O hospital voltou ao normal.
Ou pelo menos…
parecia.
Sem correria.
Sem gritos.
Sem perigo imediato.
Mas por dentro?
Nada estava calmo.
— Então… acabou mesmo? — Bruna perguntou, já com um pacote de biscoito na mão.
— Ele foi preso — Matteo respondeu.
— Isso não significa que eu confio.
— Nem eu.
Silêncio.
— Mas pelo menos ninguém tentou matar ninguém hoje — ela completou.
— Progresso — Matteo disse.
No quarto…
Luna estava encostada na janela.
Olhando lá fora.
Mas pensando bem longe.
— Você ficou quieta — Enrico disse.
— Eu sempre fico.
— Não desse jeito.
Silêncio.
Ela não virou.
— Só tô pensando.
— Em quê?
Pausa.
Longa.
— Em tudo.
Silêncio.
Ele tentou se sentar melhor.
Ainda fraco.
Mas atento.
— Fala comigo.
Ela virou.
Devagar.
Olhar cansado.
Mas sincero.
— A gente quase morreu.
— Eu quase morri — ele corrigiu.
— Não faz isso.
— Desculpa.
Silêncio.
— Isso mudou tudo — ela continuou.
— Eu sei.
— E eu não sei o que fazer com isso.
Pausa.
Ele respirou fundo.
— A gente não precisa resolver tudo agora.
— Mas precisa resolver.
— Eventualmente.
Silêncio.
Ela cruzou os braços.
— Eu não gosto de “eventualmente”.
— Eu sei.
— Eu gosto de respostas.
— Eu também.
— Então por que você nunca tem?
Silêncio.
Ele deu um meio sorriso.
— Porque quando se trata de você… eu travo.
Pausa.
Ela piscou.
Surpresa.
— Isso foi quase honesto.
— Eu tô melhorando.
Silêncio.
Pequeno.
Mas mais leve.
— Você escolheu — ela disse.
Baixo.
Ele olhou pra ela.
— O quê?
— Lá.
— Quando ele perguntou.
— Você não negou.
Silêncio.
Importante.
Ele não desviou.
Não dessa vez.
— Eu escolhi.
Pausa.
O ar mudou.
— Mas você não disse — ela continuou.
— Eu estou dizendo agora.
Silêncio.
Ela deu um passo mais perto.
Coração acelerando.
Mesmo depois de tudo.
— Não é a mesma coisa.
— Eu sei.
— Eu precisava ouvir antes.
— Eu sei.
Silêncio.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Você sempre chega depois.
Ele ficou quieto.
Porque dessa vez…
não tinha defesa.
— Eu tô tentando chegar agora — ele disse.
Baixo.
Ela abriu os olhos.
Olhou direto pra ele.
— E se for tarde?
Silêncio.
Pesado.
Ele respondeu:
— Eu não acho que seja.
Ela hesitou.
De novo.
Sempre.
— Eu também não acho… — ela disse — mas eu não tenho certeza.
Silêncio.
Real.
— Eu não posso me machucar de novo — ela continuou.
— Eu sei.
— E você é especialista nisso.
— Eu sei.
Silêncio.
Ele deu um leve suspiro.
— Eu não vou prometer perfeição.
— Ainda bem.
— Mas eu vou tentar ser melhor.
Pausa.
Ela analisou.
Sentiu.
Pesou.
— Você já disse isso antes.
— Não assim.
— Como assim?
Silêncio.
— Com medo de te perder de verdade.
Aquilo…
atingiu.
Ela desviou o olhar.
Mas não recuou.
— Isso não resolve tudo.
— Eu sei.
— Nem apaga o que aconteceu.
— Eu sei.
Silêncio.
— Mas… — ela começou.
Parou.
Respirou.
— …não é pouco.
Silêncio.
Diferente.
Eles estavam perto.
De novo.
Sem grito.
Sem caos.
Sem ameaça.
Só sentimento.
E dúvida.
— A gente ainda é um desastre — ela disse.
— Total.
— E provavelmente vai dar errado.
— Muito provável.
Silêncio.
Ela deu um meio sorriso.
— Ótimo.
— Ótimo.
Pausa.
Longa.
— Mas eu ainda tô aqui — ela disse.
Ele respondeu:
— Eu também.
Silêncio.
E dessa vez…
não era impulsivo.
Não era caos.
Era escolha.
Mesmo sem garantia.
Mesmo com medo.
