Se tinha uma coisa que Luna sabia fazer bem…
Era evitar problemas.
Mentira.
Ela sabia criar problemas.
E naquela manhã…
ela estava pronta pra um dos maiores.
— Bom dia — Bruna disse, animada demais.
— Não fala comigo.
— Ih, acordou violenta.
— Eu não dormi.
— Normal.
— Eu quase beijei ele.
— Também normal.
— NÃO É NORMAL!
— Pra você é.
— Cala a boca.
Matteo apareceu.
— Eu sinto tensão.
— Você sempre sente — Bruna respondeu.
— Porque sempre tem.
A porta da sala do CEO estava aberta.
Convite perfeito.
Erro garantido.
Luna entrou.
Sem bater.
Sem pensar.
— A gente precisa conversar.
Enrico levantou os olhos.
Calmo.
Controlado.
Frio.
— Eu imaginei.
— Ótimo. Então vamos resolver isso.
— Resolver o quê?
Silêncio.
Perigoso.
— PARA DE SE FAZER DE SONSO.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Cuidado com o tom.
— Cuidado você.
— Eu estou calmo.
— Esse é o problema!
Silêncio.
Ele fechou o tablet devagar.
— Explique.
Ela riu.
Sem humor nenhum.
— Você aparece na minha casa de madrugada, fala coisas que não devia, quase me beija… e hoje tá aí, como se nada tivesse acontecido?!
— Eu estou sendo profissional.
— VOCÊ TÁ SENDO UMA GELADEIRA EMOCIONAL!
Silêncio.
Pesado.
Ele travou.
Por meio segundo.
— Isso é infantil.
— NÃO, ISSO É HONESTO!
Ela começou a andar pela sala.
Agitada.
Explodindo.
— Você não pode simplesmente desligar o que aconteceu!
— Eu não desliguei.
— Parece que desligou!
— Eu estou controlando.
— VOCÊ TÁ FINGINDO!
Silêncio.
Ele levantou.
Devagar.
Perigoso.
— E você está o quê?
Pausa.
— Eu… — ela travou — eu tô tentando entender!
— Entender o quê?
— ISSO!
Silêncio.
Ela apontou entre os dois.
— Isso aqui! Essa tensão, esse caos, esse… esse negócio que não deveria existir!
— E por que não deveria?
Silêncio.
Ela travou.
Respiração falhando.
— Porque… — pausa — porque é uma péssima ideia.
— Isso não é uma resposta.
— É sim.
— Não é.
— É a única que você vai ter.
Silêncio.
Pesado.
Intenso.
Ele deu um passo à frente.
Ela não recuou.
Claro que não.
— Você quer que eu diga o quê, Luna? — ele perguntou, baixo — que eu não senti nada?
Pausa.
— Você sentiu?
Silêncio.
Ele hesitou.
Erro.
— Isso não importa.
— IMPORTA SIM!
— Não muda nada.
— MUDA TUDO!
Silêncio.
Ela chegou mais perto.
Mais intensa.
Mais verdadeira.
— Você me olha como se fosse me beijar… e no segundo seguinte age como se eu fosse só mais uma funcionária!
— Porque você é.
Silêncio.
Fatal.
Errado.
Muito errado.
Ela travou.
Os olhos mudaram.
— …ah.
Pausa.
Curta.
Fria.
— Entendi.
Ele percebeu.
Tarde demais.
— Não foi isso que eu quis dizer—
— Foi sim.
— Não—
— FOI.
Silêncio.
Ela deu um passo pra trás.
— Eu sou só sua secretária.
— Luna—
— E uma noiva de mentira.
— Você sabe que não é só isso.
— Não sei não.
Silêncio.
Ela riu.
Amargo.
— Sabe qual é o seu problema?
— Qual?
— Você sente… mas não sabe lidar.
Silêncio.
— E aí você finge que não sente nada.
— Isso é controle.
— Isso é covardia.
Silêncio.
Pesado.
Direto.
Sem defesa.
Ele se aproximou de novo.
Agora mais rápido.
— Não me chama de covarde.
— Então para de agir como um!
