescentou:
- Viemos dar um abraço na senhora, a Berenice estava morrendo de saudades. Vou deixar ela aqui e vou na casa dos meus pais pegar meu carro que ficou lá. Assim, daqui vamos direto para nossa casa. Estamos um pouco cansados e hoje a visita vai ser rápida.
Dona Nora:
- Pelo menos, almocem aqui comigo. Ou vocês mandaram alguém fazer comida prá vocês?
Júlio respondeu:
- Não. Ninguém sabia que voltaríamos hoje. Mas se vocês não se importam, eu também estou com saudades dos meus pais.
Berenice:
- Júlio, então você vai lá agora, vê eles e se quiser almoça lá e depois vem me pegar com as malas aqui. Enquanto isso eu mato as saudades da minha mãe e dessa casa.
- Vocês não vão ficar zangadas?
- Claro que não.
Júlio chamou um carro de aplicativo e enquanto esperavam comentou com elas que a mãe devia estar sozinha em casa já que pela hora seu pai devia estar no hospital.
O carro chegou e ele partiu.
Elas entraram e começaram a conversar.
Berenice contou empolgada a sua viagem de lua de mel e perguntou pelos irmãos. Ficou sabendo, pela mãe, do namoro de Neide com Cláudio e de Jairo com Milena. Ficou contente pelos irmãos. Dona Nora falou da mudança de trabalho que Milena tinha conseguido, graças a Cláudio e Berenice comentou:
- Tomara que o namoro dele com a Neide dê certo. Além de ser um ótimo partido é uma pessoa muito boa. Ele e o Júlio são muito amigos e o Júlio está sempre comentando que apesar de ter o que tem, trata todo mundo com muita consideração
Enquanto isso, Júlio chega na casa dos pais. Com medo de assustar a mãe, resolve tocar a campainha.
Um empregado da casa vem atender. Quando a mãe escuta a voz do filho, chega na janela, prá se certificar e assim que o vê, corre ao seu encontro.
Após a troca de abraços e beijos saudosos, entram em casa para conversar.
Dona Mariana, mãe de Júlio, pergunta por Berenice e Júlio explica que deixou ela na casa de Dona Nora com as bagagens. Tinha ido direto do aeroporto para lá e vindo dar um beijo na mãe e pegar seu carro.
A mãe foi ligar para o marido, para avisar que ele estava em casa e voltou, falando.
- Seu pai está vindo prá cá e pediu prá você esperar ele chegar.
Continuaram conversando e alguns minutos depois escutam o barulho do carro entrando na garagem.
Dr. Renato entra na sala e abraça Júlio emocionado.
Depois de conversarem um pouco, o pai pergunta:
- Você não vai nem almoçar conosco.
Júlio pensa um pouco e responde:
- Vou almoçar com vocês sim. Vou ligar prá Berenice para avisar.
Depois de fazer a ligação, volta a sentar para continuar o papo.
Ficaram conversando bastante tempo e apareceu uma empregada para avisar que o almoço estava servido.
Durante a refeição, Júlio perguntou por Alzira e soube que estava tudo bem.
Após a refeição, Júlio avisou que estava indo, mas prometeu que no Sábado viria com Berenice cedo para passar o dia com eles, já que estariam todos em casa.
Após isso, pegou o seu carro e foi no encontro da esposa.
Quando chegou, combinou com Dona Nora que viriam passar o Domingo com a família, pois estavam saudosos de todos.
Colocaram a bagagem no carro e partiram.
Dona Nora, depois de um tempo foi para a cozinha lavar a louça do almoço, mas Dirce já tinha feito isso. Ela então foi perguntar a Dirce:
- Em que você se atrasou hoje?
- Em nada. Tudo está em ordem.
- Hoje você fez a minha parte, queria te ajudar em alguma coisa da tua.
- Está tudo pronto. O serviço daqui é pouco, apesar da casa ser muito grande. Já abri as janelas dos quartos para arejar. Daqui há pouco vou fechar e o serviço está terminado por hoje. Se a senhora quiser ainda dá tempo para ajudar a fazer o jantar.
