Quando saiu do prédio, ainda estava nervosa com o que tinha se passado. Chegou a escutar parte da discussão do casal, porque o elevador tinha demorado, na certa parado em algum andar com alguém retirando compras, e o tom exaltado havia chegado até ela. Quando saiu de casa, não tinha previsto nada do que aconteceu. Saiu na intenção de receber seus dias, conforme havia calculado e tudo certo.
Apesar de saber que ia receber uma quantia grande, preferia ter resolvido tudo na paz. Estava chateada por causa disso
Resolveu dar uma passadinha na casa de Jairo que devia estar em casa.
Quando chegou no portão, ele estava com o pai adiantando a arrumação para o churrasco do dia seguinte.
Ele veio logo abrir o portão e perguntou:
- Conseguiu resolver lá?
- Resolver eu resolvi, mas não foi da maneira que eu esperava. Tô tremendo até agora.
- Entra, vamos conversar lá dentro.
Quando entrou, Dona Nora veio saber também como tinha sido.
Milena contou tudo o que tinha se passado e disse estar arrependida de ter ido até lá.
Dona Nora, tentando acalmar a moça:
- Você não tem que se arrepender, você foi atrás dos seus direitos. Se ela tivesse pago os seus dias, como você estava pedindo, nada disso tinha acontecido. O seu Osvaldo não teria se metido e ela estaria em paz agora. Foi dar uma de esperta, se ferrou.
Jairo, para descontrair o ambiente, começou a brincar:
- Agora, perdi a namorada. Vai ficar rica e não vai mais querer saber de mim.
Milena respondeu:
- Deixa de ser bobo.
Dona Nora:
- Deve dar um bom dinheiro. Espero que você tenha juízo na hora de usar.
- Só esses mil que ele me deu hoje, já vai fazer uma diferença enorme lá em casa. Por mim bastava, mas seu Osvaldo fez questão de me entregar o cheque.
- Quando você souber quanto é se aconselhe com a sua mãe, sobre o que fazer. Mas de início eu aconselho a guardar uma parte para uma emergência. Disse Dona Nora.
Jairo opinou:
- Esse que você recebeu hoje já é um dinheiro alto, que você não tem o costume de ter. Logo o mês acaba e você vai ter o acerto do hospital dos dias desse mês. Procura gastar o menos possível. Deixa com a tua mãe, que ela vai saber usar.
- Eu vou deixar a metade com ela e a outra metade vou comprar algumas coisas para mim e para a Mirella. Nós estamos precisando de roupas e calçados.
- Mas não precisam comprar tudo de uma vez, você vai continuar trabalhando e pode estipular um valor todo mês prá isso. Se aconselha com a Dirce. Tornou a falar Dona Nora.
Milena então falou:
- Eu passei aqui prá ver se você podia ir lá em casa comigo. Além do dinheiro, ainda tem esse cheque em branco. Estou com medo de pegar o ônibus.
Jairo falou:
- Espera um pouco que vou falar com meu pai. O que a gente tá fazendo é adiantando para amanhã. Não é nada urgente, pode esperar eu ir te levar e voltar.
Foi no quintal falar com o pai e voltou dizendo:
- Espera um pouco que vou trocar de roupa.
Enquanto Jairo se trocava, Seu Jair entrou e veio felicitar Milena, que ainda não estava muito contente com o rumo que a situação tinha tomado. E notando, falou:
- Bobagem, minha filha, não foi você quem provocou isso. Se aconteceu é porque tinha que acontecer. A Justiça foi feita.
- Eu sei. O próprio seu Osvaldo falou que era prá eu fazer de conta que tinha esse dinheiro em poupança e estava retirando agora. Que eu não estava recebendo nada que não me pertencesse.
- Então, não tem motivo nenhum prá você ficar chateada.
Nisso Jairo, já arrumado, chegou e:
- Vamos?
Ela se despediu, com um até amanhã, porque tinha sido convidada para o churrasco. E se foram em direção do ponto de ônibus.
