Catarina atravessou os portões do castelo com o coração ainda acelerado. O frio da noite tingia suas bochechas, mas não era só o clima — o encontro com o príncipe Álvaro ainda queimava em seus pensamentos.
Assim que entrou no grande salão, sua presença não passou despercebida.
— Catarina — chamou a rainha Ariela, com a voz firme. — Onde você estava?
Catarina respirou fundo, mantendo a postura.
— Eu… fui tomar um pouco de ar lá fora, mãe.
Ariela estreitou os olhos, analisando cada detalhe da filha. claramente desconfiada.
— Curioso — disse ela lentamente. — Helena e Isabella me disseram que você estava na biblioteca.
O silêncio pesou entre as duas. Catarina sentiu o chão escapar sob seus pés. Sua mente buscava uma saída, qualquer explicação convincente, mas antes que pudesse dizer algo…
— Mãe.
A voz fria e controlada de Josefina ecoou pelo salão.
Todas as atenções se voltaram imediatamente para ela.
A princesa surgiu imponente, envolta em seu manto escuro, o olhar distante, quase inalcançável. Havia algo nela que sempre dominava o ambiente — uma presença que exigia atenção sem esforço. principalmente de sua mãe.
— Precisamos conversar — continuou Josefina, ignorando completamente a tensão no ar. — Sobre a coroação.
A expressão da rainha mudou no mesmo instante. A preocupação substituiu a suspeita.
— Claro, minha filha — respondeu Ariela, já caminhando em direção a ela. — O que houve?
Sem olhar para Catarina, Josefina virou-se e começou a caminhar, certa de que seria seguida.
E foi. ela sempre era.
A rainha lançou apenas um último olhar desconfiado para Catarina antes de acompanhar a filha mais velha, completamente absorvida pelo assunto.
Quando finalmente ficaram a sós no salão, Catarina soltou o ar preso. estava aliviada por enquanto.
Helena e Isabella surgiram logo depois, trocando olhares cúmplices.
— Você quase foi descoberta — sussurrou Helena.
— Nós tentamos te ajudar — completou Isabella, meio nervosa.
Catarina levou a mão ao peito, ainda sentindo o coração disparado.
— Eu sei… — murmurou, olhando na direção por onde Josefina havia saído. — E parece que, mais uma vez… foi ela quem me salvou. Graças a Deus que a Josefina apareceu.
O salão estava silencioso naquela noite. Josefina permanecia de pé, com as mãos unidas à frente do corpo, com a postura impecável. como uma futura rainha deveria ser. Mas seus olhos denunciavam o cansaço emocional que ela tentava esconder.
A rainha Ariela a observava com atenção, sentada em sua poltrona, elegante como sempre, mas visivelmente apreensiva.
— A coroação está cada vez mais próxima… — disse a rainha, quebrando o silêncio. — Em três meses, você será a soberana de Frosthal.
Josefina apenas assentiu, sem dizer nada.
Ariela respirou fundo antes de continuar:
— E junto com a coroa… vêm responsabilidades. Alianças. Um casamento.
Josefina ergueu lentamente o olhar, agora firme.
— Mãe…
— Eu preciso perguntar — insistiu a rainha, com a voz mais suave, porém firme. — Você não pensa em se casar?
Por um instante, o tempo pareceu parar.
O rosto de Josefina endureceu. Seus olhos, antes contidos, agora carregavam dor.
— O meu noivo morreu há pouquíssimos dias.
O silêncio que se seguiu foi pesado demais.
Ariela desviou o olhar por um momento, como se sentisse o peso das próprias palavras.
— Eu sei, minha filha… — disse, mais baixa. — E sinto tanto quanto você. Daniel era… um bom homem.
Josefina respirou fundo, tentando manter o controle.
— Então como pode me perguntar isso agora? — sua voz saiu mais firme, quase fria. — Como pode falar de casamento… como se fosse algo simples de substituir?
A rainha se levantou lentamente, aproximando-se dela.
— Porque o reino não pode esperar pelo tempo do coração, Josefina.
A princesa deu um pequeno passo para trás.
— Então talvez o reino tenha que aprender a esperar.
Os olhos das duas se encontraram.
— Eu não vou me casar — continuou Josefina, agora com uma determinação quase inabalável. — Não agora… e talvez nunca.
Ariela a observou em silêncio, percebendo que não era apenas luto. Havia algo mais ali… algo que poderia mudar o destino de todo o reino.
Josefina fez uma reverência contida.
— Com sua licença, majestade.
E sem esperar resposta, virou-se e saiu do salão, deixando para trás não apenas sua mãe… mas também uma decisão que ecoaria por todo o reino de Frosthal.