- Não, sobrou muita comida e só vou aumentar um pouco os filés. Vamos nos sentar um pouco.
- Vou fechar as janelas.
Depois sentaram na sala e foram ver um filme, enquanto esperavam dar a hora de Dirce ir pra casa.
Depois que ela se foi, Dona Nora foi para a cozinha cuidar de aumentar o jantar.
Enquanto fazia isso, Neide chegou em casa. Dona Nora, comentou:
- Chegou mais cedo hoje. Aconteceu alguma coisa?
- Não, é que o Cláudio me trouxe. Foi mais rápido.
- E porque ele não entrou?
- Dia de semana é muito corrido pra gente. Amanhã todo mundo trabalha. Só foi né dar um beijo e me trazer. De vez em quando faz isso.
- Hoje a Berenice esteve aqui, veio direto do aeroporto pra cá e almoçou comigo.
Neide se alegrou e pediu notícias da irmã, ficou sabendo que estava tudo bem e que a irmã estava muito feliz e que vinham passar o Domingo com a família.
- Precisamos fazer alguma coisa no quintal para passar um dia bem alegre. Acho que vamos fazer churrasco.
Dona Nora brincou:
- Vocês já tem mania de churrasco, até parece que não gostam da minha comida.
- Não é isso, mãe. É que no churrasco, ninguém fica se matando no fogão e todos se revezam na churrasqueira. Todos se divertem e ninguém se cansa demais.
Neide foi tomar banho para esperar pelos outros
Cada um que chegava, era informado que Berenice estava de volta da viagem e no Domingo viria passar o dia com a família, trazendo o marido.
Quando todos estavam jantando já combinavam o churrasco de Domingo.
Enquanto isso, Dirce aguardava a chegada de Milena.
Assim que ela chegou contou seu encontro com Dona Sirlene, causando raiva na menina por ter aborrecido sua mãe.
Milena falou:
- No Sábado eu vou lá e resolvo isso.
- Eu vou com você.
- Não. Eu vou sozinha. Além de não ter necessidade de você se aborrecer o Seu Osvaldo vai estar em casa e perto dele, a atitude dela muda muito. E depois você trabalha lá perto e eu quero evitar que você cada vez que encontrar com ela na rua se aborreça. Pode deixar que eu resolvo isso.
O resto da semana correu sem novidades.
Quando o Sábado chegou, Milena tomou seu café e avisou a mãe que ia lá na casa da ex patroa.
A mãe tornou a insistir de ir junto, mas Milena disse que ia sozinha e saiu.
Quando chegou no prédio, foi barrada pelo porteiro, que muito sem graça, explicou que era ordem da dona do apartamento. Ela só poderia subir depois de autorização dela.
Milena esperou que ele falasse com ela e devidamente autorizada, subiu.
A mulher já estava aguardando na porta e perguntou:
- O que você veio fazer aqui.
- Bom dia. Vim pegar minhas coisas que deixei e acertar as contas com a senhora.
- Que contas?
- Os meus dias trabalhados, trabalhei vinte e dois dias esse mês.
- Você não tem nada a receber. Saiu daqui na segunda-feira dando até amanhã e não apareceu mais. Prá sair tinha que ter me avisado um mês antes, ou você nunca ouviu falar em aviso prévio?
- Dona Sirlene, eu não tinha carteira assinada e tudo entre a gente foi acertado sob palavra. Agradeço muito o tempo que trabalhei aqui, mas não ganhava nem o salário mínimo e não recebia horas extras, apesar de passar sempre do meu horário.
- Você é muito ingrata. Depois de anos trabalhando aqui, me deixou na mão de uma hora prá outra e ainda tem a petulância de achar que eu te devo alguma coisa. Pegue as suas coisas e se dê por satisfeita.
- Dona Sirlene, vamos resolver na paz. Eu recebi uma oferta de uma vaga dentro daquilo prá que eu estudei tanto tempo. Se eu esperasse um mês, perderia a oportunidade.
Nessa hora, seu Osvaldo entrou na sala e falou, um tanto alterado.
- Chega, Sirlene. Vai lá prá dentro que eu vou acertar com a Milena.
