História nebulosa

1441 Words
- Bombom? "Deus, porquê William está enrolado em uma toalha? Isso é um compromisso de trabalho!" O sorriso dele fica mais largo com a minha expressão atordoada. - Gostou da visão do paraíso? Fico com a boca aberta, tentando processar as informações no meu cérebro. Eu já o vi sem camisa antes, mas eu realmente não posso acreditar que ele tem uma tatuagem...e um piercing no mamilo! O que mais eu não sei sobre o William Parker? - Uh, William...O que está acontecendo aqui? - Por favor, me diga que você tem uma máquina do tempo nesta linda casa que me permitirá voltar ao momento em que eu quase desistir de bater na sua porta. - Felizmente, eu não tenho bombom. - Mas veja, quando você aparece na casa de um homem duas horas mais cedo, é provável que o encontre em alguma situação comprometedora. - Duas horas mais cedo? - Mas o e-mail dizia... William se inclina contra a porta, o movimento faz a toalha escorregar um centímetro para baixo. - O e-mail dizia às 13hrs. Eu sei porque eu escrevi. - Mas se você quiser adiantar algum trabalho pessoal, posso abrir um espaço na minha agenda. Ele se encosta na porta. - Venha, Jules. Vou ver se consigo preparar um almoço para nós. - Eu não quero atrapalhar. - Você jamais atrapalha. - Eu posso esperar em uma cafeteria na esquina ou algo assim... William toca o meu ombro, me levando para dentro. - Eu tenho café, Jules. Vamos sair do frio, eu quero fechar a porta. - Caso você não tenha notado, não estou usando a melhor roupa para esse clina. Passo por William enquanto ele abre a porta para mim e entra em um cômodo perfeitamente adequado ao bairro em que ele mora. Quando me viro para trás, ele já está me olhando, daquele jeito quente...e talvez um pouco nervoso. - Fique a vontade, Jules. Pode fazer o que quiser. Já volto para fazermos o almoço. Com um aceno de cabeça, William segue por um corredor e desaparece por uma porta. "Duas horas só para nós..." Olho ao redor, sem tocar em nada, apenas observando os detalhes da vida de William fora do trabalho. Há algumas fotos, incluindo uma que deve ser William com a irmã dele no dia do casamento dela. E bem ao lado dela, em um quadro menor, está uma foto de uma ultrassonografia marcada com o nome de sua irmã no topo. Que fofo. Ele está tão animado por ser tio. Ao lado, há um violão velho e surrado apoiado em um pedestal. Nossa! É igual ao que eu costumava tocar quando era criança. Depois de alguns minutos sem nenhum sinal de William, você fica inquieta. Talvez eu possa começar o almoço. Mas esse lugar é tão grande...onde fica a cozinha? Me viro, olhando ao redor da grande sala de estar e perco o equilíbrio. Me seguro, mas acabo derrubando o violão do suporte. - Droga! De repente, William reaparece. Sua expressão é fria. Algo estranho no rosto normalmente sorridente dele. Instintivamente, me afasto do violão. - Eu sinto muito. Eu estava só olhando ao redor e...eu acabei tropeçando. William apenas balança a cabeça. Ele pega o violão e o coloca de volta no suporte. - Está bem. Não se preocupe com isso. Ele se vira e sai da sala, sem olhar para mim. - Vamos, Jules. Vamos ver o que podemos fazer para o almoço. O sigo até uma cozinha impecável e bem abastecida. William abre a geladeira e começa a retirar frutas e vegetais frescos. - Então você toca violão? - Agora nem tanto. Eu costumava tocar para o Bryan, mas depois que ele perdeu a audição eu parei. - Parece que você é muito próxima do seu irmão. - Sim, eu sou. William levanta os olhos desviando o olhar dos ingredientes que juntou na mesa, há uma expressão pensativa em seu rosto. - Você nunca me contou como ele perdeu a audição. A pergunta me atinge como uma tonelada de tijolos. O pânico corre pelo meu corpo e lágrimas surgem nos meus olhos. - Eu não falo muito sobre isso. - O que aconteceu com ele...Ainda me pergunto se eu poderia ter impedido. William contorna o balcão e caminha até mim, segurando meu rosto com as mãos. - Eu sinto