O escritório parecia o mesmo.
Mesmas mesas.
Mesmas pessoas.
Mesma rotina.
Mas nada estava igual.
— Ela não veio — Bruna disse, olhando o relógio pela terceira vez.
— Eu sei — Matteo respondeu.
— Ela nunca atrasa.
— Eu sei.
Silêncio.
— Isso é r**m.
— Muito.
Na sala dele…
Enrico estava parado.
Imóvel.
Sem trabalhar.
Sem falar.
Só… ali.
— Você vai fazer alguma coisa? — Matteo perguntou, entrando.
— Ela pediu demissão?
— Ainda não.
Silêncio.
— Então ela volta.
Matteo o encarou.
— Você realmente acredita nisso?
Pausa.
Curta.
Frágil.
— Sim.
Mentira.
Do outro lado da cidade…
Luna estava sentada no sofá.
De pijama.
Cabelo bagunçado.
Celular na mão.
Sem coragem de abrir nada.
— Eu odeio isso — ela murmurou.
— Você odeia ele — Bruna respondeu, entrando sem bater.
— Eu odeio tudo.
— Justo.
Silêncio.
Bruna sentou ao lado.
— Você vai voltar?
Pausa.
Longa.
— Não.
— Não mesmo?
— Não.
Silêncio.
— Você vai desistir assim?
Luna riu.
Baixo.
Sem humor.
— Ele desistiu primeiro.
— Ele não desistiu — Bruna disse.
— Ele escolheu outra.
— Por estratégia.
— Sempre estratégia.
Silêncio.
— Você ainda gosta dele.
Pausa.
Luna não respondeu.
E isso…
já era resposta.
— Então por que você não luta? — Bruna perguntou.
Ela olhou pra amiga.
Cansada.
Sincera.
— Porque eu não vou implorar pra alguém sentir algo por mim.
Silêncio.
— E eu já lutei o suficiente sozinha
Do outro lado…
— Ela não vai voltar — Matteo disse.
— Vai.
— Não vai.
— Vai.
— Você tá repetindo isso pra convencer quem?
Silêncio.
Enrico desviou o olhar.
— Eu errei.
Pausa.
Matteo ficou quieto.
Porque aquilo…
era raro.
— Sim — ele disse.
— E eu não sei como consertar.
Silêncio.
Mais raro ainda.
— Então começa tentando — Matteo disse.
— Ela não quer falar comigo.
— Você também não quis antes.
Silêncio.
Direto.
Sem defesa.
Mais tarde…
Chuva.
De novo.
Sempre.
Enrico estava na frente do prédio dela.
Parado.
Pensando.
Respirando fundo.
Sem saber.
E isso…
era novo.
Ele bateu.
Uma vez.
Duas.
Três.
Silêncio.
Nada.
— Luna.
Nada.
Mais silêncio.
Do outro lado da porta…
Ela estava ali.
Encostada.
Ouvindo.
Sentindo.
Mas não abrindo.
— Eu sei que você tá aí — ele disse.
Baixo.
Sem força.
— Eu só… preciso falar.
Silêncio.
— Eu não fiz aquilo por querer.
Nada.
— Eu fiz porque achei que era o certo.
Nada.
— Mas eu tava errado.
Pausa.
Longa.
Dolorosa.
Do lado de dentro…
lágrimas.
Silenciosas.
Contidas.
Reais.
— Você não merece isso — ele continuou.
— Você merece alguém que escolha você.
Silêncio.
— E eu não fiz isso.
Direto.
Pesado.
Tarde demais.
A mão dela foi até a maçaneta.
Parou.
Tremeu.
Mas não abriu.
— Eu não vou insistir — ele disse.
— Porque eu já fiz isso demais… do jeito errado.
Pausa.
— Mas eu precisava dizer.
Silêncio.
Último.
— Me desculpa, Luna.
Passos.
Se afastando.
Indo embora.
Do lado de dentro…
ela abriu a porta.
Rápido.
Mas—
tarde.
Ele já estava indo.
Sem olhar pra trás.
— i****a… — ela murmurou.
Com um sorriso triste.
E os olhos cheios.
Do outro lado…
Bruna estava no telefone com Matteo.
— E aí?
— Ele foi.
— E ela?
— Não abriu.
Silêncio.
— Eles são muito teimosos.
— Muito.
E naquele momento…
os dois estavam certos.
Porque os dois sentiram.
Os dois erraram.