Quando chegaram em casa, Dirce estava nervosa.
Depois de saber o que tinha se passado, comentou:
- Puxa, o que será que ela fazia com o dinheiro? O seu Osvaldo foi muito correto com você.
Jairo se despediu e foi pra casa, continuar a ajudar o pai.
Milena contou o dinheiro e deu a metade para a mãe.
- Para ajudar nas despesas.
Dona Nora disse:
- Não precisa tanto, guarda mais com você.
- Não preciso, já fiquei com quinhentos também e vou comprar umas roupas pra mim e pra Mirella.
E ainda vai sobrar. Logo vou estar recebendo do hospital também. Tenho as passagens pagas e almoço lá. Não preciso guardar tanto dinheiro comigo.
- Então tá. Você é que sabe.
E foram providenciar o almoço e a arrumação da casa.
Na parte da tarde, Milena saiu com Mirella para fazer compras.
Compraram algumas roupas e uma sandália nova para cada uma. Como sobrou dinheiro, resolveram escolher um vestido e uma sandália para levar para a mãe.
Por hábito, escolhiam peças que caiam bem, porém de baixo custo e quando acabaram as compras, Milena ainda tinha quase a metade do dinheiro que tinha levado, mas satisfeitas, retornaram para casa. No caminho, passaram na padaria e compraram um bonito pão doce e refrigerante para levar.
A mãe ficou muito feliz com os presentes. Experimentou e tanto o vestido quanto a sandália estavam no número certo.
Depois foi sentar com as filhas para lanchar.
Ficaram conversando e logo chegou a hora de dormir.
As meninas foram para o quarto que dividiam e Dirce depois de verificar se a casa estava toda fechada, foi dormir também.
O Domingo amanheceu com sol forte.
Quando Milena levantou, já encontrou a mãe na cozinha e Mirella tinha saído.
Perguntou pela irmã e a mãe respondeu:
- Mandei ela no açougue para comprar uns bifes para o almoço.
- Vocês não vão no churrasco na casa do Jairo?
- Não. Apesar da Dona Nora me tratar muito bem, eu praticamente não conheço o resto da família.
Quando eles chegam do trabalho, eu já saí. Ela até me disse prá ir, mas eu ficaria sem graça, afinal sou empregada lá.
- Besteira. Lá não existe esse tipo de preconceito. E seria bom pra Mirella se distrair. Ela sai da escola e corre prá casa, pra gente encontrar tudo pronto quando chega. Precisava ver como ela tava contente comigo na rua ontem, quando fomos fazer as compras.
- Leva ela, se quiser, eu não vou.
Quando Mirella chegou, Milena convidou, mas ela não quis ir.
- Prefiro ficar com a mamãe. Depois do almoço a gente vê um filme e uma faz companhia a outra, e depois você vai encontrar com o namorado, e eu não vou pra segurar vela.
- Voce que sabe. Então vou me arrumar prá ir. Assim ajudo a preparar alguma coisa.
E foi se arrumar.
Antes de sair, perguntou se precisavam de alguma coisa e diante da resposta negativa, saiu.
Quando chegou na casa de Jairo, Berenice já estava com o marido.
Jairo lhe deu um beijo e continuou com o pai e o cunhado no quintal colocando uma lona para fazer sombra e terminando de arrumar a churrasqueira.
Ela entrou prá ver se podia ajudar em alguma coisa, mas estava tudo bem adiantado.
Dona Nora perguntou por Dirce e Mirella.
- Não quiseram vir. Mamãe disse que não pegava bem.
Berenice:
- Que bobagem. Ela é de casa. Eu devo muito a ela. Quando eu estava em casa, antes de voltar a trabalhar, ela me tratou com muito carinho.
- Eu falei com ela, mas não consegui convencer.
- Fica prá próxima.
E foram para o quintal, ver se podiam ajudar em alguma coisa. Como lá também estava tudo pronto, resolveram acender a churrasqueira.
