## 📖 Capítulo 7: O Gosto do Veneno
### ♟️ POV: Ares
A luz que entrava pelas paredes de vidro da cobertura parecia forte demais, irritante demais. Eu girava o copo de uísque de cristal na mão, observando o gelo derreter lentamente. No andar de baixo, a cidade de Nova York funcionava sob as minhas ordens, mas ali dentro, naquele maldito silêncio, eu sentia que estava perdendo o controle do meu próprio tabuleiro.
O que eu fiz no quarto com Elena horas atrás não tinha sido um ato de poder. Foi um ato de desespero mascarado de crueldade.
Eu a machuquei com palavras porque a p***a da noite anterior tinha me assustado. O cheiro daquela garota simples, a forma como ela chorava meu nome enquanto minhas mãos a prendiam contra o colchão... aquilo tinha grudado na minha mente de um jeito doentio. Eu era Ares Vanderbilt. Eu mandava homens para o fundo do rio sem piscar. Eu usava mulheres como se fossem copos descartáveis. Mas, quando olhei para as marcas dos meus dedos na pele alva dela, a primeira coisa que senti não foi satisfação. Foi uma necessidade violenta de protegê-la do mundo. De protegê-la de *mim*.
E isso era inaceitável. No submundo, qualquer coisa que você não consiga descartar vira uma corda no seu próprio pescoço.
A porta do meu escritório se abriu sem bater. Viktor entrou, sua expressão séria cortando meus pensamentos.
— Chefe. Os relatórios de carregamento do porto de Newark. Os russos estão atrasando a liberação das armas. Acho que eles estão testando a nossa paciência desde o sumiço do informante.
— Eles querem guerra, Viktor? Porque eu posso dar uma — respondi, minha voz recuperando a frieza cortante habitual. Bati o copo na mesa. — Se eles não liberarem os contêineres até meia-noite, queime o galpão deles. Com todos dentro.
— Entendido — Viktor hesitou por um segundo, olhando de relance para o corredor que dava para os quartos. — E a garota? Ela não comeu nada desde ontem. A governanta disse que ela se trancou e não abre a porta.
Um nó de raiva e frustração se apertou no meu peito.
— Deixe que sinta fome. Quando a arrogância dela acabar, ela come — menti, o sarcasmo voltando para a minha voz apenas para afastar o escrutínio do meu braço direito. — Ela é só uma prisioneira, Viktor. Não uma hóspede de honra.
Ele assentiu e saiu. Assim que a porta se fechou, soltei o ar que nem percebi que prendia. Levantei-me, os sapatos de grife batendo firmes contra o mármore escuro enquanto eu caminhava até o corredor. Parei em frente à porta do quarto dela.
Eu conseguia ouvir o choro baixo e abafado do outro lado. Um som frágil que, em vez de me irritar, fez meu estômago revirar. Elena Vance estava se tornando a minha doce ruína a cada segundo que passava trancada naquela gaiola de ouro, e eu precisava urgentemente me lembrar de quem mandava no jogo. Se eu não conseguia tirá-la da minha mente por bem, eu a esmagaria até que restasse apenas a submissão.
### 🕊️ POV: Elena
O silêncio daquela cobertura de luxo era mais aterrorizante do que qualquer grito.
Eu estava encolhida no canto do closet, o único lugar onde o sol não me alcançava, abraçada aos meus próprios joelhos. O vestido que Ares tinha jogado em cima de mim continuava intacto na cama. Em vez dele, eu vestia uma camisa velha que encontrei em uma das gavetas — qualquer coisa que não tivesse o dedo dele.
Minha mandíbula ainda doía onde os dedos frios e fortes dele tinham me apertado. Mas a dor física não era nada comparada à humilhação que queimava no meu peito.
Ele tinha me usado. Tinha me possuído com uma selvageria que me deixou sem ar, arrancando do meu corpo reações vergonhosas que eu odiava ter sentido. E, na manhã seguinte, ele simplesmente me descartou com um sorriso sarcástico, me lembrando de que eu era apenas uma posse, uma moeda de troca por ter visto o que não devia. *"O que aconteceu ontem à noite foi apenas eu cobrando o aluguel"*. As palavras dele se repetiam na minha cabeça como lâminas.
Ele disse que traria outras mulheres. Que eu teria que aceitar.
Uma queimação ácida subiu pela minha garganta ao pensar nele tocando outra pessoa do mesmo jeito que me tocou. Eu tentei me convencer de que era apenas o medo doentio daquele lugar, mas a verdade era muito pior: eu estava com ciúmes. Ciúmes do monstro que me mantinha em cárcere. Como eu podia ser tão fraca?
Olhei para as minhas mãos trêmulas. Eu precisava descobrir uma saída. Se eu ficasse ali, se eu me entregasse àquela rotina de medo e prazer distorcido, eu ia acabar me perdendo por completo. Ares Vanderbilt não tinha coração. Ele era um Deus grego feito de gelo e negócios escuros.
Levantei-me devagar, minhas pernas ainda vacilantes, e caminhei até a janela imensa da cobertura. Nova York parecia minúscula lá embaixo. Eu estava no topo do mundo, mas me sentia enterrada viva.
De repente, ouvi o clique da fechadura. Meu coração deu um salto violento e eu recuei, esperando ver a figura imponente e loira de Ares cruzar a porta para me atormentar novamente. Mas não era ele. Era a governanta idosa, trazendo uma bandeja com comida, os olhos baixos e cheios de pena.
— Ele saiu, menina — a senhora sussurrou, deixando a bandeja na mesa de cabeceira. — Foi para o porto. Há problemas nos negócios da família.
Ares tinha saído. O monstro não estava em casa.
Olhei para a bandeja e depois para a porta aberta do quarto. O medo ainda estava ali, cravado na minha espinha, mas a fagulha de sobrevivência falou mais alto. Eu tinha que aproveitar qualquer deslize daquele homem. Se os negócios dele eram tão obscuros e perigosos, talvez o caos do mundo dele fosse a minha única chance de liberdade.