O chamado da alcateia

1149 Words
Elara O toque entre os dedos deles durou apenas um segundo. Mas foi o suficiente para mudar tudo. Elara sentiu como se uma onda silenciosa atravessasse seu corpo. Não era dor. Não era medo. Era algo profundo, antigo, como se cada parte dela reconhecesse algo que sempre esteve faltando. Ela puxou a mão de volta lentamente, surpresa com a própria reação. Seu coração batia rápido. Aiden não se moveu. Ele apenas a observava. Não como Kael costumava olhar — avaliando, julgando, esperando que ela fosse menos do que era. O olhar de Aiden era diferente. Ele a via. Completamente. — Você sentiu — disse ele, a voz baixa. Elara respirou fundo. — Sim… Ela passou a mão pelos cabelos, tentando organizar os próprios pensamentos. — Isso… isso não deveria acontecer. Aiden inclinou levemente a cabeça. — Por quê? Ela riu sem humor. — Porque eu fui rejeitada ontem. O silêncio que se seguiu foi pesado. Aiden virou o rosto por um instante, olhando pela janela aberta. O sol da manhã já iluminava parte da floresta ao redor da fortaleza da alcateia. Mas quando ele voltou a olhar para ela, algo em seus olhos estava diferente. Mais escuro. Mais perigoso. — Rejeição não apaga destino — disse ele. Elara não respondeu. Porque uma parte dela queria acreditar. E outra parte tinha medo de esperança. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um som ecoou do lado de fora. Um uivo. Longo. Forte. Elara se assustou. — O que foi isso? Aiden já estava de pé. Ele parecia atento, como se estivesse ouvindo algo que ela não conseguia compreender totalmente. Outro uivo respondeu. Depois outro. E outro. A floresta inteira parecia viva. — Eles sentiram — disse ele. — Sentiram o quê? Ele olhou para ela novamente. — O vínculo. O estômago de Elara revirou. — O quê?! — Quando um vínculo verdadeiro desperta, a alcateia sente. Ela arregalou os olhos. — Você quer dizer que… todos sabem? — Ainda não sabem exatamente o que é — respondeu ele calmamente. — Mas sabem que algo mudou. Elara passou as mãos pelo rosto. — Ótimo… perfeito… — murmurou. — m*l chego e já estou causando caos. Aiden quase sorriu. Quase. — Você não causou nada. Ele caminhou até a porta do quarto. — Você apenas chegou. Antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa, alguém bateu do lado de fora. Três batidas firmes. Aiden abriu a porta. Do outro lado estava um homem alto, de cabelos castanhos curtos e expressão séria. Seu corpo era largo como o de um guerreiro treinado. Ele parou imediatamente ao ver Elara. Seus olhos se estreitaram. — Alfa — disse ele. A palavra fez Elara congelar. Alfa? Aiden respondeu com um aceno de cabeça. — Fale, Rowan. O homem — Rowan — olhou novamente para Elara. Algo em sua postura mudou. Não hostilidade. Mas atenção. — A alcateia está inquieta — disse ele. — Todos sentiram o chamado. Elara sentiu o estômago apertar. Rowan continuou: — Alguns acreditam que seja uma ameaça. Aiden cruzou os braços. — Não é. — Eu imaginei — respondeu Rowan. — Mas eles querem respostas. O olhar dele voltou para Elara novamente. Mais longo dessa vez. Mais curioso. — Ela é a razão? Elara prendeu a respiração. Por um momento o silêncio tomou o quarto. Então Aiden respondeu. — Sim. Rowan ficou completamente imóvel. Os olhos dele se arregalaram lentamente. — Deusa da Lua… Ele olhou novamente para Elara, mas agora havia algo completamente diferente em sua expressão. Respeito. Quase reverência. Elara ficou desconfortável. — Eu acho que vocês estão exagerando um pouco — disse ela. Rowan soltou uma pequena risada incrédula. — Não estamos. Ele olhou novamente para Aiden. — A alcateia precisa vê-la. Elara engasgou. — Ver… o quê?! Aiden virou-se para ela. — Apenas caminhar comigo. Ela arregalou os olhos. — Caminhar? — Sim. — Lá fora? — Sim. — Onde estão todos os lobos que sentiram essa coisa estranha? Aiden assentiu. — Exatamente. Elara levou a mão ao peito. — Isso parece uma péssima ideia. Rowan tentou esconder o sorriso. — Confie em mim — disse Aiden. O tom dele era calmo. Seguro. E estranhamente reconfortante. Depois de alguns segundos de hesitação, Elara suspirou. — Se eles tentarem me devorar, a culpa é sua. Rowan riu. — Ninguém aqui é tão e******o. Aiden estendeu a mão para ela. Não para puxá-la. Apenas oferecendo apoio. Elara hesitou por um segundo. Mas então colocou a mão na dele. O toque enviou outra onda silenciosa pelo vínculo. Aiden abriu a porta. E os três saíram para o corredor. A fortaleza da alcateia era enorme. Feita de pedra escura e madeira antiga, com símbolos da lua entalhados em várias paredes. Elara podia ouvir vozes do lado de fora. Muitas vozes. Quando chegaram à porta principal, Rowan a abriu. E o mundo pareceu parar. Do lado de fora, dezenas de lobos estavam reunidos. Guerreiros. Mulheres. Anciões. Todos olhando para a entrada. O silêncio caiu instantaneamente quando Aiden apareceu. Mas quando Elara deu um passo ao lado dele… Algo estranho aconteceu. Um arrepio percorreu a multidão. Ela sentiu. Como uma vibração no ar. O vínculo pulsou novamente. Um dos lobos mais velhos deu um passo para trás. Outro caiu de joelhos. Então outro. E outro. Em poucos segundos… Metade da alcateia estava ajoelhada. Elara congelou. — O que está acontecendo?! Rowan parecia tão chocado quanto ela. — Isso… nunca aconteceu antes. Aiden permaneceu imóvel. Mas seu olhar estava completamente focado nela. Não na alcateia. Nela. — Eles sentem — disse ele. — Sentem o quê?! Um dos anciões levantou a cabeça lentamente. Seus olhos estavam cheios de emoção. — A bênção da lua… O coração de Elara disparou. — Não — ela murmurou. — Não, vocês estão enganados… Mas outro lobo falou. — Ela é a escolhida. Outro. — A futura luna. Outro. — A Filha da Lua. Elara deu um passo para trás. Assustada. Confusa. Sobrecarregada. — Eu não sou nada disso — disse ela. Mas naquele momento… O vento mudou. As nuvens se moveram. E um feixe de luz prateada da lua — ainda visível no céu da manhã — caiu exatamente sobre ela. Um brilho suave atravessou seus olhos. Prateado. A alcateia inteira prendeu a respiração. Rowan murmurou: — Pela Deusa… Aiden deu um passo à frente. A voz dele ecoou clara. Firme. Inquestionável. — Levantem-se. Os lobos obedeceram imediatamente. Ele olhou para todos eles. Mas sua mão encontrou a de Elara novamente. — Esta é Elara — disse ele. A alcateia inteira observava em silêncio absoluto. Então ele terminou: — E ninguém tocará nela. A promessa carregava poder. Proteção. E algo mais profundo. Algo que fez o vínculo entre eles pulsar novamente. Elara olhou para ele. Ainda tentando entender tudo. Mas uma coisa ela sabia com certeza. Pela primeira vez desde a rejeição… Ela não estava sozinha. E isso mudava tudo.
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