Logo depois, Cláudio chegou e já enturmado com todos logo tudo ficou muito divertido.
Passaram um dia muito bom e na hora de ir embora, Jairo falou que ia levá-la, mas Berenice falou que fazia questão de ir com Júlio porque queria dar um abraço na Dirce.
Assim, saíram os quatro, mas Berenice avisou aos pais que iam levar Milena e voltar prá lá.
Queria ficar um pouco mais com a família que no dia seguinte ia sair pra trabalhar.
Quando chegaram na casa de Dirce, todos entraram na casa pegando ela e Mirella de surpresa.
Berenice reclamou:
- Você não quis ir me ver, então eu vim ver você. Está deve ser a Mirella.
Dirce respondeu:
- Eu não fui porquê era uma reunião de família. A Milena é namorada do seu irmão, eu não. Fiquei sem graça porque da casa só conheço você, o Jairo que vem aqui às vezes e sua mãe. O restante da família eu nem conheço.
- Se não forem apresentados, não vai conhecer nunca. Já pensou que se o Jairo vier a se casar com a Milena, nós todos vamos ser da mesma família?
- É muito cedo pra pensar nisso.
Jairo respondeu:
- Nem tanto. Já estamos namorando há bastante tempo e eu tenho a intenção de me casar com ela.
Berenice brincou:
- Nossa, isso foi quase um noivado.
Começaram a rir. Berenice conversou mais um pouco e se despediu para voltar pra casa dos pais. Jairo voltou com eles.
Quando chegaram, Cláudio estava de saída. Tinha uma cirurgia no dia seguinte cedo e precisava descansar.
Como a noite já tinha chegado, resolveram encerrar com o churrasco, até porque todo mundo já estava satisfeito.
As mulheres foram arrumar o que tinha sobrado e os homens o quintal.
Depois de tudo pronto, sentaram e conversaram mais um pouco, mas sabendo que no dia seguinte o pai e os irmãos iam trabalhar, Berenice resolveu ir pra casa também.
Se despediram, prometendo repetir
a visita em breve.
Ainda tinham uma semana de férias e muita coisa a resolver antes de voltarem pro trabalho.
Depois que eles se foram, cada um foi se arrumar para deitar.
No dia seguinte começou tudo de novo.
Passou mais uns dias e na quinta- feira, Milena foi avisada que tinha uma ligação para ela. Se preocupou logo, imaginando que tinha acontecido alguma coisa com alguém. Nunca recebia ligações.
Foi atender:
- Alô.
- Milena, é o Osvaldo.
- Há, sim. Como vai.
- Está tudo bem. Estou ligando pra te passar o valor do cheque. São sessenta mil reais.
- Não pode ser, é muito dinheiro.
- Foram três anos e quatro meses de salários incompletos, horas extras não pagas, férias vencidas, fundo de garantia e INSS. O valor está correto. Preenche o cheque e receba o seu dinheiro.
- Não sei nem o que dizer.
- Não precisa dizer nada. Eu é que espero que com isso você consiga nós desculpar.
- Não tenho o que desculpar, pelo menos o senhor.
- Espero que você use bem esse dinheiro. E boa sorte.
E desligou.
Ela voltou a trabalhar procurando não pensar no que faria com aquele dinheiro. Precisava se concentrar no trabalho.
Mesmo com todo esforço na concentração, Cristina, sua amiga e chefe do setor, percebeu seu nervosismo. Apesar de não ter cometido nenhum erro, suas mãos estavam trêmulas.
Na hora do almoço, como costumavam almoçar juntas, Cristina indagou:
- Aquele telefonema que você recebeu, foi alguma notícia r**m?
- Não, porquê?
- Quando você voltou para a mesa, percebi que estava nervosa, que a custo conseguia se concentrar. Veja bem, não estou te chamando atenção, só fiquei preocupada. Você trabalha sempre com satisfação e hoje percebi que você estava diferente.
- Pelo contrário. A notícia foi muito boa.
E contou para a amiga tudo o que tinha acontecido no emprego anterior e como tinha se dado aquele desfecho. Ainda acrescentou:
- Eu, quando fui falar com ela, não fui procurando nada disso. Foi o marido dela que escutou e resolveu dessa forma.
- Você está reclamando?
- Não, mas fiquei chateada quando ouvi os dois discutindo por minha culpa.
- Sua culpa, não. Sua causa. Quem teve culpa foi sua ex patroa que não agiu direito com você. O marido dela está certo. É um homem decente, faz questão de seguir a lei. Faça como ele falou, faz de conta que esse dinheiro estava aplicado e agora você está resgatando. Quando chegar em casa, converse com sua mãe. Eu tenho certeza que juntas, vocês vão saber o que fazer. Só te dou um conselho, não pense em parar de trabalhar por causa dele. Dinheiro, por mais que seja, acaba.
- Não tenho intenção de parar. Gosto de trabalhar aqui. Foi prá um dia ter um emprego desse que estudei. Foi muita sorte conseguir e eu não vou jogar a sorte fora.
- Procura se acalmar e resolve o que fazer, quando chegar em casa, com a sua família. E parabéns. Você passou por muitos problemas, agora é hora de subir na vida.
- Obrigada pelos conselhos. Era o que eu tinha intenção de fazer.
Quando meu pai morreu, eu era pequena e minha irmã um bebê. A pensão que minha mãe recebe, apenas dá para manter as contas em dia e eu e minha mãe, trabalhamos para manter o sustento de nós três. Quando os ex patrões de minha mãe foram para o interior, só o meu dinheiro que nos sustentou por alguns meses, m*l e porcamente. A Dona Sirlene sabia o que estávamos passando e mesmo assim, continuou ficando com parte do dinheiro que o Seu Osvaldo deixava prá me pagar.
- E você ainda tem pena dela? Esquece isso e segue em frente.
- Está na hora de voltarmos, tem mais duas para almoçar ainda.
- Vamos.
E voltaram para o setor, para continuar o trabalho. Havia um revezamento na hora do almoço, saindo duas de cada vez. A recepção não podia ficar vazia.
Quando terminou o expediente, Milena, com pressa foi logo para o ponto de ônibus. Queria chegar em casa logo, para conversar com a mãe.
Assim que chegou, falou:
- Mãe, sabe aquele cheque que o Seu Osvaldo deixou comigo?
- Sei. Você que guardou. Por acaso perdeu ele?
- Não, mãe. O Seu Osvaldo me ligou hoje, e mandou eu preencher e receber.
- Que bom filha.
- Não vai querer saber o valor dele?
- Tenho certeza que você vai dizer, mas se faz questão, qual é o valor do cheque?
- Sessenta mil reais.
- Nossa Senhora, tudo isso?
- Eu também falei pra ele que devia estar errado, mas ele garantiu que estava certo, que tinha diferença de salário, horas extras, férias e direitos trabalhistas. Me mandou preencher o cheque e retirar o dinheiro.
- O que você pretende fazer com ele?
- Eu não estou precisando de nada. Não tenho gastos durante a semana. Tenho condução paga, almoço no trabalho. Minha despesa é só final de semana. Ainda sobrou dinheiro daqueles quinhentos que ficou comigo e amanhã vou receber os dias trabalhados no hospital. Depois disso passa a ser de quinze em quinze dias. Um adiantando no dia vinte e pagamento no princípio do mês. Não preciso mexer nele, pra mim. Quando receber amanhã, vou te dar o da despesa e o resto dá e sobra até o dia vinte. Você é que tem que me dizer o que está precisando aqui em casa.
- Aqui também está tudo em dia. Não tem nenhuma conta atrasada, a despensa está cheia e o resto tem o dinheiro que você me deu que eu ainda não mexi. Nem precisa me dar nada amanhã. Você já adiantou, quando me deu aquele dinheiro.
- Então não sei o que fazer.
