capítulo 2

683 Words
Capítulo 2: A Caça do Leopardo O ar frio da rua bateu no meu rosto como um tapa quando eu interrompi pela porta lateral do prédio. Eu não parei. Não olhei para trás. Corri duas quadras com a bolsa batendo na lateral da perna e o coração tentando sair pela boca, até que as luzes da avenida e o barulho dos carros me engoliram. Só então eu me permiti chorar. Entrei no primeiro ônibus que passou, sem nem ver o número. Minhas mãos tremiam tanto que eu errei a senha do cartão três vezes. Eles não me viram. Eles não me viram. Eu repetia isso como uma oração. Meu apartamento nunca pareceu tão pequeno e tão seguro. Tranquei a porta, a janela, empurrei a cômoda velha para frente da porta. Minha mãe dormia no quarto, com a respiração pesada por causa da medicação. Olhei para ela e o terror dobrou. Se aquele homem descobrisse quem eu era, não era só eu que acabava. Tomei banho com a roupa ainda no corpo. Esfreguei a pele até ficar vermelha, tentando tirar o cheiro imaginário de sangue e de uísque caro. Às 3:47 da manhã, meu celular vibrou em cima da pia. Número privado. Abri com o dedo escorregadio. Era uma foto. A foto da minha mesa no arquivo morto. Tirada agora. De madrugada. Minha caneca de café ainda estava lá, com o batom borrado na borda. Embaixo da foto, uma frase: Andar 40. 8h. Não se atrase, ratinha. - A.V. O sangue sumiu do meu rosto. Ele não precisou correr atrás de mim no arquivo. Ele nem precisou me caçar. Ele só precisou me deixar correr para me mostrar que eu não tinha para onde ir. --- 8h em ponto. Quadragésimo andar. Eu não tinha dormido. Coloquei a roupa mais discreta que eu tinha, prendi o cabelo loiro com força. Cada passo no carpete grosso daquele corredor parecia um grito. A porta dupla de mogno estava aberta. Como um convite. Ares Vanderbilt estava de costas para mim, olhando para a cidade lá embaixo através da parede de vidro. O paletó que estava jogado no sofá ontem agora estava impecavelmente vestido. Nenhum vestígio do que aconteceu. Nem uma gota de sangue no sapato. Ele não se virou. Ares: Você corre rápido para alguém de sapatinho barato, Elena Vance. Minha garganta secou. Ele sabia meu nome. Meu sobrenome. Como? Ares: Sabe qual foi o seu erro ontem? — Ele finalmente se virou. Os olhos claros dele me escanearam dos pés à cabeça, sem pressa, com aquele tédio c***l do dia anterior — Não foi ter esquecido a bolsa. Foi ter achado que era invisível. Ninguém é invisível no meu prédio. Ele caminhou até a mesa dele e pegou uma caixa pequena, preta, com laço. Jogou na minha direção. Eu segurei por reflexo. Ares: Abre. Dentro, um par de sapatos. Scarpins pretos, de salto médio, caros. O couro brilhava. Era o meu número exato. Meu estômago revirou. Ares: Os seus faziam muito barulho no corredor. Não pude deixar de notar. Considere um presente de boas-vindas à sua nova função. Eu não consegui falar. Ares se aproximou. Não me tocou. Ele parou a um palmo de mim, e eu senti o cheiro dele. Limpo, caro, perigoso. Ele se inclinou, como se fosse me contar um segredo. Ares: Você tem duas opções. Opção um: você pede demissão agora, volta para o seu apartamento de 30 metros quadrados e reza para eu esquecer que o seu rostinho loiro estava na minha porta ontem. Mas aí eu terei que garantir que você esqueça o que viu. E eu tenho métodos muito eficazes para fazer as pessoas esquecerem. Ele sorriu. Um sorriso que não chegou aos olhos. Ares: Opção dois: você passa a trabalhar aqui em cima. Como minha assistente pessoal do arquivo. Longe da sua mãe, longe dos seus amiguinhos do subsolo. Bem aqui, onde eu possa te ver. Onde Deus não tem poder nenhum, boneca. Eu tenho. Ele não me segurou pelo queixo. Ele não precisou. Ele só precisou me prender com uma escolha onde as duas opções eram uma prisão.
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