Quarto

1535 Words
Na manhã seguinte, Luna chegou decidida. Decidida a manter distância. Decidida a seguir as regras. Decidida a não surtar. Ela abriu a porta da sala do CEO sem bater. — Bom dia, chefe— Parou. Congelou. Travou. Porque lá estava Enrico Bianchi… Sem o paletó. Com a camisa social levemente aberta no colarinho. Mangas dobradas. Concentrado. E perigosamente… bonito. — Você costuma invadir sem bater? — ele perguntou, sem nem olhar. — Eu… bati mentalmente. Ele levantou os olhos. E percebeu. Ela tava olhando. Demais. — Gostou do que viu? Ela piscou. Rápido. — Não. Silêncio. — Mentira. Ela cruzou os braços. — Você também se acha demais. — Eu não acho. — Acha sim. — Eu tenho certeza. Ela revirou os olhos. — Convencido. — Realista. — Insuportável. — E você continua aqui. Pausa. — Infelizmente. Mas ela não saiu. E ele percebeu. Claro que percebeu. — Você tem algo a dizer ou veio só me observar? — Eu vim trabalhar. — Então trabalhe. — Já estou trabalhando. Silêncio. Tenso. E estranho. Muito estranho. Minutos depois… — Isso aqui tá errado. — Não está. — Está sim. — Não está. — Tá. — Não— — TÁ! Silêncio. Bruna levantou a cabeça da mesa ao lado. — Eles começaram cedo hoje. Matteo, do outro lado, só encarava. — Isso é sempre assim? — Pior. — Como ninguém demitiu ela? — Porque ela é boa. — E ele? — Ele gosta do caos. Matteo franziu a testa. — Ele parece sofrer. Bruna sorriu. — Ele sofre gostando. — Isso é preocupante. — Isso é romance. Na sala… Luna estava inclinada sobre a mesa. Apontando para o tablet. Muito perto. Perto demais. — Olha aqui — ela disse — você marcou duas reuniões no mesmo horário. — Eu não cometo esse tipo de erro. — Você acabou de cometer. — Impossível. — Quer apostar? Ele se inclinou também. Mais perto. Os dois olhando a tela. Mas não só a tela. — …Você mudou isso — ele disse. — Corrigi. — Sem avisar. — Evitei um desastre. Silêncio. Os rostos estavam próximos. Muito próximos. A respiração misturando. Perigoso. — Você gosta de tomar decisões por mim — ele murmurou. — Eu gosto de evitar que você passe vergonha. — Eu não passo vergonha. — Ainda. Silêncio. Ele levantou os olhos. Direto nos dela. — Você está confiante demais. Ela não desviou. — E você está perto demais. Ninguém se afastou. Nem um centímetro. O clima mudou. Pesado. Quente. Diferente. — Regra número quatro — ela sussurrou — lembra? — Lembro. — Nada de envolvimento. — Só quando necessário. Pausa. — Isso não é necessário. — Ainda não. Silêncio. Mais um segundo… E— — ENRICO! A porta abriu com força. Os dois se afastaram na hora. Rápido demais. Natural demais. Suspeito demais. Matteo entrou. Parou. Olhou. Analisou. — Eu interrompi alguma coisa? — Não — os dois responderam juntos. Silêncio. Matteo não acreditou. Mas deixou passar. — Temos um problema. Enrico ficou sério na hora. — Fale. — A imprensa. Pausa. — Eles já estão comentando sobre o noivado. Luna cruzou os braços. — Já? Eu m*l tive tempo de ser famosa. — Não é só isso — Matteo continuou — tem gente investigando. Silêncio. Enrico ficou tenso. — Rápido demais. — Muito rápido. Luna suspirou. — Ótimo. Agora além de fingir, a gente tem que convencer o mundo inteiro. — Exatamente — Enrico respondeu. Ela olhou pra ele. — Você ainda acha que isso não vai dar errado? Ele hesitou. Só um pouco. — Vai funcionar. Ela sorriu. — Você continua mentindo bem. Do lado de fora… Bruna já tava comendo pipoca (que ninguém sabe de onde surgiu). — Eu senti a tensão daqui. — Eu também — Matteo disse. — Eles quase se beijaram, né? — Eu não sei. — Eu sei. Ele suspirou. — Isso vai piorar. Bruna sorriu. — Vai melhorar. — Isso não é melhorar. — Pra mim é. Na sala… Luna pegou o café. Tomou um gole. Calma. Como se nada tivesse acontecido. — Então qual o plano, chefe? Ele a encarou. Ainda sério. Mas com algo a mais. — Vamos tornar isso mais convincente. Ela arqueou a sobrancelha. — Mais convincente como? Ele se aproximou. De novo. — Vamos fazer todo mundo acreditar. Silêncio. Ela sorriu. Lento. Perigoso. — Então se prepara. — Para quê? — Porque eu sou muito boa nisso. Pausa. — E você não vai saber lidar. Ele sustentou o olhar. — Eu lido com qualquer coisa. Ela inclinou a cabeça. — Menos comigo. Silêncio. E dessa vez… ninguém discordou. Porque o problema não era mais o contrato. Era