Capítulo 5

2555 Words
Senti um arrepio tomar todo o meu corpo, o medo me tomou de uma maneira que nunca imaginei ser possível. O que eles fariam comigo? Eu estava desarmada e indefesa... — É só uma menina, afaste isso dela. — O velho diz me olhando. — Ela pode estar com os ladrões. — O homem de nariz torto se intromete. — Quem é você? — O belo rapaz pergunta com a espada erguida para mim. Ele parecia orgulhoso e imponente, com ar de superior. Senti raiva por estar desarmada, eu o faria implorar por piedade e ele tiraria aquele jeito presunçoso de seu olhar. Mas mesmo sobre minha raiva não podia negar que era belo. Agora sobre a luz do dia e bem ali na minha frente eu podia ver os cabelos negros como os meus, seus olhos verdes que me encaravam, o que era um belo contraste para as sobrancelhas grossas e negras. Ele era forte, e usando apenas uma camisa branca aberta me mostrava seu corpo com todos os músculos. Senti minhas bochechas ruborizadas, aquilo era ridículo, e eu nem conseguia respondê-lo. — Diga logo! — O homem de nariz torto gritou com raiva, tirando minha atenção do homem à minha frente. — Me chamo... — Pode falar menina, não tenha medo. — O velho garante, me acalmando. — Margarida! — Falo enquanto me levanto irritada, mais comigo do que com o homem. — E estão na minha casa, devem ir. — O que faz aqui sozinha, Margarida? — O belo rapaz pergunta e eu queria dar uma resposta malcriada, mas me ouvi dizendo: — É a minha antiga casa. — Onde mora agora? — Não queria que eles soubessem que eu era uma das escolhidas. Olhei para janela que tinha deixado escancarada e possivelmente tinha sido por ali que eles me viram. — Não é da sua conta! — Digo já pulando a janela, não era alta e pulei com facilidade. — Segurem-na! — ouvi um deles gritar, mas não me preocupo em olhar para trás. Corro o máximo que posso, entrando na floresta, por um momento sinto que estavam me seguindo e me viro para ver a distância que estavam, e é nesse momento de descuido que sou jogada no chão, um corpo grande estava sobre o meu. Debato-me tentando me soltar, mas não consigo afastá-lo. O homem me puxa virando-me para encará-lo, ele pega meus braços e me olha como se me desafiasse a tentar fugir novamente e eu retribuo o olhar altivo. Por um segundo, seu rosto se aproxima do meu de forma lenta, quase hipnótica. Então escuto um barulho ao longe me trazendo de volta e o empurro, mas ele ainda me segura com firmeza, aproximando seu corpo do meu. — Que a***o! — Digo irritada. — Me desculpe, eu não ia... — Me beijar?! — Falei ainda tentando me soltar, ele parece pensar se deve ou não me deixar ir, mas então afrouxar as mãos. — Não! Claro que não. — Ele balança a cabeça negativamente. — Iria sim! Se eu não tivesse... — O que está acontecendo aqui? — O velho pergunta, parecia estar cansado da corrida. — Ele ia me beijar. — Eu digo empurrando a muralha que era o homem e ele se afasta, começando a se limpar ainda no chão. Ele levanta a sobrancelha e parece estar pensando em como poderia me enforcar facilmente, mas então ergue a mão para me ajudar a levantar, mesmo quando estou de pé ele não solta o meu braço. — Daniel ia beijá-la? — O velho questiona, parecendo se divertir com a nossa situação. — Eu não! — Ele diz afastando um pouco mais seu corpo do meu, porém não me largando. — Ela que se aproximou. — Daniel, eu estou inclinado a acreditar na moça. — O homem de nariz torto chega falando. — Sei que não pode ver uma moça bonita. — Ela nem é tão bonita assim! — Ele diz m*l-humorado, me olhando com certo desdém. — O que? — O questiono irritada. Como ele ousa. Dou um empurrão no homem, que pela surpresa com minha força acaba por me soltar, então me aproveitando do momento de distração dos três, pego a espada que estava no chão e a ergo na direção deles. — Não vou brigar com você! — Ele me olha surpreso por minha ousadia, mas se afasta mais um pouco. — Está com medo? — Eu zombei, ele parece reparar em como seguro a espada. — Você é uma mulher, não vou brigar com você. — Ele olha para os outros como se pedisse para que eles interviessem a seu favor. — Dominique! — A voz do meu pai em meio a toda aquela loucura me surpreende. — Pai! — Grito e ele me olha com a espada na mão, depois para os homens que ali estavam. — O que está acontecendo aqui? — Meu pai questiona se aproximando de onde estávamos. — O que faz aqui, Elias? — O velho pergunta para meu pai. — Emanuel! — Meu pai se diz