— Você não sabe o que está dizendo.
— Eu sei exatamente!
— Você acha que isso é fácil pra mim?
— NÃO, MAS PRA MIM TAMBÉM NÃO É!
Silêncio.
Explosão contida.
— Eu não posso perder o controle — ele disse, baixo.
— Então não começa algo que você não consegue controlar!
Pausa.
Longa.
Dolorosa.
— Talvez eu já tenha começado.
Silêncio.
Ela travou.
De novo.
Mas dessa vez…
não era raiva.
Era pior.
— Então termina — ela disse.
Baixo.
Difícil.
Ele não respondeu.
Não conseguiu.
E isso…
já era uma resposta.
Ela respirou fundo.
Tentando se recompor.
— A gente precisa voltar pro contrato.
— Luna—
— Só contrato.
— Isso não funciona mais.
— FUNCIONA SIM!
Silêncio.
Ela olhou pra ele.
Última vez.
— Porque é a única coisa que a gente tem.
Pausa.
— O resto?
Ela deu um sorriso pequeno.
Triste.
— Nunca foi real.
Silêncio.
Pesado.
Ela virou.
E saiu.
Sem olhar pra trás.
Do lado de fora…
Bruna levantou na hora.
— O QUE ACONTECEU?!
Luna passou direto.
— Nada.
— MENTIRA!
— Depois.
Matteo olhou pra Enrico dentro da sala.
Parado.
Imóvel.
Diferente.
— Isso não foi bom — ele disse.
Bruna respondeu:
— Foi péssimo.
Pausa.
— E necessário.
Dentro da sala…
Enrico ficou sozinho.
Silêncio absoluto.
Ele passou a mão no rosto.
Respirou fundo.
Mas dessa vez…
não adiantou.
Porque pela primeira vez…
ele não estava no controle.
E Luna?
Também não.
E agora…
não era mais tensão.
Era ferida.
E isso…
era muito mais difícil de fingir.
A festa era absurda.
Luzes douradas, música elegante, gente rica fingindo felicidade… e tensão suficiente pra derrubar um prédio.
— Eu não devia ter vindo — Luna murmurou, ajustando a saia.
— Você tinha que vir — Bruna respondeu — você é a noiva fake mais famosa do momento.
— Eu odeio isso.
— Você ama um pouco.
— Eu odeio mais.
Matteo apareceu, impecável como sempre.
— Ele já chegou.
Silêncio.
Luna travou.
— Ótimo.
— Você quer ir embora? — Bruna perguntou.
Pausa.
Curta.
Orgulho maior.
— Não.
— Boa — Bruna sorriu — gosto quando você escolhe o caos.
Do outro lado do salão…
Enrico já estava lá.
Perfeito.
Intocável.
Frio.
E claramente fingindo que nada tinha acontecido.
— Ele tá no modo CEO — Matteo comentou.
— Ele sempre tá — Bruna respondeu.
— Hoje está pior.
— Hoje ele apanhou emocionalmente.
— Isso não melhora.
Luna entrou.
E o salão inteiro notou.
Mas ele…
notou primeiro.
Claro que notou.
Os olhos dele encontraram os dela.
Direto.
Sem fuga.
Sem disfarce.
E ali…
tinha tudo que eles não tinham resolvido.
— Anda — Bruna empurrou — você não vai fugir agora.
— Eu nunca fujo.
— Eu sei.
— Eu faço pior.
Luna caminhou até ele.
Calma.
Confiante.
Como se nada tivesse acontecido.
Mentira.
— Boa noite, noivo — ela disse.
Formal.
Fria.
Perfeita.
Ele respondeu no mesmo tom:
— Boa noite, noiva.
Silêncio.
Cortante.
— Vamos começar? — ele perguntou.
— Sempre.
Ele ofereceu o braço.
Ela segurou.
Mas dessa vez…
não teve leveza.
Só tensão.
— Eles brigaram — Bruna cochichou.
— Eu percebi — Matteo respondeu.
— Isso vai piorar.
— Já está pior.
— Sorria — Enrico murmurou.
— Não.
— Tem gente olhando.
— Problema deles.
— Nosso problema.
— Eu não me importo hoje.
Silêncio.
— Você deveria.
— E você deveria parar de fingir.
Ele apertou levemente a mão dela.
Aviso.
Ela ignorou.
Claro.
— Controle-se — ele disse, baixo.
— Você perdeu o direito de pedir isso.
Silêncio.
Pesado.
— Enrico!
Isabella voltou.
Porque o universo odeia paz.
— Que bom te ver — ela disse, ignorando Luna.
Erro.
Grave erro.
— Ele também acha — Luna respondeu.
Isabella forçou um sorriso.
— Ainda aqui?
— Ainda noiva.
— Impressionante.
— Eu sei.
Clima tenso.
De novo.
— Podemos conversar? — Isabella perguntou pra ele.
— Não — Luna respondeu.
Enrico não interrompeu.
Só observou.
— Isso é ridículo — Isabella disse.
— Funciona — Luna rebateu.
Silêncio.
Isabella se aproximou um pouco mais de Enrico.
Demais.
— Você merece algo melhor.
Pausa.
Luna riu.
Sem humor.
— E você acha que é isso?
Silêncio.
Enrico ficou entre as duas.
Literalmente.
— Chega — ele disse.
Mas não parecia suficiente.
Mais tarde…
Pista de dança.
Erro garantido.
— Vamos dançar — Enrico disse.
— Não.
— Precisamos.
— Eu não quero.
— Eu também não.
— Ótimo, então—
— Mas vamos.
Silêncio.
Ele puxou.
Ela foi.
Contra a vontade.
Ou nem tanto.
A música começou.
Lenta.
Perigosa.
Ele colocou a mão na cintura dela.
Ela segurou o ombro dele.
Distância mínima.
Respiração presa.
— Você tá me evitando — ele disse.
— Você também.
— Eu estou trabalhando.
— Eu também.
— Isso não é trabalho.
— Pra mim é.
Silêncio.
— Você quis voltar pro contrato.
— E você aceitou.
— Porque você pediu.
— Porque você não quis lutar.
Silêncio.
Pesado.
Ele apertou levemente a cintura dela.
— Você acha que isso é fácil pra mim?
— Não.
— Então por que você age como se fosse?
— Porque você age como se não sentisse nada!
Silêncio.
A música continuava.
Mas ali…
o mundo tinha parado.
— Eu sinto — ele disse.
Baixo.
Direto.
Perigoso.
Ela travou.
— Então por que você não faz nada?
Pausa.
Longa.
Difícil.
— Porque se eu fizer… eu não paro.
Silêncio.
Ela sentiu.
De verdade.
— Então para agora — ela disse.
Mas não se afastou.
Erro.
Do outro lado…
— Eles vão se beijar — Bruna disse.
— Ou brigar — Matteo respondeu.
— Ou os dois.
— Isso é um padrão?
— Total.
Na pista…
Eles estavam perto demais.
De novo.
Sempre assim.
— Isso é uma péssima ideia — Luna murmurou.
— Eu sei.
— Então me solta.
— Você quer que eu solte?
Pausa.
Ela hesitou.
De novo.
— Eu…
Ele não soltou.
Ela também não saiu.
Silêncio.
Tensão.
Quase.
Mas dessa vez…
ninguém interrompeu.
Só não aconteceu.
Por pouco.
A música acabou.
Eles se afastaram.
Rápido.
Frio.
Como se nada tivesse acontecido.
De novo.
Sempre.
— Isso não pode continuar — ela disse.
— Não vai.
— Promete?
Silêncio.
Ele não respondeu.
E ela entendeu.
Do outro lado…
Bruna suspirou.
— Eles são complicados.
Matteo concordou.
— Muito.
— Mas são bonitos juntos.
— Isso piora tudo.
E naquela noite…
não teve beijo.
Não teve resolução.
Não teve paz.
Só tensão.
Desejo contido.
E palavras que ninguém teve coragem de dizer.
Porque às vezes…
o problema não é o que acontece.
É o que quase acontece…
o tempo todo.