Dezesseis

1269 Words
A sensação não ia embora. Aquela de estar sendo observado. Seguido. Analisado. — Você não vai sair sozinha — Enrico disse. — Eu sempre saí sozinha. — Agora não. — Você não manda em mim. — Eu sei. Silêncio. — Mas eu me preocupo. Pausa. Ela suspirou. — Isso ainda é estranho. — Eu também acho. Do outro lado… — Eles estão discutindo de novo — Bruna disse. — Pelo menos voltaram ao normal — Matteo respondeu. — Isso não é normal. — Pra eles é. — Eu não sou frágil — Luna continuou. — Eu sei. — Então para de agir como se eu fosse. — Eu não estou. — Tá sim! Silêncio. Ele passou a mão no rosto. Tentando manter o controle. — Eu só não quero que você corra risco. — Eu já estou correndo. Pausa. — E você também. Silêncio. Direto. Mais tarde… Saída do prédio. Noite. Movimento. Mas ainda assim… estranho. — Eu vou com você — Enrico disse. — Não precisa. — Eu sei. — Então por que insiste? — Porque eu quero. Silêncio. Ela revirou os olhos. — Insuportável. — Eu sei. Eles caminharam juntos. Pela primeira vez… sem discussão imediata. Mas com tensão. Outra. Mais séria. — Isso tá muito quieto — Luna murmurou. — Eu também não gosto. Silêncio. E então— Um carro passou devagar. Lento demais. Eles pararam. Olharam. O carro seguiu. — Você viu isso? — ela perguntou. — Vi. Silêncio. Pesado. — Isso não é coincidência — ele disse. — Eu sei. O celular vibrou. De novo. Ela abriu. E o coração caiu. “Você anda rápido quando está com ele.” Silêncio. Total. — Ele tava aqui — Luna disse, baixo. — Ou ela. — Isso não é normal. — Não. Ele pegou o celular dela. Olhou. Pensando rápido. — A gente vai sair daqui. — Pra onde? — Lugar seguro. — Eu não vou fugir. — Isso não é fugir. — Parece. Silêncio. Ele segurou o braço dela. Firme. Mas não forçado. — Confia em mim. Pausa. Ela olhou pra ele. Respirou fundo. E assentiu. — Tá. Do outro lado… — Eles demoraram — Bruna disse. — Isso não é bom — Matteo respondeu. — Nada disso é bom. Carro. Movimento. Silêncio. — Isso pode ser alguém te seguindo — Enrico disse. — Ou você. — Ou nós dois. Silêncio. — Você tem inimigos? — ela perguntou. Ele deu um meio sorriso. Sem humor. — Muitos. — Ótimo. — E você? — Agora eu tenho. Silêncio. Tenso. — Isso não era pra te atingir — ele disse. — Mas atingiu. — Eu sei. Pausa. — E eu não vou deixar isso continuar. — Você não controla isso. — Não controlo. — Então o quê você faz? Silêncio. Ele respondeu: — Eu protejo o que importa. Ela desviou o olhar. Mas sentiu. Claro que sentiu. — Isso não vai ser fácil — ela disse. — Nunca foi. — Mas agora é pior. — Muito pior. Do outro lado… Bruna andando de um lado pro outro. — Eu vou surtar. — Você já está surtando — Matteo disse. — Eu sinto que alguém vai aparecer do nada. — Eu também. De volta… Carro parando. Lugar mais isolado. Seguro? Talvez. — Fica aqui — Enrico disse. — Nem pensar. — Luna— — Eu não vou ficar parada enquanto você resolve tudo sozinho. Silêncio. Ele a encarou. E dessa vez… não tentou impedir. — Então fica comigo. Pausa. Ela assentiu. — Sempre fui. Silêncio. Diferente. Mais forte. Mas— lá fora… nas sombras… alguém observava. De novo. Mais perto. Mais ousado. E dessa vez… não era só ameaça. Era começo de algo pior. O silêncio daquele lugar não era confortável. Era o tipo de silêncio que avisa: tem algo errado. — Você tem certeza que isso é seguro? — Luna perguntou, olhando ao