meio apreensivo quando reconhece o velho, então seu olhar se desvia para mim novamente, parecia esperar um sinal, mas eu estava embaçada demais para poder dizer qualquer coisa. — É sua filha? — O velho volta a me olhar novamente, como se estivesse tentando lembrar-se de alguém. — Dominique, venha cá! — Meu pai me pede olhando para a espada em minhas mãos, eu ando até ele e penso em falar algo, mas então ele me coloca para trás de si e toma a espada das minhas mãos. — O que querem com minha filha? — Meu pai diz respondendo o outro velho, mas seu olhar não era gentil como o do homem. — Ela estava nos vigiando. — Daniel entra na conversa com seu olhar de superioridade. — Somos da guarda da rainha, apenas queríamos ter certeza de que não era uma espiã. — Eu não estava te vigiando! — Falei irritada, como ele podia ser tão... — Eu sei quem vocês são. — Meu pai olhou para o velho que apenas sorri. — Vamos embora, Dominique! — Gostei de revê-lo, Elias. — Emanuel comenta, mas meu pai o ignora se pondo a andar e me arrastar pela floresta. — Sua mãe está desesperada! — Ele bradou, parecia estar cansado e eu me senti culpada por isso. — Eu não queria... — O que você falou para eles? — questionou, mas antes que conseguisse responder continuou. — Não fale sobre eles com sua mãe. — Por quê? — Só não diga, ora! Meu pai estava agindo como um grosso e eu devia dar um basta nisso, devia dizer a ele que a culpa não era minha, que eu jamais lhe causaria dor se fosse por escolha minha, mas me calei, engoli todas as palavras e o segui. Minha mãe me abraçou, como se eu tivesse passado anos fora de casa assim que colocamos o pé na porta. — Chega mamãe! — Tentei me esquivar de seus beijos, mas sem sucesso. — Não podia ter me feito isso! — Ela diz secando as lágrimas que teimam em cair de seus olhos. — Se fizer isso de novo, ficará uma semana de castigo! — Eu só tenho mesmo uma semana! — Logo que disse me arrependi, minha mãe parecia prestes a desabar, vi uma agonia em seus olhos. — Vá para o seu quarto! — Ela grita e eu a abraço em resposta, tentando contornar meu erro. — Vai ficar tudo bem! — Eu lhe asseguro e dou um beijo em seu rosto. — Não chore mais. — Não! Você vai morrer! Como pode ficar bem? — ela desaba perdendo a postura de raiva. — Eu só não sei o que dizer! — Eu estava cansada e queria chorar, mas não chorei, só queria que eles sofressem o menos possível, não era pedir muito. Era? — Fuja! — A voz de meu pai soou no meio do meu tormento, chamando minha atenção. — O que está dizendo? — Isso fuja! — Minha mãe concordou com ele me assustando. Eles estavam desesperados demais, para pensar nas consequências. — Eles vão torturar vocês! — Respirei cansada constatando o óbvio, não queria ter aquela conversa. — Não posso fazer isso. — Nada que eles façam vai ser pior do que tirá-la de nós! — Meu pai exclama e seu olhar cai sobre a minha mãe. Já tínhamos passado por isso, eles sabiam que era impossível, que a única coisa que conseguiríamos era diminuir o número das pessoas naquela família, de três para zero. — Nada pode ser pior. — Minha mãe concordou. — Eu não posso, não sabendo disso... — Você é jovem! Irá conseguir. — Ele me interrompe e começa andar de um lado para o outro. — Fiz bem em te ensinar a lutar, você é esperta, vai se virar bem. — Eu não vou! — Gritei e ele me olhou irritado. Meu pai estava diferente, podia se ver. Algo tinha acontecido e mudado sua atitude. — Vai sim! — Ele afirma fechando a mão e batendo contra a mesa. — Só precisamos ter um plano. — Eu não irei! — Gritei novamente. — Vocês não querem me ver morta e eu quero vê-los nessa situação também. — Vá, por favor! — Minha mãe se aproxima implorando, mas me afasto indignada. O discurso de Caio me vem à cabeça e eu sei que não posso fazer isso, não posso fugir sabendo que eles pagaram um preço alto por minha vida. — Chega, vou para o meu quarto. Sai dali sem olhá-los nos olhos, não aguentaria ver a súplica neles. Entrei no lindo quarto, com as cortinas brancas, almofadas coloridas e uma cama digna de uma princesa, é uma prisão confortável. Nada ali era meu, além de uma boneca f**a e remendada, a única coisa que consegui carregar comigo, a única coisa que podia chamar de minha. Lembrei-me do dia em que eles chegaram para nos trazer para a nossa nova casa. — Eu não quero ir! — Eu gritava me segurando na frágil porta de madeira. — Temos que ir! — Meu pai dizia soltando os meus dedos um por