Mesmo sem saber o final.
E talvez…
justamente por isso.
Mas o problema?
Escolher ficar…
é só o começo.
Porque manter?
Isso ainda ia ser o maior desafio deles.
Depois do caos…
veio algo ainda mais complicado:
a vida normal.
Empresa funcionando.
Reuniões voltando.
Imprensa curiosa.
E fofoca…
em nível máximo.
— Eu não acredito que isso virou notícia — Bruna disse, olhando o celular.
— Isso sempre vira notícia — Matteo respondeu.
— Mas isso aqui é um combo: CEO + escândalo + hospital + romance.
— E caos.
— Sempre caos.
No escritório…
Primeiro dia de volta.
— Você não devia estar aqui — Luna disse.
— Eu estou bem.
— Você levou uma facada.
— Foi superficial.
— NÃO FOI.
Silêncio.
— Eu precisava voltar.
— Por quê?
Pausa.
— Porque você está aqui.
Ela travou.
Pequeno.
Mas suficiente.
— Isso não é argumento.
— Pra mim é.
Silêncio.
— Você ainda é irresponsável — ela disse.
— E você ainda se preocupa.
— Eu sempre me preocupei.
— Eu sei.
Silêncio.
Mais leve.
Mas ainda intenso.
Do outro lado…
— Eles vão se beijar no meio da empresa — Bruna disse.
— Não vão — Matteo respondeu.
— Aposta?
— Não.
— Covarde.
Reunião.
Sala cheia.
Olhares curiosos.
Sussurros discretos.
— Vamos focar — Enrico disse.
Tom firme.
CEO de volta.
Luna observou.
Profissional.
Controlado.
Diferente do caos de antes.
E mesmo assim…
ela conhecia.
Sabia ler.
— Você está cansado — ela disse, baixo.
— Eu estou funcionando.
— Não é a mesma coisa.
Silêncio.
Ele olhou pra ela.
— Eu sei.
Pausa.
— Você também não está bem — ele devolveu.
— Eu estou melhor.
— Não está.
— Estou sim.
— Você não dormiu.
Silêncio.
— Você também não.
— Justo.
Do outro lado…
— Eu amo quando eles brigam baixinho — Bruna disse.
— Isso não é saudável — Matteo respondeu.
— Nada nisso é.
Fim da reunião…
Corredor vazio.
De novo.
Sempre eles.
— Isso aqui tá estranho — Luna disse.
— O quê?
— A gente… tentando ser normal.
— A gente nunca foi normal.
— Eu sei.
Silêncio.
Ela encostou na parede.
Cansada.
Real.
— Eu achei que depois de tudo… ia ficar mais fácil.
— E ficou?
— Não.
Silêncio
— Ficou mais… sério.
Ele assentiu.
— Porque agora não dá pra fingir.
Pausa.
Ela olhou pra ele.
— Você não tá fingindo?
Silêncio.
Importante.
Ele respondeu:
— Não mais.
Ela analisou.
De verdade.
— Eu ainda tenho medo.
— Eu também.
— Isso não ajuda.
— Mas é honesto.
Silêncio.
Ela respirou fundo.
— A gente não tem rótulo.
— Não.
— Não tem definição.
— Não.
— E mesmo assim…
Pausa.
— …todo mundo já decidiu por nós.
Silêncio.
— E você? — ele perguntou.
— Eu o quê?
— Já decidiu?
Pausa.
Longa.
Difícil.
Ela respondeu:
— Eu estou decidindo.
Silêncio.
Ele deu um meio sorriso.
— Eu vou aceitar isso.
— Ainda bem.
Do outro lado…
— Isso foi quase uma declaração — Bruna disse.
— “Quase” é o sobrenome deles — Matteo respondeu.
De volta…
Eles estavam próximos.
De novo.
Mas dessa vez…
sem urgência.
— A gente ainda vai errar muito — Luna disse.
— Com certeza.
— E talvez não funcione.
— Possível.
Silêncio.
Ela deu um pequeno sorriso.
— Mas eu ainda não quero sair disso.
Ele respondeu:
— Nem eu.
Silêncio.
E ali…
no meio da empresa…
sem contrato.
sem obrigação.
eles escolheram continuar.
Não porque era fácil.
Não porque era certo.
Mas porque…
mesmo depois de tudo…
ainda valia o risco.
E isso?
Isso ainda não era um final.
Era só mais um começo complicado.