- Ela me deixou na mão de repente e
- Eu falei chega.
A mulher amarrou a cara, mas resolveu obedecer ao marido e foi para o quarto.
Seu Osvaldo pediu a Milena que se sentasse a mesa e pegou papel, caneta e calculadora antes de sentar perto dela.
- Me diz, Milena, quanto é o saldo aqui em casa?
- São trezentos e sessenta e sete reais.
- Não é possível, estamos no final do mês. Você pegou algum adiantamento.
- Não senhor.
- Quanto você ganha por mês?
- Eu ganhava quinhentos reais.
- Isso não é nem a metade do salário mínimo.
- Era quanto eu ganhava.
Espera um pouco que eu vou pegar o dinheiro, enquanto isso vai pegar as suas coisas.
Foi ao quarto e pegou a carteira que estava na mesinha de cabeceira e voltou a sala.
Logo depois, Milena entrou carregando uma sacola, com algumas roupas e calçados. Quis mostrar o conteúdo ao ex patrão, mas ele disse que confiava nela e não havia necessidade.
Falou então:
- Eu não estava sabendo do que estava se passando aqui. Sempre fiz questão de agir dentro da lei e não tinha idéia de que dentro da minha própria casa, uma trabalhadora estava sendo explorada. Te peço desculpas por isso.
- Não tem necessidade disso. Ainda agradeço o tempo que trabalhei aqui e pude ajudar um pouco a minha família. Quando a minha mãe ficou parada nós só contávamos com o meu e ajudou muito.
- Se você ganhasse o que tinha direito, ajudaria muito mais.
- Já passou, seu Osvaldo.
- Passou, mas ainda tem tempo de consertar isso.
- Como?
- Viu te dar hoje, mil reais em dinheiro e um cheque em branco assinado que você vai guardar com muito cuidado, se perder, qualquer pessoa recebe. Na Segunda-feira, vou pedir ao Departamento Pessoal da empresa que eu trabalho, que façam os cálculos de tudo que você deixou de receber esse tempo que trabalhou aqui, te ligo, você preenche e recebe.
- Seu Osvaldo, vai dar muito dinheiro!
- É um dinheiro que te pertence. Você trabalhou por ele. Faz de conta que estava tudo numa poupança e você vai retirar agora.
- Dona Sirlene não vai aceitar isso.
- Se ela tivesse agido certo com você, isso não estaria acontecendo. Por isso vou deixar o cheque com você, pra não ter que voltar aqui e se aborrecer. Eu confio na sua honestidade. Deixa o telefone comigo.
- Ela passou o número, recebeu o cheque e o dinheiro, com as mãos trêmulas e agradeceu.
- Você não tem que me agradecer e sim me desculpar. Fique certa que sempre deixei dinheiro suficiente para o seu pagamento. Depois ela vai ter que me explicar.
- Lamento ter trazido aborrecimento para o senhor.
- Te garanto que quem vai lamentar é ela. Agora pode ir e boa sorte lá no novo trabalho.
Depois que Milena saiu, Sirlene veio falar com ele
Ele cortou:
- Agora não. Estou de cabeça quente.
- Eu ouvi tudo. Você está querendo dar uma fortuna prá essa menina.
- Vai ser fortuna, porque você acumulou os direitos dela. Você chamou a menina de ingrata, mas a ingrata foi você que não pagou pelos serviços que ela te prestava. Explorou essa moça durante mais de três anos, sem necessidade porque eu sempre deixei dinheiro suficiente para o salário dela. Ainda se acha no direito de rotular a moça? Ingrata e petulante foi você. A partir de hoje você vai assumir o trabalho da casa. Não quero mais ninguém aqui pra ser explorada por você.
- Mas tem o trabalho pesado. Eu não aguento.
- Você só vai ter uma faxineira aos Sábados, que eu estou em casa.
- É pouco.
- É muito mais do que você merece. Eu te avisei que não queria conversar agora. Você cavou isso, agora aguenta.
E voltou para continuar o que estava fazendo antes da chegada da Milena.
A mulher ficou furiosa, mas resolveu ficar quieta prá não piorar a própria situação