capítulo 16

1197 Words
## 📖 Capítulo 16: O Peso do Abrigo ### 🕊️ POV: Elena O cheiro de ferro e a respiração pesada de Ares eram a única coisa real naquele quarto. Minhas mãos continuavam cravadas no tecido fino da camisa dele, apertando o tecido molhado de sangue até que meus nós dos dedos ficassem brancos. Eu sabia que aquele sangue não era dele — era do homem que estava caído a poucos metros de nós —, mas eu não conseguia soltar. O pavor de ter as mãos daquele invasor no meu pescoço ainda fazia o ar faltar nos meus pulmões. Ares me ergueu do chão como se eu não pesasse nada. Minhas pernas envolveram a cintura dele por puro instinto de sobrevivência, e ele me carregou para fora daquele quarto ensanguentado sem dizer uma palavra. Ele me levou para o banheiro suíte principal. O espaço de mármore branco e iluminação quente parecia um santuário distante do m******e que acabou de acontecer. Ares me colocou sobre a bancada alta de mármore, e a primeira coisa que fiz foi cobrir a garganta com as duas mãos, tossindo e tentando engolir em seco. — Respire, Elena. Olhe para mim — a voz dele não era o rosnado selvagem de minutos atrás. Era uma ordem baixa, firme, mas carregada de uma atenção crua. Ergui os olhos. O semblante de Ares era uma máscara de raiva contida. Havia respingos vermelhos na bochecha e no pescoço dele, contrastando violentamente com o cabelo loiro e os olhos cinzentos que queimavam sobre mim. Ele abriu a torneira, molhou uma toalha de rosto macia e se aproximou. Quando a mão dele subiu na minha direção, eu recuei um milímetro, involuntariamente. Ares travou no lugar. Vi um brilho de algo sombrio e doloroso passar pelos olhos prateados dele antes que a frieza voltasse a cobrir sua expressão. — Eu não vou te machucar — ele disse, a voz rouca. — Fique parada. Com uma delicadeza que eu jamais julguei possível vinda daquele homem, ele começou a limpar o meu rosto. A toalha úmida passou pela minha testa, bochechas e queixo, tirando o suor e a poeira. Em seguida, a mão dele desceu para o meu pescoço. O toque morno dos seus dedos onde o invasor havia me sufocado fez meu corpo estremecer de dor. Ares soltou um praguejo baixo em tom perigoso quando viu as marcas avermelhadas que já começavam a roxear na minha pele clara. — Ele devia ter morrido mais devagar — Ares murmurou, a mandíbula travada de tal forma que os músculos do seu rosto sobressaíam. — Ele... ele sabia o meu nome — minha voz saiu como um sussurro rasgado, a garganta queimando a cada palavra. — Como ele entrou aqui, Ares? Você disse que eu estava segura. Ares parou a toalha. Ele segurou o meu queixo com o polegar e o indicador, forçando-me a encará-lo de frente. A proximidade era tão íntima que eu conseguia sentir o calor do peito dele contra meus joelhos. — Houve uma falha no sistema de segurança. Um traidor dentro da equipe de monitoramento — ele disse, a verdade dura e sem rodeios. — Mas isso não vai acontecer de novo. Amanhã mesmo, o homem responsável por deixar aquele desgraçado subir estará no fundo do Hudson. Um arrepio percorreu minha espinha com a frieza casual com que ele decretava a morte de alguém. Mas, desta vez, não houve o impulso de julgá-lo. Eu tinha visto o abismo da morte de perto; se Ares não estivesse aqui, eu seria um cadáver no chão daquele quarto. — Por que você voltou? — perguntei, meus olhos azuis presos nos dele. — Você poderia ter ficado na refinaria. Poderia ter me deixado aqui. Ares soltou uma risada curta, sem ponta de humor. Ele deu um passo para mais perto, inclinando o corpo sobre o meu até que sua testa quase tocasse a minha. — Deixar você? — ele sussurrou, e o tom da sua voz fez meu coração falhar uma batida. — Você ainda não entendeu, Elena? A refinaria virou cinzas porque ameaçaram você. Eu voltei porque a p***a da minha mente não funciona se eu não souber que você está sob o meu teto. — Eu sou sua prisioneira... — tentei lembrar a mim mesma, e a ele, da realidade distorcida que vivíamos. — Você é a minha única prioridade — ele corrigiu imediatamente, a voz soando como um juramento soturno. — E isso é muito mais perigoso do que ser uma simples prisioneira. ### ♟️ POV: Ares Elena dormiu apenas quando o sol começou a despontar no horizonte, exausta pelo choque e pela dor no pescoço. Eu a mudei de quarto, levando-a para a minha própria suíte — o único lugar desta cobertura onde ninguém colocaria os pés sem passar por cima do meu cadáver. Acomodei seu corpo pequeno entre meus lençóis de seda escuros. Ela parecia tão frágil, uma boneca de porcelana coberta de marcas de violência, que o ódio no meu peito ameaçava explodir as paredes do meu próprio crânio. Viktor entrou na sala de estar duas horas depois, com a cabeça baixa e os punhos fechados. Ele sabia o quanto tinha chegado perto de morrer naquela noite pela falha na segurança. — O corpo foi removido, chefe — Viktor relatou, a voz tensa. — O homem era um mercenário contratado pelo braço remanescente da máfia russa. O técnico de TI que vendeu os códigos de acesso da cobertura já foi localizado. Ele está no subsolo do galpão. — Deixe-o lá — ordenei, sem tirar os olhos do copo de uísque que eu segurava, em pé junto à parede de vidro. — Eu mesmo vou cuidar dele mais tarde. — E a segurança da garota? — A partir de hoje, ninguém entra ou sai deste andar sem a minha autorização expressa. Reforce o perímetro externo. Se um único russo respirar num raio de três quarteirões daqui, mande matar. Viktor assentiu e se retirou em silêncio. Girei o líquido amber no copo e dei um gole longo, sentindo a queimação na garganta. Olhei na direção da porta do meu quarto. Eu tinha passado a vida inteira construindo um império baseado na ausência de fraquezas. Sentimentos eram pontos cegos; empatia era uma sentença de morte no meu mundo. Mas, quando vi a mão daquele desgraçado no pescoço de Elena, a única coisa que me impediu de enlouquecer completamente foi a necessidade de mantê-la viva. Ela me chamou. Quando o pavor a consumiu, a mente dela buscou o meu nome. Caminhei devagar de volta para o quarto. Ajeitei os passos para não fazer barulho e me sentei na borda da cama. Elena se mexeu no sono, soltando um murmúrio baixinho, e se virou na minha direção, buscando inconscientemente o calor do meu corpo no colchão. Estendi a mão e afastei uma mecha do seu cabelo loiro do rosto. Eu era o monstro que a prendeu, mas agora eu era o único escudo entre ela e o inferno lá fora. E o pior de tudo era saber que, no fundo daquela mente assustada, Elena Vance estava começando a perceber que o único lugar seguro para ela... era nos braços do seu captor.
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