o que tava acontecendo fora dele. E principalmente… o que tava começando a acontecer entre eles. Se tinha uma coisa que Luna Andrade odiava… Era salto alto por muito tempo. — Isso aqui é tortura disfarçada de elegância — ela resmungou, andando pelo salão luxuoso. — Você está ótima — Enrico disse, ao lado dela. — Eu sei. O problema é manter isso por mais de duas horas sem perder a dignidade. — Tente não perder hoje. — Promessas difíceis. O evento era maior. Muito maior. Empresários, imprensa, gente importante demais pra alguém como Luna fingir que pertencia ali. E ainda assim… ela estava brilhando. — Eles estão olhando de novo — ela murmurou. — Deixe. — Eu vou cobrar ingresso. — Você já está sendo paga. — Nunca é o suficiente. Silêncio. Mas dessa vez… leve. Quase confortável. — ENRICO! A mesma mulher da noite anterior apareceu. Elegante. Perfeita. Irritante. E claramente interessada demais. — Isabella — ele respondeu, seco. Ela ignorou. Claro que ignorou. Olhou direto pra Luna. — Ainda aqui? Luna sorriu. Calma. Perigosa. — Ainda noiva. Silêncio. Isabella apertou o sorriso. — Isso é… surpreendente. — Eu sou cheia de surpresas. — Imagino. Clima tenso. Ciúmes visível. Disfarçado de educação. — Enrico, podemos conversar? — Isabella pediu. Luna respondeu antes dele: — Claro que não. Silêncio. Pesado. Enrico virou levemente pra ela. — Luna— — O quê? — ela deu de ombros — noiva tem prioridade, não tem? Isabella riu, forçado. — Isso é ridículo. — Eu sei. Mas tá funcionando. Silêncio. Vitória. Isabella saiu. Claramente irritada. Luna virou pra Enrico. — Eu fui bem. — Você foi possessiva. — Eu fui convincente. Ele a encarou. Mais tempo do que deveria. — Foi. Pausa. — Você ficou com ciúmes — ele disse, baixo. Ela travou. Um segundo. — Fiquei nada. — Ficou. — Eu só não gosto dela. — Isso não é uma resposta. — É a única que você vai ter. Silêncio. Ele não insistiu. Mas não acreditou. Mais tarde… Varanda. Mais silêncio. Mais i********e. A cidade iluminada lá embaixo. E os dois… finalmente sozinhos. — Você não tá acostumada com isso, né? — ele perguntou. — Com gente rica olhando como se eu fosse um erro? Não. — Você não é um erro. Ela riu. — Olha você sendo gentil. — Estou sendo honesto. Pausa. Ela olhou pra ele. De verdade. — Por que você me escolheu? Silêncio. Ele demorou. — Porque você não tem medo de mim. — Eu tenho um pouco. — Não parece. — Eu disfarço bem. Ele deu um meio sorriso. — Eu percebi. Silêncio. Mais próximo. Mais intenso. — E você? — ela perguntou — tem medo de mim? Ele chegou mais perto. Devagar. — Ainda não. — Ainda? — Estou avaliando. Ela sorriu. — Você devia. Silêncio. O tipo de silêncio que muda tudo. O tipo de silêncio que avisa. Eles estavam perto. Muito perto. Sem plateia. Sem atuação. Sem desculpa. — Isso não faz parte do contrato — ela murmurou. — Não faz. — Então para. — Você quer que eu pare? Pausa. Ela hesitou. Um segundo. Erro. — Eu… Ele se aproximou mais. Agora não tinha espaço. Respiração misturada. Olhar preso. — Diz pra eu parar — ele disse, baixo. Ela abriu a boca. Mas não saiu som. E isso… já era uma resposta. Ele inclinou o rosto. Devagar. Muito devagar. Quase. Quase. Quase— — LUNA! Bruna surgiu do nada. Como um raio. Como um desastre. Como sempre. Os dois se afastaram na mesma hora. Rápido demais. Suspeito demais. — EU TAVA PROCURANDO VOCÊ! Luna piscou. Ainda meio perdida. — Claro que tava. Bruna olhou pros dois. Depois pra distância. Depois de volta. — Eu interrompi alguma coisa? — NÃO — Luna respondeu rápido demais. Enrico ficou em silêncio. Bruna sorriu. — Interrompi sim. — Você nunca ajuda. — Eu ajudo o caos. Do outro lado… Matteo apareceu. — O que aconteceu? Bruna respondeu: — Quase beijo. — De novo? — Agora foi sério. Matteo passou a mão no rosto. — Isso vai acabar m*l. Bruna deu de ombros. — Ou muito bem. Na varanda… Luna respirou fundo. — Isso não pode acontecer. Enrico concordou. — Não. Silêncio. — Então não acontece — ela disse. — Não acontece. Pausa. Eles se olharam. De novo. E ignoraram completamente o que tinham acabado de sentir. — Vamos voltar — ele disse. — Vamos. Mas ninguém se mexeu por alguns segundos. Porque ambos sabiam: O problema já não era mais fingir. Era parar de sentir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD