Um.

1432 Words
Luna Andrade estava atrasada. De novo. — Não, não, não… hoje não, universo, colabora — ela resmungava enquanto atravessava a rua quase correndo, segurando a bolsa, o celular e um copo de café que claramente era uma péssima ideia naquele momento. Salto batendo no chão, cabelo cacheado balançando descontrolado, respiração acelerada… e ainda assim, ela parou na frente do prédio. Porque, meu Deus. — Isso aqui não é uma empresa… é um monumento à humilhação de pobre — murmurou, encarando o prédio luxuoso. Vidro espelhado, gente bem vestida entrando como se fosse normal trabalhar ali, e ela… bom, ela era ela. — Tá, Luna. Você precisa desse emprego. Você vai entrar, sorrir, fingir que é uma pessoa normal e não falar besteira. Silêncio. — Você não vai conseguir, mas tenta. Ela entrou. Cinco passos depois, já tava nervosa. Dez passos depois, já tava julgando todo mundo. Quinze passos depois— PÁ. O inevitável aconteceu. Ela esbarrou em alguém. E o café… voou. Em câmera lenta. — NÃO, NÃO, NÃO—! Tarde demais. O líquido quente caiu direto em um terno impecavelmente caro. Muito caro. Ridiculamente caro. Luna congelou. Ergueu os olhos devagar… E encontrou um homem. Alto. Loiro. Elegante. Cara de poucos amigos. Cara de quem nunca derramou café na vida. Cara de problema. Muito problema. O silêncio ao redor ficou estranho. Pesado. Quase mortal. — …Eu posso explicar — ela disse, levantando a mão como se aquilo fosse resolver alguma coisa. O homem não respondeu. Ele apenas olhou para o próprio terno… lentamente. Depois para ela. E, sinceramente? Se olhar matasse, Luna já estaria sendo velada. — Você… — ele começou, com um sotaque carregado e uma voz perigosamente controlada — …acabou de jogar café em mim? Luna piscou. — Tecnicamente… foi mais um ataque surpresa do destino. Silêncio. Alguém tossiu ao fundo. Outro fingiu que não tava vendo. O homem respirou fundo, claramente tentando não cometer um crime em pleno horário comercial. — Você tem noção do que fez? — Tenho. — pausa — Mas em minha defesa… o café tava muito bom. Eu fiquei nervosa. Ele a encarou. Sem expressão. — Qual o seu nome? — Luna. — Luna o quê? — Andrade. — ela cruzou os braços levemente — E antes que você pergunte: não, não foi de propósito. Ele ignorou completamente. — Você trabalha aqui? Ela abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. — Ainda não. Uma sobrancelha dele arqueou. — Ainda? — Tô aqui pra entrevista. — deu um sorriso nervoso — Ou tava. Acho que agora virou um pedido de desculpa formal. Outro silêncio. Pesado. Desconfortável. Perigoso. Ele ajeitou o paletó molhado como se aquilo fosse um insulto pessoal. — Interessante. Ela não gostou do “interessante”. Nunca vinha coisa boa depois de um “interessante”. — Olha… eu posso pagar a lavanderia. Ou… sei lá, fazer um café melhor pra compensar— — Você acha que isso resolve? — Não. Mas eu sou otimista. Ele a encarou por mais alguns segundos. Longos segundos. Aqueles segundos que fazem você repensar todas as decisões da sua vida. Então ele disse: — Venha comigo. — Isso parece o começo de um sequestro corporativo. — Agora. — Tá bom, já tô indo, calma, chefe do FBI. Ela foi. Claro que foi. Porque quando um homem com cara de CEO irritado manda, você vai. Entraram no elevador. Silêncio. Constrangedor. Ela olhou pro painel. Depois pra parede. Depois pra ele. — Você é sempre assim ou hoje é um dia especial? Ele não respondeu. Ela suspirou. — Ok, entendi. Você é do tipo “silêncio ameaçador”. Respeito. Quando o elevador abriu, ela saiu atrás dele… e quase tropeçou. O andar era ainda mais luxuoso. — Gente… isso aqui paga quantos aluguéis? — ela sussurrou. — Entre. Ela entrou na sala. Grande. Elegante. Intimidante. E então viu. A placa na mesa. CEO — Enrico Bianchi Luna piscou. Uma vez. Duas. Três. Virou lentamente pra ele. — Ah. Pausa. — Então… — respirou fundo — eu joguei café no meu possível chefe. Ele a encarou, frio. — Possível? Ela deu um sorrisinho sem vergonha nenhuma. — Vai que você gosta de emoção. Silêncio. Mais silêncio. E então… Um leve, quase imperceptível… sorriso no canto da boca