capítulo 1

835 Words
Capítulo 1: O Lugar Errado, na Hora Errada Elena O cheiro de produto de limpeza barato e café requentado era o meu oxigênio diário. Trabalhar no arquivo morto da Vanderbilt Enterprises não era o emprego dos sonhos de ninguém, mas pagava o aluguel do meu apartamento de trinta metros quadrados e comprava os remédios da minha mãe. Para uma garota simples que cresceu aprendendo a ser invisível, aquele subsolo cinzento e silencioso era o meu porto seguro. Pelo menos, era o que eu achava. Passava das nove da noite. O prédio já deveria estar vazio, exceto pela equipe de segurança do saguão. Eu estava terminando de catalogar uma caixa de auditoria antiga quando percebi que havia esquecido a minha bolsa na sala de triagem do quadragésimo andar, a cobertura, o andar da diretoria executiva. O andar de Ares Vanderbilt. Eu nunca tinha visto o herdeiro do império de perto, apenas em colunas de fofoca e jornais de economia. Loiro, com a imponência de um deus grego esculpido em mármore e a reputação de um predador implacável. Casos rápidos com modelos, escândalos em boates de luxo e uma frieza corporativa que assustava até os diretores mais velhos. Ele era o tipo de homem que destruía vidas com um estalar de dedos e um sorriso sarcástico no rosto. O elevador subiu em um silêncio quase ensurdecedor. Quando as portas se abriram no quadragésimo andar, o carpete grosso engoliu o som dos meus sapatos desgastados. A iluminação estava baixa, deixando o corredor imenso mergulhado em sombras elegantes. A sala de triagem ficava logo antes da antessala da presidência. Entrei e peguei minha bolsa na cadeira, soltando um suspiro de alívio. Mas, antes que eu pudesse dar meia-volta, um som abafado cortou o silêncio do andar. Um baque pesado. Seguido por um gemido de dor sufocado. O medo deu um nó instantâneo no meu estômago. Minha mente gritou para que eu corresse para o elevador, mas meus pés pareceram criar raízes no chão. A porta dupla de madeira maciça do escritório de Ares estava entreaberta, deixando escapar uma fresta de luz dourada. Aproximei-me como se estivesse sendo puxada por um ímã invisível, prendendo a respiração. Olhei pela fresta. O cenário lá dentro fez meu sangue congelar. Ares Vanderbilt estava de pé atrás de sua imensa mesa de mogno. O paletó sob medida estava jogado no sofá. As mangas da camisa social branca estavam dobradas até os cotovelos, e os cabelos loiros, perfeitamente alinhados nas fotos, estavam levemente bagunçados. Ele exalava uma aura de poder tão esmagadora que o ar parecia rarefeito. Mas o horror estava no chão. Um homem de terno, com o rosto ensanguentado, estava de joelhos, implorando. Carter: Por favor, Sr. Vanderbilt... Eu não sabia que a carga pertencia a você... Foi um erro dos intermediários... O homem soluçava, com o terror transbordando na voz. Ares deu a volta na mesa devagar. Seus movimentos eram calculados, quase elegantes, como os de um leopardo prestes a quebrar o pescoço da presa. Ele segurava um copo de uísque em uma das mãos. Seu rosto não demonstrava raiva. Demonstrava um tédio c***l. Um sarcasmo gelado marcava suas feições perfeitas. Ares: Um erro? A voz de Ares era um barítono aveludado, fria como uma noite de inverno. Ele tomou um gole do uísque. Ares: Você roubou duas caixas do meu carregamento no porto, tentou vendê-las para os russos e chama isso de "erro dos intermediários"? Você é burro ou só tem desejo de morrer, Carter? Carter: Eu pago! Eu devolvo o dobro! O homem implorou, agarrando-se à calça social de Ares. A reação do herdeiro foi brutal. Em um movimento rápido, Ares chutou o rosto do homem com a ponta do sapato de couro. O som do nariz se partindo ecoou pela sala. O homem desabou de lado, gemendo de dor. Ares olhou para o sangue no próprio sapato e suspirou, enojado. Ares: Você sujou meu sapato. Que falta de modos. A voz dele era desprovida de qualquer empatia humana. Ares olhou para o guarda-costas imenso que estava parado no canto da sala. Ares: Limpe o escritório. E garanta que o Sr. Carter vire comida de peixe antes do amanhecer. Os negócios escuros não toleram ratos. Negócios escuros. Meu coração martelava tão forte contra as costelas que achei que eles fossem ouvir. Minhas mãos começaram a tremer violentamente. Dei um passo para trás, em pânico, mas meu calcanhar bateu contra um vaso decorativo de metal no corredor. O som metálico ecoou pelo andar vazio como um tiro. Lá dentro, o silêncio foi imediato. Ares: Quem está aí? A voz de Ares chicoteou o ar. O pânico absoluto assumiu o controle do meu corpo. Corri. Não olhei para trás. Corri em direção às escadas de incêndio, empurrei a pesada porta de ferro e desci os degraus em um ritmo frenético, enquanto lágrimas de puro terror nublavam minha visão. Eu tinha visto um assassinato ser ordenado. Eu tinha visto o verdadeiro monstro por trás do bilionário loiro. Eu só precisava sair dali viva.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD