Oito

1689 Words
Se tinha uma coisa que Luna sabia fazer bem… Era evitar problemas. Mentira. Ela sabia criar problemas. E naquela manhã… ela estava pronta pra um dos maiores. — Bom dia — Bruna disse, animada demais. — Não fala comigo. — Ih, acordou violenta. — Eu não dormi. — Normal. — Eu quase beijei ele. — Também normal. — NÃO É NORMAL! — Pra você é. — Cala a boca. Matteo apareceu. — Eu sinto tensão. — Você sempre sente — Bruna respondeu. — Porque sempre tem. A porta da sala do CEO estava aberta. Convite perfeito. Erro garantido. Luna entrou. Sem bater. Sem pensar. — A gente precisa conversar. Enrico levantou os olhos. Calmo. Controlado. Frio. — Eu imaginei. — Ótimo. Então vamos resolver isso. — Resolver o quê? Silêncio. Perigoso. — PARA DE SE FAZER DE SONSO. Ele arqueou a sobrancelha. — Cuidado com o tom. — Cuidado você. — Eu estou calmo. — Esse é o problema! Silêncio. Ele fechou o tablet devagar. — Explique. Ela riu. Sem humor nenhum. — Você aparece na minha casa de madrugada, fala coisas que não devia, quase me beija… e hoje tá aí, como se nada tivesse acontecido?! — Eu estou sendo profissional. — VOCÊ TÁ SENDO UMA GELADEIRA EMOCIONAL! Silêncio. Pesado. Ele travou. Por meio segundo. — Isso é infantil. — NÃO, ISSO É HONESTO! Ela começou a andar pela sala. Agitada. Explodindo. — Você não pode simplesmente desligar o que aconteceu! — Eu não desliguei. — Parece que desligou! — Eu estou controlando. — VOCÊ TÁ FINGINDO! Silêncio. Ele levantou. Devagar. Perigoso. — E você está o quê? Pausa. — Eu… — ela travou — eu tô tentando entender! — Entender o quê? — ISSO! Silêncio. Ela apontou entre os dois. — Isso aqui! Essa tensão, esse caos, esse… esse negócio que não deveria existir! — E por que não deveria? Silêncio. Ela travou. Respiração falhando. — Porque… — pausa — porque é uma péssima ideia. — Isso não é uma resposta. — É sim. — Não é. — É a única que você vai ter. Silêncio. Pesado. Intenso. Ele deu um passo à frente. Ela não recuou. Claro que não. — Você quer que eu diga o quê, Luna? — ele perguntou, baixo — que eu não senti nada? Pausa. — Você sentiu? Silêncio. Ele hesitou. Erro. — Isso não importa. — IMPORTA SIM! — Não muda nada. — MUDA TUDO! Silêncio. Ela chegou mais perto. Mais intensa. Mais verdadeira. — Você me olha como se fosse me beijar… e no segundo seguinte age como se eu fosse só mais uma funcionária! — Porque você é. Silêncio. Fatal. Errado. Muito errado. Ela travou. Os olhos mudaram. — …ah. Pausa. Curta. Fria. — Entendi. Ele percebeu. Tarde demais. — Não foi isso que eu quis dizer— — Foi sim. — Não— — FOI. Silêncio. Ela deu um passo pra trás. — Eu sou só sua secretária. — Luna— — E uma noiva de mentira. — Você sabe que não é só isso. — Não sei não. Silêncio. Ela riu. Amargo. — Sabe qual é o seu problema? — Qual? — Você sente… mas não sabe lidar. Silêncio. — E aí você finge que não sente nada. — Isso é controle. — Isso é covardia. Silêncio. Pesado. Direto. Sem defesa. Ele se aproximou de novo. Agora mais rápido. — Não me chama de covarde. — Então para de agir como um! — Você não sabe o que está dizendo. — Eu sei exatamente! — Você acha que isso é fácil pra mim? — NÃO, MAS PRA MIM TAMBÉM NÃO É! Silêncio. Explosão contida. — Eu não posso perder o controle — ele disse, baixo. — Então não começa algo que você não consegue controlar! Pausa. Longa. Dolorosa. — Talvez eu já tenha começado. Silêncio. Ela travou. De novo. Mas dessa vez… não era raiva. Era pior. — Então termina — ela disse. Baixo. Difícil. Ele não respondeu. Não conseguiu. E isso… já era uma resposta. Ela respirou fundo. Tentando se recompor. — A gente precisa voltar pro contrato. — Luna— — Só contrato. — Isso não funciona mais. — FUNCIONA SIM! Silêncio. Ela olhou pra ele. Última vez. — Porque é a única coisa que a gente tem. Pausa. — O resto? Ela deu um sorriso pequeno. Triste. — Nunca foi real. Silêncio. Pesado. Ela virou. E saiu. Sem olhar pra trás. Do lado de fora… Bruna levantou na hora. — O QUE ACONTECEU?! Luna passou direto. — Nada. — MENTIRA! — Depois. Matteo olhou pra Enrico dentro da sala. Parado. Imóvel. Diferente. — Isso não foi bom — ele disse. Bruna respondeu: — Foi péssimo. Pausa. — E necessário. Dentro da sala… Enrico ficou sozinho. Silêncio absoluto. Ele passou a mão no rosto. Respirou fundo. Mas dessa vez… não adiantou. Porque pela primeira vez… ele não estava no controle. E Luna? Também não. E agora… não era mais tensão. Era ferida. E isso… era muito mais difícil de fingir. A festa era absurda. Luzes douradas, música elegante, gente rica fingindo felicidade… e tensão suficiente pra derrubar um prédio. — Eu não devia ter vindo — Luna murmurou, ajustando a saia. — Você tinha que vir — Bruna respondeu — você é a noiva fake mais famosa do momento. — Eu odeio isso. — Você ama um pouco. — Eu odeio mais. Matteo apareceu, impecável como sempre. — Ele já chegou. Silêncio. Luna travou. — Ótimo. — Você quer ir embora? — Bruna perguntou. Pausa. Curta. Orgulho maior. — Não. — Boa — Bruna sorriu — gosto quando você escolhe o caos. Do outro lado do salão… Enrico já estava lá. Perfeito. Intocável. Frio. E claramente fingindo que nada tinha acontecido. — Ele tá no modo CEO — Matteo comentou. — Ele sempre tá — Bruna respondeu. — Hoje está pior. — Hoje ele apanhou emocionalmente. — Isso não melhora. Luna entrou. E o salão inteiro notou. Mas ele… notou primeiro. Claro que notou. Os olhos dele encontraram os dela. Direto. Sem fuga. Sem disfarce. E ali… tinha tudo que eles não tinham resolvido. — Anda — Bruna empurrou — você não vai fugir agora. — Eu nunca fujo. — Eu sei. — Eu faço pior. Luna caminhou até ele. Calma. Confiante. Como se nada tivesse acontecido. Mentira. — Boa noite, noivo — ela disse. Formal. Fria. Perfeita. Ele respondeu no mesmo tom: — Boa noite, noiva. Silêncio. Cortante. — Vamos começar? — ele perguntou. — Sempre. Ele ofereceu o braço. Ela segurou. Mas dessa vez… não teve leveza. Só tensão. — Eles brigaram — Bruna cochichou. — Eu percebi — Matteo respondeu. — Isso vai piorar. — Já está pior. — Sorria — Enrico murmurou. — Não. — Tem gente olhando. — Problema deles. — Nosso problema. — Eu não me importo hoje. Silêncio. — Você deveria. — E você deveria parar de fingir. Ele apertou levemente a mão dela. Aviso. Ela ignorou. Claro. — Controle-se — ele disse, baixo. — Você perdeu o direito de pedir isso. Silêncio. Pesado. — Enrico! Isabella voltou. Porque o universo odeia paz. — Que bom te ver — ela disse, ignorando Luna. Erro. Grave erro. — Ele também acha — Luna respondeu. Isabella forçou um sorriso. — Ainda aqui? — Ainda noiva. — Impressionante. — Eu sei. Clima tenso. De novo. — Podemos conversar? — Isabella perguntou pra ele. — Não — Luna respondeu. Enrico não interrompeu. Só observou. — Isso é ridículo — Isabella disse. — Funciona — Luna rebateu. Silêncio. Isabella se aproximou um pouco mais de Enrico. Demais. — Você merece algo melhor. Pausa. Luna riu. Sem humor. — E você acha que é isso? Silêncio. Enrico ficou entre as duas. Literalmente. — Chega — ele disse. Mas não parecia suficiente. Mais tarde… Pista de dança. Erro garantido. — Vamos dançar — Enrico disse. — Não. — Precisamos. — Eu não quero. — Eu também não. — Ótimo, então— — Mas vamos. Silêncio. Ele puxou. Ela foi. Contra a vontade. Ou nem tanto. A música começou. Lenta. Perigosa. Ele colocou a mão na cintura dela. Ela segurou o ombro dele. Distância mínima. Respiração presa. — Você tá me evitando — ele disse. — Você também. — Eu estou trabalhando. — Eu também. — Isso não é trabalho. — Pra mim é. Silêncio. — Você quis voltar pro contrato. — E você aceitou. — Porque você pediu. — Porque você não quis lutar. Silêncio. Pesado. Ele apertou levemente a cintura dela. — Você acha que isso é fácil pra mim? — Não. — Então por que você age como se fosse? — Porque você age como se não sentisse nada! Silêncio. A música continuava. Mas ali… o mundo tinha parado. — Eu sinto — ele disse. Baixo. Direto. Perigoso. Ela travou. — Então por que você não faz nada? Pausa. Longa. Difícil. — Porque se eu fizer… eu não paro. Silêncio. Ela sentiu. De verdade. — Então para agora — ela disse. Mas não se afastou. Erro. Do outro lado… — Eles vão se beijar — Bruna disse. — Ou brigar — Matteo respondeu. — Ou os dois. — Isso é um padrão? — Total. Na pista… Eles estavam perto demais. De novo. Sempre assim. — Isso é uma péssima ideia — Luna murmurou. — Eu sei. — Então me solta. — Você quer que eu solte? Pausa. Ela hesitou. De novo. — Eu… Ele não soltou. Ela também não saiu. Silêncio. Tensão. Quase. Mas dessa vez… ninguém interrompeu. Só não aconteceu. Por pouco. A música acabou. Eles se afastaram. Rápido. Frio. Como se nada tivesse acontecido. De novo. Sempre. — Isso não pode continuar — ela disse. — Não vai. — Promete? Silêncio. Ele não respondeu. E ela entendeu. Do outro lado… Bruna suspirou. — Eles são complicados. Matteo concordou. — Muito. — Mas são bonitos juntos. — Isso piora tudo. E naquela noite… não teve beijo. Não teve resolução. Não teve paz. Só tensão. Desejo contido. E palavras que ninguém teve coragem de dizer. Porque às vezes… o problema não é o que acontece. É o que quase acontece… o tempo todo.
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