um. — Por quê? — Eu esperneava com raiva. — Você foi escolhida. — Minha mãe falava com um falso sorriso, olhando para o homem que nos esperava. — Não quero ser escolhida! — Falei tentado fugir dos braços do meu pai. — Você será invejada, terá uma casa mais confortável, terá uma boneca bem melhor que essa. — O homem barrigudo disse olhando para a boneca rasgada no chão. — Não quero nada que venha da sua rainha! — Eu gritei e minha mãe tapou minha boca depressa. — Desculpe meu senhor, ela não queria dizer isso. — Mamãe murmurou me arrancando dos braços do meu pai. — Não se preocupe, sei como são as crianças, mas se outra pessoa a ouvir dirá a rainha. — Minha mãe me jogou para trás como se apenas aquelas palavras fossem capazes de me ferir. — Agradeço ao senhor! — ela sorriu e me soltou um pouquinho, enquanto meu pai colocava uma trouxa de roupas na carruagem terminando de se preparar. — Não se preocupem, terão do bom e do melhor na sua nova moradia. — O homem disse como se devêssemos estar festejando. Passei o caminho todo chorando, me lembro de que nem ao menos sabia o que queria dizer “escolhida”, eu só sabia que eu amava aquela casa. Quando chegamos à enorme casa com o lindo jardim, por alguns segundos me senti sortuda, ela era a coisa mais bela que eu tinha visto, olhei para o meu pai, queria ver se ele também estava feliz, mas havia uma sombra em seus olhos. Quando uma linda mulher de sorriso brilhante me perguntou o que eu queria comer me senti no paraíso, me lembro de que pedi frango e batatas assadas, o homem apareceu com uma linda boneca, o que me irritou. — Já pode jogar essa fora. — Ele informou olhando para a boneca remendada nos meus braços. — Ela é minha e eu não vou jogá-la fora. — Eu respondi dando as costas para a linda boneca. — Obrigada! — Minha mãe interveio, já pegando a boneca da mão do homem. — Se fosse um homem seria da cavalaria, por ter um gênio forte. — Meu pai disse com rancor. — Que pena que não é. — O homem sorri. Hoje eu entendo o que meu pai quis dizer "se eu fosse um homem seria da cavalaria", não fazia a menor diferença de qualquer forma eu morreria pela rainha. Ser filha de um cavaleiro desonrado é estar marcada de qualquer forma. Alguém bate na porta, me tirando dos meus devaneios. — Pode entrar. — Digo e minha mãe entra. — Trouxe seu café da manhã, desde ontem não come nada. — Obrigada! — Respondo pegando a bandeja de frutas de sua mão. — Eu sei que está confusa e com medo. — Minha mãe murmurou passando a mão em meus cabelos. — Mas não faça mais isso, sumir durante o dia e passar a noite fora não é bom. — Desculpe-me. — falei imaginando a sua a sua aflição, fui inconsequente. — Não se preocupe, não vai acontecer de novo. — Eu beijo sua bochecha como para selar a promessa. — Tem que pentear os seus cabelos. — Ela se levanta para pegar a linda escova de prata. — Aaaa mamãe! — Sem “Aaaa mamãe”. — Ela disse se sentando e pegando em meus longos cabelos pretos, ela é boa nisso, ela é ótima em ser mãe, merecia uma filha mais boazinha, ela merecia alguém como Elaine. — Mãe você nunca pensou em ter outros filhos? — Não. — Sua resposta é sucinta. — Por que não? — continuo insistindo por uma resposta. — Você já vale por três. — Ela ri, com o olhar longe como se uma lembrança passasse por sua cabeça. — Se tivesse outros filhos, não ia ser tão r**m — Minha mãe parou de pentear, como se aquilo tivesse passado pela sua cabeça pela primeira vez. — Não, acho que mudaria o que sinto. — Ela voltou a pentear o meu cabelo, e o silêncio se instalou por alguns minutos, e eu deixei a minha mente ir para o lago novamente, a promessa daquela coisa. Se eu pudesse mudar meu destino, se eu pudesse dar paz aos meus pais, talvez valesse a pena pagar o preço. Mas qual seria? — Mãe se tivesse um jeito de eu sobreviver, mas talvez tivesse que fazer alguma coisa r**m, você acha isso certo? — Eu sabia que aquela coisa que prometeu me salvar ia querer algo em troca, em Tárcia tudo tem um preço. — O que teria que fazer? — Ela para de pentear meu cabelo e posso jurar que sorriu ao falar. — Se precisasse m***r a rainha, eu não me incomodaria. — Não acho que seja pra tanto. — Bocejei querendo fugir do assunto. — Estou com sono. — Também ficou a noite inteira acordada. — É dever ser por isso. — Vou deixá-la para que possa descansar. Então rapidamente ela saiu fechando a porta e eu voltei a deitar.
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