Vinte

1227 Words
O hospital voltou ao normal. Ou pelo menos… parecia. Sem correria. Sem gritos. Sem perigo imediato. Mas por dentro? Nada estava calmo. — Então… acabou mesmo? — Bruna perguntou, já com um pacote de biscoito na mão. — Ele foi preso — Matteo respondeu. — Isso não significa que eu confio. — Nem eu. Silêncio. — Mas pelo menos ninguém tentou matar ninguém hoje — ela completou. — Progresso — Matteo disse. No quarto… Luna estava encostada na janela. Olhando lá fora. Mas pensando bem longe. — Você ficou quieta — Enrico disse. — Eu sempre fico. — Não desse jeito. Silêncio. Ela não virou. — Só tô pensando. — Em quê? Pausa. Longa. — Em tudo. Silêncio. Ele tentou se sentar melhor. Ainda fraco. Mas atento. — Fala comigo. Ela virou. Devagar. Olhar cansado. Mas sincero. — A gente quase morreu. — Eu quase morri — ele corrigiu. — Não faz isso. — Desculpa. Silêncio. — Isso mudou tudo — ela continuou. — Eu sei. — E eu não sei o que fazer com isso. Pausa. Ele respirou fundo. — A gente não precisa resolver tudo agora. — Mas precisa resolver. — Eventualmente. Silêncio. Ela cruzou os braços. — Eu não gosto de “eventualmente”. — Eu sei. — Eu gosto de respostas. — Eu também. — Então por que você nunca tem? Silêncio. Ele deu um meio sorriso. — Porque quando se trata de você… eu travo. Pausa. Ela piscou. Surpresa. — Isso foi quase honesto. — Eu tô melhorando. Silêncio. Pequeno. Mas mais leve. — Você escolheu — ela disse. Baixo. Ele olhou pra ela. — O quê? — Lá. — Quando ele perguntou. — Você não negou. Silêncio. Importante. Ele não desviou. Não dessa vez. — Eu escolhi. Pausa. O ar mudou. — Mas você não disse — ela continuou. — Eu estou dizendo agora. Silêncio. Ela deu um passo mais perto. Coração acelerando. Mesmo depois de tudo. — Não é a mesma coisa. — Eu sei. — Eu precisava ouvir antes. — Eu sei. Silêncio. Ela fechou os olhos por um segundo. — Você sempre chega depois. Ele ficou quieto. Porque dessa vez… não tinha defesa. — Eu tô tentando chegar agora — ele disse. Baixo. Ela abriu os olhos. Olhou direto pra ele. — E se for tarde? Silêncio. Pesado. Ele respondeu: — Eu não acho que seja. Ela hesitou. De novo. Sempre. — Eu também não acho… — ela disse — mas eu não tenho certeza. Silêncio. Real. — Eu não posso me machucar de novo — ela continuou. — Eu sei. — E você é especialista nisso. — Eu sei. Silêncio. Ele deu um leve suspiro. — Eu não vou prometer perfeição. — Ainda bem. — Mas eu vou tentar ser melhor. Pausa. Ela analisou. Sentiu. Pesou. — Você já disse isso antes. — Não assim. — Como assim? Silêncio. — Com medo de te perder de verdade. Aquilo… atingiu. Ela desviou o olhar. Mas não recuou. — Isso não resolve tudo. — Eu sei. — Nem apaga o que aconteceu. — Eu sei. Silêncio. — Mas… — ela começou. Parou. Respirou. — …não é pouco. Silêncio. Diferente. Eles estavam perto. De novo. Sem grito. Sem caos. Sem ameaça. Só sentimento. E dúvida. — A gente ainda é um desastre — ela disse. — Total. — E provavelmente vai dar errado. — Muito provável. Silêncio. Ela deu um meio sorriso. — Ótimo. — Ótimo. Pausa. Longa. — Mas eu ainda tô aqui — ela disse. Ele respondeu: — Eu também. Silêncio. E dessa vez… não era impulsivo. Não era caos. Era escolha. Mesmo sem garantia. Mesmo com medo. Mesmo sem saber o final. E talvez… justamente por isso. Mas