- Você vai no banco e abre uma poupança com o cheque. Guarda esse dinheiro. Você está namorando, amanhã ou depois resolve se casar, vai precisar.
- Bobagem. O Jairo é muito bem empregado e eu também.
- Nem por isso vai jogar pela janela.
- Guarda, se um dia precisar, você vai ter de onde tirar.
- Tá, mas se precisar de alguma coisa prá casa, prá você ou prá Mirella, você fala comigo.
- Falando nisso, ela cismou de estudar a noite e trabalhar. Eu falei que não tinha necessidade disso, mas ela está insistindo. Quer ter o dinheiro dela também. Disse que um dia vai ser igual a você, trabalhar numa grande empresa e ser alguém.
- O estudo a noite é mais fraco que de dia.
- Porquê?
- Porque os alunos na maioria, são pessoas que chegam cansadas de um dia de trabalho. Eu preferia que ela continuasse só estudando.
- Conversa com ela, então. Quem sabe ela te escuta.
- Tive uma idéia: Vou propôr a ela trabalhar aqui em casa mesmo.
- Como assim?
- Ela está com dezesseis anos. Acho que já pode contribuir como autônoma por ser mulher. Quando chegamos, eu e você, encontramos tudo pronto. A casa está arrumada e a comida pronta. É justo que receba por isso. Como vai ser meio expediente, vou dar meio salário a ela. Vai ter o dinheiro dela sem prejudicar os estudos.
- Acho que ela não vai aceitar receber de você. Mas tenta.
- Vou conseguir, tenho certeza. É só fazer ela entender que é um direito dela e eu não vou estar fazendo nenhum favor ou sacrifício prá isso.
- Você é determinada. Vou deixar prá você resolver isso.
- Mãe, você tem certeza que não precisa mudar nada aqui dentro? Uma obra, mudar algum móvel?
- Tenho, sempre fomos cuidadosas com as nossas coisas e tudo está bem. A única coisa que poderíamos fazer, é pintar a casa. A pintura está um pouco gasta.
- Procura o pintor e vê quanto vai sair. Só vou ao banco semana que vem. Tenho que combinar com a Cristina, porque na hora do almoço não dá tempo e quando saio, já fechou. E escolhe tinta de qualidade.
- Tá bom. Depois que você falar com a Mirella, me diz como ela reagiu.
- Pode deixar, vou mostrar a ela o quanto ela é necessária aqui, prá nós duas trabalharmos. Se ela for trabalhar fora também, vamos passar o final de semana ralando dentro de casa, sem tempo de descansar.
- Falando desse jeito, você está convencendo até a mim.
- Vai dar certo. Aonde ela está?
- No quarto de vocês, estudando. Tem prova amanhã.
- Vou lá, e se der resolvo isso agora mesmo.
Foi para o quarto e encontrou Mirella debruçada no livro. Ficou com medo de atrapalhar. Mas a menina fechou o livro e falou:
- Nem vi você chegar. Tá em casa há muito tempo?
- Há mais ou menos uma hora. Estava conversando com a mamãe. E contou prá irmã o que tinha acontecido.
- Poxa! É muito dinheiro. Por isso eu quero trabalhar também.
- É sobre isso que eu quero conversar com você. Se você for trabalhar fora, eu e mamãe vamos perder o nosso descanso se final de semana, porque todo o serviço da casa vai ficar por fazer.
- Isso é verdade, mas também quero ter o meu dinheiro.
- Eu tenho uma proposta prá te fazer: Você continua fazendo o serviço de casa a tarde e estudando de manhã e eu vou passar a te pagar por isso.
- Não é justo. Vocês nunca deixaram faltar nada prá mim, nem quando você ganhava pouco e mamãe ficou parada.
- É justo sim, porquê se você não fizer o serviço da casa, nós duas vamos ser prejudicadas, tendo que fazer quando chegarmos e finais de semana.
- É, vai ficar pesado prá vocês.
- Então, como você vai trabalhar em meio expediente, te proponho meio salário e você continua a estudar.