muito, Jules. Eu não sabia que era algo tão delicado. - Você está bem? Afirmo que sim, minha garganta está muito apertada para falar. - Você não precisa me dizer nada. Mas saiba que estou ao seu lado sem julgamentos. Todo mundo tem suas cicatrizes. - Elas nos fazem ser quem somos. E eu quero saber sobre cada parte de você, bombom. Mesmo sobre as partes mais difíceis. - Se você não quiser me contar eu entendo. Mas você pode confiar em mim, Jules. Eu juro. Respiro fundo, deixando um pouco da tensão sair do meu corpo. - É uma longa história. - Ainda bem que temos algumas horas, só você e eu. William liga o fogão, enquanto me sento no balcão. Ele me dá um copo de água. - Quando eu tinha 8 anos e o Bryan 10, houve uma série de roubos em nossa vizinhança. - Nossos pais trabalhavam, então Bryan e eu frequentemente voltávamos para casa depois da escola e ficávamos sozinhos. - Eles sempre brigavam, então meu pai encontrou uma desculpa para sair de casa. Muitas vezes éramos apenas eu e Bryan em casa. - Isso deve ter sido difícil para vocês. - Não conhecíamos outra realidade. Parecia normal, eu acho. - Um dia voltamos para casa mais cedo e encontramos dois homens roubando nossa casa. William deixa cair a faca na tábua de cortar, ele parece chocado quando se vira mim. - Droga! Eu não tinha idéia, Jules. Eu não deveria ter me intrometido. - Tudo bem, William. - Eu consigo falar sobre isso agora. William apoia os cotovelos no balcão, inclinando-se para frente para encontrar meu olhar. - Os ladrões... - Eles eram agressivos, duas crianças são fáceis de se assustar. - Bryan me empurrou para fora para me manter segura e quando ele estava de costas...Um dos caras pegou uma garrafa de vinho e bateu em sua cabeça. Ele fraturou o osso temporal. - E você? Você ficou bem? A pergunta me pega de surpresa. Alguém alguma vez já se preocupou em me perguntar isso? - Eu fiquei com um corte na mão por tentar ajudar o Bryan depois disso. Ganhei uma cicatriz. - Você se importa se eu vê-la? Levanto a mão para William, mostrando a ele a marca em minha palma. Ele pega minha mão, traçando delicadamente a longa linha da cicatriz até o meu pulso. - Quantos pontos você levou? - Nove. Bryan brincou que eu ganhei um para cada ano da minha vida. - Me cortei em um vidro de uma janela quebrada. Eu caí quando estava tentando alcança-lo. - Sabe, eu nunca senti dor nenhuma. Nem quando aconteceu, nem quando deram os pontos, ou mesmo depois. - Foi apenas uma coisa qualquer que aconteceu comigo, enquanto meu irmão perdeu a audição. William dá um beijo suave na parte inferior da cicatriz. - Não tem problema se permitir sentir algo, Jules. Isso atingiu você também. Sinto as lágrimas em meus olhos. Com a outra mão, William levanta meu queixo para que eu encontre seus olhos. - Obrigado por compartilhar isso comigo. Foi muito corajoso da sua parte. - Há muito tempo eu carrego comigo o que aconteceu. William entrelaça seus dedos nos meus, me fazendo encontrar conforto na sua pele. - É meio irônico. Bryan sentiu toda a dor física, mas ele é um cara tão leve. - Sou eu que tenho dezenas de fechaduras na porta e checo o banco de trás toda vez que entro no carro. - Mas você ainda dirige. Você ainda vai sozinha para casa à noite. O som do queimador de gás leva William para longe de mim, separando nossas mãos. - Sim, acho que sim. - Então você não tem medo. Ter medo significa que você permite que o medo controle a sua vida. Sentir medo é seguir em frente...isso é coragem. - William, eu não sou tão corajosa. William franze a testa, servindo os belos sanduiches grelhados que ele fez para nós, adicionando uma salada à parte para completar. - Mentira. Isso é mentira e você sabe disso. - Bem, certamente é como eu me sinto. Ele coloca o prato na minha frente enquanto se junta a mim na bancada. - Se você se visse como eu te vejo, bombom, saberia que é corajosa, ousada e forte. Mais do que eu.
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