dele. Perigoso. — Sente-se, senhorita Andrade. Ela sentou. — Vamos fazer sua entrevista. Luna cruzou as pernas, apoiou o braço na cadeira e sorriu. — Ótimo. Porque se eu sobrevivi a isso… eu mereço essa vaga. Ele se inclinou levemente pra frente. Olhos fixos nela. — Veremos. E, naquele momento, Luna ainda não sabia… Mas aquele emprego? Ia acabar com a paz dela. E com a dele também. Se alguém perguntasse para Luna Andrade como estava sendo o primeiro dia de trabalho… Ela responderia: — Um erro. Um grande, luxuoso e muito bem pago erro. — Você está atrasada. Luna nem levantou os olhos do café. — Bom dia pra você também, CEO Bianchi. — São 08:07. — Sete minutos não matam ninguém. — Matam a disciplina. Ela finalmente olhou pra ele. — E a falta de café mata a minha alma. Prioridades. Enrico Bianchi ficou em silêncio. Observando. Analisando. Claramente questionando as escolhas de vida que o levaram até ali. — Senhorita Andrade — ele disse, frio — isso não é um ambiente informal. — Ainda bem, porque eu não sou informal. Eu sou caótica. É diferente. Silêncio. — Você foi contratada para organizar a minha agenda. — E você foi contratado pra ser chato assim ou fez curso? Ele fechou o tablet lentamente. Aquele tipo de movimento que antecede uma discussão. — Você pretende manter esse comportamento? Luna deu um gole no café. Calma. Serena. Quase inocente. — Pretendo entregar resultado. O comportamento é um bônus. Ele respirou fundo. — Vamos começar. — Aleluia. — Você vai revisar todos os compromissos do dia, reorganizar reuniões e— — Já fiz. Ele parou. — O quê? — Já reorganizei tudo. Cancelamento de duas reuniões inúteis, encaixei uma call com investidores às 14h e antecipei o almoço de negócios. Silêncio. Ele estreitou os olhos. — Sem autorização? — Com bom senso. Outro silêncio. Pesado. Diferente. Ele pegou o tablet… conferiu. E lá estava. Tudo. Perfeito. Organizado. Melhor do que antes. Ele levantou os olhos devagar. — Você fez isso em quanto tempo? — Entre um café e outro. — Isso não é uma resposta. — É a única que você vai ter. Silêncio. De novo. E então— — Interessante. Luna fez uma careta. — Ih. Lá vem. — Você é desrespeitosa. — Obrigada. — Impulsiva. — Também. — Inadequada. — Esse é meu charme. Ele cruzou os braços. — E ainda assim… eficiente. Ela piscou. — Espera… isso foi um elogio? — Não se acostume. — Tarde demais, já gostei. Ele ignorou. Claro que ignorou. — Você tem uma tarefa. — Manda. — Quero todos os relatórios financeiros organizados até o fim do dia. Luna congelou. — Todos? — Todos. Ela inclinou a cabeça. — Você quer testar minha paciência ou minha sanidade? — Sua competência. Ela sorriu. Aquele sorriso perigoso. — Então você vai se arrepender. — Duvido. — Aposta? Silêncio. Tensão. Desafio. — Senhorita Andrade… — ele disse, baixo — eu não faço apostas que não posso ganhar. Ela se levantou devagar. Ajustou a saia. Pegou o tablet da mão dele sem pedir. — Então hoje você vai aprender uma coisa nova. Ele a observou. Curioso. Irritado. Interessado. — E o que seria? Ela se inclinou levemente, perto o suficiente pra provocar… mas não o suficiente pra cruzar a linha. — Que eu sou o seu maior problema. Pausa. Sorriso. — E a sua melhor decisão. Ela virou as costas e saiu. Como se fosse dona do lugar. O silêncio ficou na sala. Pesado. Mas diferente. Enrico passou a mão no queixo, pensativo. — Problemática… — murmurou. Um segundo depois— Um leve sorriso apareceu. — …mas interessante. --- Do outro lado do escritório… Luna encostou na parede. Respirou fundo. — Meu Deus do céu… eu vou ser demitida antes do almoço. Pausa. Ela tomou mais um gole de café. — Mas pelo menos vou sair icônica. E então alguém apareceu correndo no corredor. — AMIGA! Luna virou. E abriu um sorriso enorme. — BRUNA?! A outra praticamente pulou nela. — VOCÊ TÁ TRABALHANDO AQUI?! — INFELIZMENTE! — EU TAMBÉM! Silêncio. As duas se encararam. E disseram juntas: — Isso vai dar muito errado. E, pela primeira vez naquele dia… Luna teve certeza de uma coisa: O problema não era só o chefe. Agora tinha reforço.
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