- Mas assim, você vai ficar no prejuízo e eu não quero isso.
- Mirella, eu ganhava menos de meio salário, prá trabalhar o dia inteiro. Agora eu ganho mais de dois. Eu não tenho despesa durante a semana porquê almoço no serviço e tenho o cartão de passagens. Além disso uso uniforme o que economiza nas roupas. Mesmo dando dinheiro a mamãe e pagando pelo seu serviço ainda vai dar pra guardar. Quando eu saio final de semana, quem paga a despesa é o Jairo que ganha muito bem e esse dinheiro que eu vou colocar na poupança vai crescer, até porque vou depositar o que sobrar todos os meses. Se houver alguma emergência, vamos ter de onde tirar.
- Se é assim, eu topo.
- Ótimo, amanhã mesmo vou te dar a primeira quinzena.
- Mas, estamos combinando agora.
- Mas você já trabalhou, deixou a casa em dia esse tempo todo. É justo.
- Tá bom.
Milena foi avisar a mãe que tinham se acertado.
A mãe respondeu:
- Eu tinha certeza que você ia conseguir, porque até a mim você convenceu que nós precisamos tanto dela em casa, como ela de ter o próprio dinheiro.
- É o certo. Se ela for trabalhar em outra casa, nós vamos ter que sacrificar nosso descanso de final de semana, assim, todas nós saímos ganhando. Precisava ver a cara dela quando eu falei que já vou dar dinheiro a ela amanhã.
- Imagino que ela ficou muito feliz.
- Eu diria radiante. Segunda-feira vou procurar saber a respeito da autonomia. Ela é menor e eu tenho que me informar.
Deram o assunto por encerrado e chamaram Mirella para jantar.
Depois da janta, ela foi lavar a louça e a mãe reclamou:
- A louça do jantar é minha.
- Não é mais. Eu agora estou recebendo prá fazer.
- Nada é prá mudar. Você vai continuar a manter a casa em dia e o resto, vamos dividir como sempre. Lá na casa da Dona Nora, só entro na cozinha para comer e lavar o chão. O resto quem faz é ela. Aqui você ainda têm que cozinhar e deixar tudo sempre limpo, mas a louça do jantar e a comida de final de semana vai continuar sendo responsabilidade minha.
Milena explicou:
- Você também têm direito a folga e horário de trabalho. Seu serviço termina quando nós chegamos.
Mirella respondeu:
- Assim, vai ser mole.
- É como eu te expliquei, tido mundo sai ganhando. Disse Milena.
E foram se aprontar para o descanso.
No dia seguinte, estava trabalhando quando um rapaz do DP, colocou um envelope sobre sua mesa e mandou que ela assinasse o recibo. Quando viu o valor, disse:
- Está errado. O salário combinado foi menor do que está escrito aqui.
O rapaz sorrindo, respondeu:
- Está certo. O valor combinado é prá quem está aprendendo o serviço e isso você fez no primeiro dia. Esse novo é o que pagamos prá pessoas com experiência e você tem. Te igualamos ao salário do setor.
- Então, obrigada.
Assinou e entregou aí rapaz, que continuou a entregar os envelopes e colher assinaturas.
Na hora do almoço, comentou com Cristina:
- Tive uma surpresa hoje na hora que recebi. Veio mais do que eu estava esperando.
- Nós, chefes de setores, temos reuniões para falar sobre o desempenho de cada um. Quando me perguntaram como você estava se saindo, eu falei que você aprendeu toda a rotina na primeira manhã de serviço.
- Muito obrigada.
- Eu não menti.
- Obrigada mesmo assim. Tem um ditado que diz que dinheiro chama dinheiro. É verdade. De repente tudo começou a dar certo.
- É sinal que você merece.
E começaram a comer.
Quando terminou o expediente, correu pra casa e assim que entrou, anunciou:
- Com menos de dez dias de trabalho, já tive aumento.
A mãe, perguntou:
- Como?
