observador

730 Words
Catarina atravessou os portões do castelo com o coração ainda acelerado. O frio da noite tingia suas bochechas, mas não era só o clima — o encontro com o príncipe Álvaro ainda queimava em seus pensamentos. Assim que entrou no grande salão, sua presença não passou despercebida. — Catarina — chamou a rainha Ariela, com a voz firme. — Onde você estava? Catarina respirou fundo, mantendo a postura. — Eu… fui tomar um pouco de ar lá fora, mãe. Ariela estreitou os olhos, analisando cada detalhe da filha. claramente desconfiada. — Curioso — disse ela lentamente. — Helena e Isabella me disseram que você estava na biblioteca. O silêncio pesou entre as duas. Catarina sentiu o chão escapar sob seus pés. Sua mente buscava uma saída, qualquer explicação convincente, mas antes que pudesse dizer algo… — Mãe. A voz fria e controlada de Josefina ecoou pelo salão. Todas as atenções se voltaram imediatamente para ela. A princesa surgiu imponente, envolta em seu manto escuro, o olhar distante, quase inalcançável. Havia algo nela que sempre dominava o ambiente — uma presença que exigia atenção sem esforço. principalmente de sua mãe. — Precisamos conversar — continuou Josefina, ignorando completamente a tensão no ar. — Sobre a coroação. A expressão da rainha mudou no mesmo instante. A preocupação substituiu a suspeita. — Claro, minha filha — respondeu Ariela, já caminhando em direção a ela. — O que houve? Sem olhar para Catarina, Josefina virou-se e começou a caminhar, certa de que seria seguida. E foi. ela sempre era. A rainha lançou apenas um último olhar desconfiado para Catarina antes de acompanhar a filha mais velha, completamente absorvida pelo assunto. Quando finalmente ficaram a sós no salão, Catarina soltou o ar preso. estava aliviada por enquanto. Helena e Isabella surgiram logo depois, trocando olhares cúmplices. — Você quase foi descoberta — sussurrou Helena. — Nós tentamos te ajudar — completou Isabella, meio nervosa. Catarina levou a mão ao peito, ainda sentindo o coração disparado. — Eu sei… — murmurou, olhando na direção por onde Josefina havia saído. — E parece que, mais uma vez… foi ela quem me salvou. Graças a Deus que a Josefina apareceu. O salão estava silencioso naquela noite. Josefina permanecia de pé, com as mãos unidas à frente do corpo, com a postura impecável. como uma futura rainha deveria ser. Mas seus olhos denunciavam o cansaço emocional que ela tentava esconder. A rainha Ariela a observava com atenção, sentada em sua poltrona, elegante como sempre, mas visivelmente apreensiva. — A coroação está cada vez mais próxima… — disse a rainha, quebrando o silêncio. — Em três meses, você será a soberana de Frosthal. Josefina apenas assentiu, sem dizer nada. Ariela respirou fundo antes de continuar: — E junto com a coroa… vêm responsabilidades. Alianças. Um casamento. Josefina ergueu lentamente o olhar, agora firme. — Mãe… — Eu preciso perguntar — insistiu a rainha, com a voz mais suave, porém firme. — Você não pensa em se casar? Por um instante, o tempo pareceu parar. O rosto de Josefina endureceu. Seus olhos, antes contidos, agora carregavam dor. — O meu noivo morreu há pouquíssimos dias. O silêncio que se seguiu foi pesado demais. Ariela desviou o olhar por um momento, como se sentisse o peso das próprias palavras. — Eu sei, minha filha… — disse, mais baixa. — E sinto tanto quanto você. Daniel era… um bom homem. Josefina respirou fundo, tentando manter o controle. — Então como pode me perguntar isso agora? — sua voz saiu mais firme, quase fria. — Como pode falar de casamento… como se fosse algo simples de substituir? A rainha se levantou lentamente, aproximando-se dela. — Porque o reino não pode esperar pelo tempo do coração, Josefina. A princesa deu um pequeno passo para trás. — Então talvez o reino tenha que aprender a esperar. Os olhos das duas se encontraram. — Eu não vou me casar — continuou Josefina, agora com uma determinação quase inabalável. — Não agora… e talvez nunca. Ariela a observou em silêncio, percebendo que não era apenas luto. Havia algo mais ali… algo que poderia mudar o destino de todo o reino. Josefina fez uma reverência contida. — Com sua licença, majestade. E sem esperar resposta, virou-se e saiu do salão, deixando para trás não apenas sua mãe… mas também uma decisão que ecoaria por todo o reino de Frosthal.
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