Na manhã seguinte, Luna chegou decidida.
Decidida a manter distância.
Decidida a seguir as regras.
Decidida a não surtar.
Ela abriu a porta da sala do CEO sem bater.
— Bom dia, chefe—
Parou.
Congelou.
Travou.
Porque lá estava Enrico Bianchi…
Sem o paletó.
Com a camisa social levemente aberta no colarinho.
Mangas dobradas.
Concentrado.
E perigosamente… bonito.
— Você costuma invadir sem bater? — ele perguntou, sem nem olhar.
— Eu… bati mentalmente.
Ele levantou os olhos.
E percebeu.
Ela tava olhando.
Demais.
— Gostou do que viu?
Ela piscou.
Rápido.
— Não.
Silêncio.
— Mentira.
Ela cruzou os braços.
— Você também se acha demais.
— Eu não acho.
— Acha sim.
— Eu tenho certeza.
Ela revirou os olhos.
— Convencido.
— Realista.
— Insuportável.
— E você continua aqui.
Pausa.
— Infelizmente.
Mas ela não saiu.
E ele percebeu.
Claro que percebeu.
— Você tem algo a dizer ou veio só me observar?
— Eu vim trabalhar.
— Então trabalhe.
— Já estou trabalhando.
Silêncio.
Tenso.
E estranho.
Muito estranho.
Minutos depois…
— Isso aqui tá errado.
— Não está.
— Está sim.
— Não está.
— Tá.
— Não—
— TÁ!
Silêncio.
Bruna levantou a cabeça da mesa ao lado.
— Eles começaram cedo hoje.
Matteo, do outro lado, só encarava.
— Isso é sempre assim?
— Pior.
— Como ninguém demitiu ela?
— Porque ela é boa.
— E ele?
— Ele gosta do caos.
Matteo franziu a testa.
— Ele parece sofrer.
Bruna sorriu.
— Ele sofre gostando.
— Isso é preocupante.
— Isso é romance.
Na sala…
Luna estava inclinada sobre a mesa.
Apontando para o tablet.
Muito perto.
Perto demais.
— Olha aqui — ela disse — você marcou duas reuniões no mesmo horário.
— Eu não cometo esse tipo de erro.
— Você acabou de cometer.
— Impossível.
— Quer apostar?
Ele se inclinou também.
Mais perto.
Os dois olhando a tela.
Mas não só a tela.
— …Você mudou isso — ele disse.
— Corrigi.
— Sem avisar.
— Evitei um desastre.
Silêncio.
Os rostos estavam próximos.
Muito próximos.
A respiração misturando.
Perigoso.
— Você gosta de tomar decisões por mim — ele murmurou.
— Eu gosto de evitar que você passe vergonha.
— Eu não passo vergonha.
— Ainda.
Silêncio.
Ele levantou os olhos.
Direto nos dela.
— Você está confiante demais.
Ela não desviou.
— E você está perto demais.
Ninguém se afastou.
Nem um centímetro.
O clima mudou.
Pesado.
Quente.
Diferente.
— Regra número quatro — ela sussurrou — lembra?
— Lembro.
— Nada de envolvimento.
— Só quando necessário.
Pausa.
— Isso não é necessário.
— Ainda não.
Silêncio.
Mais um segundo…
E—
— ENRICO!
A porta abriu com força.
Os dois se afastaram na hora.
Rápido demais.
Natural demais.
Suspeito demais.
Matteo entrou.
Parou.
Olhou.
Analisou.
— Eu interrompi alguma coisa?
— Não — os dois responderam juntos.
Silêncio.
Matteo não acreditou.
Mas deixou passar.
— Temos um problema.
Enrico ficou sério na hora.
— Fale.
— A imprensa.
Pausa.
— Eles já estão comentando sobre o noivado.
Luna cruzou os braços.
— Já? Eu m*l tive tempo de ser famosa.
— Não é só isso — Matteo continuou — tem gente investigando.
Silêncio.
Enrico ficou tenso.
— Rápido demais.
— Muito rápido.
Luna suspirou.
— Ótimo. Agora além de fingir, a gente tem que convencer o mundo inteiro.
— Exatamente — Enrico respondeu.
Ela olhou pra ele.
— Você ainda acha que isso não vai dar errado?
Ele hesitou.
Só um pouco.
— Vai funcionar.
Ela sorriu.
— Você continua mentindo bem.
Do lado de fora…
Bruna já tava comendo pipoca (que ninguém sabe de onde surgiu).
— Eu senti a tensão daqui.
— Eu também — Matteo disse.
— Eles quase se beijaram, né?
— Eu não sei.
— Eu sei.
Ele suspirou.
— Isso vai piorar.
Bruna sorriu.
— Vai melhorar.
— Isso não é melhorar.
— Pra mim é.
Na sala…
Luna pegou o café.
Tomou um gole.
Calma.
Como se nada tivesse acontecido.
— Então qual o plano, chefe?
Ele a encarou.
Ainda sério.
Mas com algo a mais.
— Vamos tornar isso mais convincente.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Mais convincente como?
Ele se aproximou.
De novo.
— Vamos fazer todo mundo acreditar.
Silêncio.
Ela sorriu.
Lento.
Perigoso.
— Então se prepara.
— Para quê?
— Porque eu sou muito boa nisso.
Pausa.
— E você não vai saber lidar.
Ele sustentou o olhar.
— Eu lido com qualquer coisa.
Ela inclinou a cabeça.
— Menos comigo.
Silêncio.
E dessa vez…
ninguém discordou.
Porque o problema não era mais o contrato.
Era o que tava acontecendo fora dele.
E principalmente…
o que tava começando a acontecer entre eles.
Se tinha uma coisa que Luna Andrade odiava…
Era salto alto por muito tempo.
— Isso aqui é tortura disfarçada de elegância — ela resmungou, andando pelo salão luxuoso.
— Você está ótima — Enrico disse, ao lado dela.
— Eu sei. O problema é manter isso por mais de duas horas sem perder a dignidade.
— Tente não perder hoje.
— Promessas difíceis.
O evento era maior.
Muito maior.
Empresários, imprensa, gente importante demais pra alguém como Luna fingir que pertencia ali.
E ainda assim…
ela estava brilhando.
— Eles estão olhando de novo — ela murmurou.
— Deixe.
— Eu vou cobrar ingresso.
— Você já está sendo paga.
— Nunca é o suficiente.
Silêncio.
Mas dessa vez… leve.
Quase confortável.
— ENRICO!
A mesma mulher da noite anterior apareceu.
Elegante. Perfeita. Irritante.
E claramente interessada demais.
— Isabella — ele respondeu, seco.
Ela ignorou.
Claro que ignorou.
Olhou direto pra Luna.
— Ainda aqui?
Luna sorriu.
Calma.
Perigosa.
— Ainda noiva.
Silêncio.
Isabella apertou o sorriso.
— Isso é… surpreendente.
— Eu sou cheia de surpresas.
— Imagino.
Clima tenso.
Ciúmes visível.
Disfarçado de educação.
— Enrico, podemos conversar? — Isabella pediu.
Luna respondeu antes dele:
— Claro que não.
Silêncio.
Pesado.
Enrico virou levemente pra ela.
— Luna—
— O quê? — ela deu de ombros — noiva tem prioridade, não tem?
Isabella riu, forçado.
— Isso é ridículo.
— Eu sei. Mas tá funcionando.
Silêncio.
Vitória.
Isabella saiu.
Claramente irritada.
Luna virou pra Enrico.
— Eu fui bem.
— Você foi possessiva.
— Eu fui convincente.
Ele a encarou.
Mais tempo do que deveria.
— Foi.
Pausa.
— Você ficou com ciúmes — ele disse, baixo.
Ela travou.
Um segundo.
— Fiquei nada.
— Ficou.
— Eu só não gosto dela.
— Isso não é uma resposta.
— É a única que você vai ter.
Silêncio.
Ele não insistiu.
Mas não acreditou.
Mais tarde…
Varanda.
Mais silêncio.
Mais i********e.
A cidade iluminada lá embaixo.
E os dois…
finalmente sozinhos.
— Você não tá acostumada com isso, né? — ele perguntou.
— Com gente rica olhando como se eu fosse um erro? Não.
— Você não é um erro.
Ela riu.
— Olha você sendo gentil.
— Estou sendo honesto.
Pausa.
Ela olhou pra ele.
De verdade.
— Por que você me escolheu?
Silêncio.
Ele demorou.
— Porque você não tem medo de mim.
— Eu tenho um pouco.
— Não parece.
— Eu disfarço bem.
Ele deu um meio sorriso.
— Eu percebi.
Silêncio.
Mais próximo.
Mais intenso.
— E você? — ela perguntou — tem medo de mim?
Ele chegou mais perto.
Devagar.
— Ainda não.
— Ainda?
— Estou avaliando.
Ela sorriu.
— Você devia.
Silêncio.
O tipo de silêncio que muda tudo.
O tipo de silêncio que avisa.
Eles estavam perto.
Muito perto.
Sem plateia.
Sem atuação.
Sem desculpa.
— Isso não faz parte do contrato — ela murmurou.
— Não faz.
— Então para.
— Você quer que eu pare?
Pausa.
Ela hesitou.
Um segundo.
Erro.
— Eu…
Ele se aproximou mais.
Agora não tinha espaço.
Respiração misturada.
Olhar preso.
— Diz pra eu parar — ele disse, baixo.
Ela abriu a boca.
Mas não saiu som.
E isso…
já era uma resposta.
Ele inclinou o rosto.
Devagar.
Muito devagar.
Quase.
Quase.
Quase—
— LUNA!
Bruna surgiu do nada.
Como um raio.
Como um desastre.
Como sempre.
Os dois se afastaram na mesma hora.
Rápido demais.
Suspeito demais.
— EU TAVA PROCURANDO VOCÊ!
Luna piscou.
Ainda meio perdida.
— Claro que tava.
Bruna olhou pros dois.
Depois pra distância.
Depois de volta.
— Eu interrompi alguma coisa?
— NÃO — Luna respondeu rápido demais.
Enrico ficou em silêncio.
Bruna sorriu.
— Interrompi sim.
— Você nunca ajuda.
— Eu ajudo o caos.
Do outro lado…
Matteo apareceu.
— O que aconteceu?
Bruna respondeu:
— Quase beijo.
— De novo?
— Agora foi sério.
Matteo passou a mão no rosto.
— Isso vai acabar m*l.
Bruna deu de ombros.
— Ou muito bem.
Na varanda…
Luna respirou fundo.
— Isso não pode acontecer.
Enrico concordou.
— Não.
Silêncio.
— Então não acontece — ela disse.
— Não acontece.
Pausa.
Eles se olharam.
De novo.
E ignoraram completamente o que tinham acabado de sentir.
— Vamos voltar — ele disse.
— Vamos.
Mas ninguém se mexeu por alguns segundos.
Porque ambos sabiam:
O problema já não era mais fingir.
Era parar de sentir.