Os dois quiseram.
Mas nenhum…
soube agir na hora certa.
E agora?
Agora o problema não era mais o orgulho.
Nem o contrato.
Nem o escândalo.
Era o tempo.
E esse…
não espera ninguém.
O tempo passou.
Pouco.
Mas o suficiente pra parecer muito.
No escritório…
Tudo continuava funcionando.
Sem Luna.
E isso já era estranho o bastante.
— Isso aqui tá sem graça — Bruna disse, largando o corpo na cadeira.
— Isso aqui tá eficiente — Matteo respondeu.
— Eu odeio eficiência.
— Eu percebi.
Silêncio.
— Ela não volta mesmo, né?
Pausa.
— Não — Matteo respondeu.
E dessa vez…
ele tinha certeza.
Na sala do CEO…
Enrico estava trabalhando.
Muito.
Mais do que o normal.
Mais do que o saudável.
— Você vai quebrar — Matteo disse, entrando.
— Não.
— Vai sim.
— Eu tô ocupado.
— Você tá evitando.
Silêncio.
— Eu já tentei.
— Do seu jeito.
— Do jeito que eu sei.
— Esse é o problema.
Pausa.
— Eu não sei outro.
Silêncio.
E isso…
era verdade.
Do outro lado da cidade…
Luna estava diferente.
Arrumada.
Decidida.
Tentando.
— Eu consegui uma entrevista — ela disse.
— Onde? — Bruna perguntou.
— Outra empresa.
Silêncio.
— Você vai sair mesmo?
— Eu já saí.
— Não oficialmente.
— Pra mim já é oficial.
Pausa.
Bruna olhou pra ela.
Com cuidado.
— Você tá bem?
Luna sorriu.
Pequeno.
Treinado.
— Tô ótima.
Mentira.
— Ele não veio mais? — Bruna perguntou.
— Não.
Silêncio.
Curto.
Pesado.
— Ainda bem.
Mais silêncio.
— …ainda bem — ela repetiu.
Mas não parecia.
Mais tarde…
Novo prédio.
Nova recepção.
Nova chance.
Ou pelo menos…
a tentativa.
— Boa sorte — Bruna disse.
— Eu não preciso de sorte.
— Precisa sim.
— Tá, um pouco.
Elas riram.
Leve.
Pela primeira vez em dias.
Na entrevista…
— Você trabalhou com Enrico Bianchi — o entrevistador disse.
— Sim.
— Deve ter sido intenso.
Pausa.
Ela pensou.
Respirou.
E respondeu:
— Foi… desafiador.
Meia verdade.
— E por que saiu?
Silêncio.
Pergunta simples.
Resposta impossível.
— Eu precisava de algo novo.
Mentira.
Mas aceitável.
Do outro lado…
— Ela tá indo pra outra empresa — Matteo disse.
Silêncio.
Enrico parou.
Mas não levantou a cabeça.
— Entendi.
— Só isso?
— O que você quer que eu faça?
— Alguma coisa.
— Eu já fiz.
— Não fez o suficiente.
Silêncio.
— Ela tá seguindo em frente — Matteo continuou.
Pausa.
Curta.
— Então eu também sigo.
Mentira.
Fraca.
Mas ele disse mesmo assim.
Fim do dia…
Luna saiu da entrevista.
Respirou fundo.
Olhou o céu.
— Eu consigo.
Baixo.
Pra si mesma.
— Eu consigo seguir.
Mas não convenceu nem ela mesma.
No caminho…
Ela passou por um café.
Parou.
Porque lembrou.
Claro que lembrou.
Do primeiro dia.
Do café derramado.
Do começo de tudo.
— Que ótimo — ela murmurou — até o café agora me persegue.
Ela riu.
Sozinha.
Triste.
Do outro lado…
Enrico estava no escritório vazio.
Tarde demais.
Escuro demais.
Quieto demais.
Ele olhou pra mesa dela.
Intacta.
Sem bagunça.
Sem vida.
— Isso não era pra acontecer — ele disse, baixo.
Mas aconteceu.
Dois mundos separados.
Duas rotinas novas.
Duas tentativas de seguir.
Mas o problema de “seguir em frente”…
é quando o coração não acompanha.
E os dois sabiam:
Podiam mudar de lugar.
De rotina.
De plano.
Mas não conseguiam mudar…
o que ainda sentiam.
E isso?
Isso ainda ia voltar pra cobrar.