o problema? Escolher ficar… é só o começo. Porque manter? Isso ainda ia ser o maior desafio deles. Depois do caos… veio algo ainda mais complicado: a vida normal. Empresa funcionando. Reuniões voltando. Imprensa curiosa. E fofoca… em nível máximo. — Eu não acredito que isso virou notícia — Bruna disse, olhando o celular. — Isso sempre vira notícia — Matteo respondeu. — Mas isso aqui é um combo: CEO + escândalo + hospital + romance. — E caos. — Sempre caos. No escritório… Primeiro dia de volta. — Você não devia estar aqui — Luna disse. — Eu estou bem. — Você levou uma facada. — Foi superficial. — NÃO FOI. Silêncio. — Eu precisava voltar. — Por quê? Pausa. — Porque você está aqui. Ela travou. Pequeno. Mas suficiente. — Isso não é argumento. — Pra mim é. Silêncio. — Você ainda é irresponsável — ela disse. — E você ainda se preocupa. — Eu sempre me preocupei. — Eu sei. Silêncio. Mais leve. Mas ainda intenso. Do outro lado… — Eles vão se beijar no meio da empresa — Bruna disse. — Não vão — Matteo respondeu. — Aposta? — Não. — Covarde. Reunião. Sala cheia. Olhares curiosos. Sussurros discretos. — Vamos focar — Enrico disse. Tom firme. CEO de volta. Luna observou. Profissional. Controlado. Diferente do caos de antes. E mesmo assim… ela conhecia. Sabia ler. — Você está cansado — ela disse, baixo. — Eu estou funcionando. — Não é a mesma coisa. Silêncio. Ele olhou pra ela. — Eu sei. Pausa. — Você também não está bem — ele devolveu. — Eu estou melhor. — Não está. — Estou sim. — Você não dormiu. Silêncio. — Você também não. — Justo. Do outro lado… — Eu amo quando eles brigam baixinho — Bruna disse. — Isso não é saudável — Matteo respondeu. — Nada nisso é. Fim da reunião… Corredor vazio. De novo. Sempre eles. — Isso aqui tá estranho — Luna disse. — O quê? — A gente… tentando ser normal. — A gente nunca foi normal. — Eu sei. Silêncio. Ela encostou na parede. Cansada. Real. — Eu achei que depois de tudo… ia ficar mais fácil. — E ficou? — Não. Silêncio — Ficou mais… sério. Ele assentiu. — Porque agora não dá pra fingir. Pausa. Ela olhou pra ele. — Você não tá fingindo? Silêncio. Importante. Ele respondeu: — Não mais. Ela analisou. De verdade. — Eu ainda tenho medo. — Eu também. — Isso não ajuda. — Mas é honesto. Silêncio. Ela respirou fundo. — A gente não tem rótulo. — Não. — Não tem definição. — Não. — E mesmo assim… Pausa. — …todo mundo já decidiu por nós. Silêncio. — E você? — ele perguntou. — Eu o quê? — Já decidiu? Pausa. Longa. Difícil. Ela respondeu: — Eu estou decidindo. Silêncio. Ele deu um meio sorriso. — Eu vou aceitar isso. — Ainda bem. Do outro lado… — Isso foi quase uma declaração — Bruna disse. — “Quase” é o sobrenome deles — Matteo respondeu. De volta… Eles estavam próximos. De novo. Mas dessa vez… sem urgência. — A gente ainda vai errar muito — Luna disse. — Com certeza. — E talvez não funcione. — Possível. Silêncio. Ela deu um pequeno sorriso. — Mas eu ainda não quero sair disso. Ele respondeu: — Nem eu. Silêncio. E ali… no meio da empresa… sem contrato. sem obrigação. eles escolheram continuar. Não porque era fácil. Não porque era certo. Mas porque… mesmo depois de tudo… ainda valia o risco. E isso? Isso ainda não era um final. Era só mais um começo complicado.
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