redor. — Não. — Ótimo. — Mas é melhor que ficar na rua. Silêncio. Ela cruzou os braços. — Eu não gosto disso. — Eu também não. — Então por que parece que você já esperava? Pausa. — Porque eu já vi isso antes. Silêncio. Aquilo não ajudou. Do outro lado… — Eu tô com um péssimo pressentimento — Bruna disse. — Eu também — Matteo respondeu. — E eu nunca erro nessas coisas. — Isso não é reconfortante. De volta… O som de algo. Leve. Rápido. Luna virou na hora. — Você ouviu? — Ouvi. Silêncio. Tenso. — Fica atrás de mim — Enrico disse. — Nem— — Luna. Tom sério. Sem discussão. Ela não gostou. Mas ficou. Erro? Talvez não. Passos. Agora claros. Não escondidos. — Chega de mensagem — uma voz disse. Fria. Calculada. Uma figura saiu das sombras. Capuz. Rosto parcialmente visível. Mas os olhos… fixos. Direto neles. — Quem é você? — Enrico perguntou. — Alguém que cansou de esperar. Silêncio. — Isso acabou — Enrico disse. — Não acabou. — Acabou sim. — Você acha que pode brincar com as pessoas assim? Pausa. — Eu não estou brincando. — Está sim. Silêncio. Luna deu um passo à frente. — Ei. Ele olhou pra ela. — Isso é comigo também, não é? Silêncio. Curto. — Você entrou onde não devia. — Eu trabalho com ele. — Você ficou onde não devia. Silêncio. Errado. Muito errado. — Chega — Enrico disse, firme — você vai embora agora. — Ou o quê? Silêncio. O homem deu mais um passo. Muito perto. Perigoso. — Eu vi vocês — ele disse — todo esse teatrinho… — Isso não é da sua conta — Luna cortou. Erro. O olhar dele mudou. Focado nela agora. — É sim. Silêncio. Em um segundo— movimento rápido. Ele avançou. — LUNA! Enrico puxou ela pra trás. Rápido. Instinto. O homem tentou segurar o braço dela. Quase conseguiu. Mas— Enrico empurrou ele com força. — NÃO ENCOSTA NELA! Explodiu. Sem controle. Os dois ficaram frente a frente. Tensão pura. — Você não sabe com quem está mexendo — o homem disse. — Sei sim — Enrico respondeu — e você acabou de errar feio. Silêncio. Pesado. O homem olhou pra Luna. Um segundo a mais. Memorizando. — Isso não acabou. E então— correu. Sumiu. Silêncio. Total. Respiração pesada. Coração disparado. — Você tá bem? — Enrico perguntou na hora. — Tô… — ela respondeu, ainda em choque — eu acho Ele segurou o rosto dela. Cuidado. Desespero disfarçado. — Ele te machucou? — Não. — Tem certeza? — Tenho. Silêncio. Mas ele não soltou. — Isso saiu do controle — ela disse. — Já saiu faz tempo. — Isso é sério. — Muito. Ela respirou fundo. Tentando se recompor. Mas a voz saiu baixa: — Ele ia me pegar. Silêncio. — Não ia — Enrico disse. — Ia sim. — Eu não deixaria. Silêncio. Ela olhou pra ele. De verdade. — Você não pode garantir isso. Pausa. Ele respondeu baixo: — Mas eu vou tentar até o fim. Silêncio. Pesado. Real. Do outro lado… Bruna quase surtando no telefone. — ATENDE! Matteo olhando o relógio. — Isso demorou demais. De volta… — A gente precisa ir — Enrico disse. — Sim. — Agora. Eles entraram no carro. Rápido. Sem falar muito. Mas o silêncio agora… não era só tensão. Era medo. E algo mais. Ela segurou a mão dele. Sem pensar. Instinto. Ele olhou. Surpreso. Mas não soltou. E dessa vez… não era sobre romance. Era sobre não querer ficar sozinha. E isso? Isso muda tudo. Porque agora… não era mais só um jogo emocional. Era sobrevivência. E quando chega nesse ponto… ninguém sai igual.
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