- O salário que estava combinado, era o de aprendiz do setor, como peguei tudo rápido, já igualaram ao das outras que têm mais tempo de casa.
Chamou Mirella no quarto e deu a ela trezentos reais, mas avisou, dia vinte vou te dar os outros duzentos.
Mirella nem discutiu. Era o primeiro salário que recebia na sua vida.
Milena voltou para a cozinha e deu a mesma quantia a mãe, que não queria aceitar, lembrando que já tinha recebido quinhentos a poucos dias. Mas a filha insistiu e ela rindo, disse:
- Desse jeito quem vai acabar abrindo poupança sou eu.
- Muito merecido.
No dia seguinte, Sábado, Milena acordou cedo, catou a roupa suja e colocou na máquina.
A seguir, pôs água para o café e foi na padaria comprar o pão.
Voltou e água já estava fervendo, passou o café e logo a mãe e a irmã se juntaram a ela.
Perguntou se precisavam dela prá alguma coisa e depois de ouvir que não, avisou que tinha combinado uma praia com Jairo e Janice.
Chamou a irmã, mas diante da resposta negativa, foi se arrumar para sair.
Quando estava de saída, se lembrou da roupa. Sua mãe já havia colocado para secar.
Foi encontrar com o namorado e a futura cunhada que estava acompanhada de um belo rapaz, que apresentou como seu namorado.
O rapaz era tão calado quanto Janice. Sérgio era o seu nome. Era extremamente tímido, mas passaram um dia muito agradável e a tarde, cada um voltou pra sua casa.
Ela chegou, tomou banho e partiu para a cozinha, onde sua mãe estava já preparando o lanche da noite. Tinham adotado o mesmo sistema da casa de Dona Nora. Perguntou:
- O que sobrou prá mim?
- De almoço? Perguntou a mãe.
Milena respondeu:
- Não, de tarefa.
- Nada, está tudo pronto.
Foram lanchar e ficaram bastante tempo conversando.
Quando ficou tarde, foram dormir.
No dia seguinte, levantou cedo também.
Ao procurar a roupa para passar, não encontrou. Perguntou para a irmã:
- Você sabe aonde está a roupa que lavei ontem?
- Dentro dos armários.
- Quem passou?
- Fui eu.
- Quem passa a roupa sou eu. Você não precisava ter feito isso.
- Você falou: Final de semana, serviço dividido. Você catou e botou pra lavar, a mãe estendeu e depois recolheu e eu passei e guardei.
- Mas passar e guardar é muito mais pesado do que catar e botar numa máquina que trabalha sozinha. Não quero que você se sacrifique no final de semana.
- Pela roupa que vocês usam, foi muito rápido. Não custou nada fazer. Levei menos tempo, do que a mamãe prá fazer a comida.
E Milena teve que aceitar. A irmã estava disposta a lhe dar o descanso merecido.
De tarde, Jairo veio lhe buscar para um sorvete e bateu o pé que Mirella tinha que ir junto. Como ela se negou, ele foi na padaria e comprou potes de sorvetes, coberturas e refrigerantes e levou para a casa da namorada e todos se divertiram juntos.
No dia seguinte, Milena almoçou rápido e foi no DP se informar a respeito da autonomia. Depois de receber as instruções voltou ao seu trabalho. Quando saiu, passou em uma papelaria e comprou o carnê para começar a fazer os pagamentos.
No outro dia, conversou com Cristina. Explicou que precisava ir ao banco.
Cristina deu licença dela sair mais cedo para resolver isso.
Ela saiu logo depois do almoço, abriu a conta de poupança e depositou o cheque que Seu Osvaldo tinha lhe dado.
Abriu no mesmo banco e agência do ex patrão, assim pode fazer uma retirada de três mil reais para a pintura da casa.
Sua mãe não tinha lhe falado o valor, mas ela tinha certeza que seria suficiente e se não bastasse faria novo saque.
Deixou o dinheiro com a mãe que prometeu procurar um pintor para realizar o trabalho.