A sensação não ia embora.
Aquela de estar sendo observado.
Seguido.
Analisado.
— Você não vai sair sozinha — Enrico disse.
— Eu sempre saí sozinha.
— Agora não.
— Você não manda em mim.
— Eu sei.
Silêncio.
— Mas eu me preocupo.
Pausa.
Ela suspirou.
— Isso ainda é estranho.
— Eu também acho.
Do outro lado…
— Eles estão discutindo de novo — Bruna disse.
— Pelo menos voltaram ao normal — Matteo respondeu.
— Isso não é normal.
— Pra eles é.
— Eu não sou frágil — Luna continuou.
— Eu sei.
— Então para de agir como se eu fosse.
— Eu não estou.
— Tá sim!
Silêncio.
Ele passou a mão no rosto.
Tentando manter o controle.
— Eu só não quero que você corra risco.
— Eu já estou correndo.
Pausa.
— E você também.
Silêncio.
Direto.
Mais tarde…
Saída do prédio.
Noite.
Movimento.
Mas ainda assim…
estranho.
— Eu vou com você — Enrico disse.
— Não precisa.
— Eu sei.
— Então por que insiste?
— Porque eu quero.
Silêncio.
Ela revirou os olhos.
— Insuportável.
— Eu sei.
Eles caminharam juntos.
Pela primeira vez…
sem discussão imediata.
Mas com tensão.
Outra.
Mais séria.
— Isso tá muito quieto — Luna murmurou.
— Eu também não gosto.
Silêncio.
E então—
Um carro passou devagar.
Lento demais.
Eles pararam.
Olharam.
O carro seguiu.
— Você viu isso? — ela perguntou.
— Vi.
Silêncio.
Pesado.
— Isso não é coincidência — ele disse.
— Eu sei.
O celular vibrou.
De novo.
Ela abriu.
E o coração caiu.
“Você anda rápido quando está com ele.”
Silêncio.
Total.
— Ele tava aqui — Luna disse, baixo.
— Ou ela.
— Isso não é normal.
— Não.
Ele pegou o celular dela.
Olhou.
Pensando rápido.
— A gente vai sair daqui.
— Pra onde?
— Lugar seguro.
— Eu não vou fugir.
— Isso não é fugir.
— Parece.
Silêncio.
Ele segurou o braço dela.
Firme.
Mas não forçado.
— Confia em mim.
Pausa.
Ela olhou pra ele.
Respirou fundo.
E assentiu.
— Tá.
Do outro lado…
— Eles demoraram — Bruna disse.
— Isso não é bom — Matteo respondeu.
— Nada disso é bom.
Carro.
Movimento.
Silêncio.
— Isso pode ser alguém te seguindo — Enrico disse.
— Ou você.
— Ou nós dois.
Silêncio.
— Você tem inimigos? — ela perguntou.
Ele deu um meio sorriso.
Sem humor.
— Muitos.
— Ótimo.
— E você?
— Agora eu tenho.
Silêncio.
Tenso.
— Isso não era pra te atingir — ele disse.
— Mas atingiu.
— Eu sei.
Pausa.
— E eu não vou deixar isso continuar.
— Você não controla isso.
— Não controlo.
— Então o quê você faz?
Silêncio.
Ele respondeu:
— Eu protejo o que importa.
Ela desviou o olhar.
Mas sentiu.
Claro que sentiu.
— Isso não vai ser fácil — ela disse.
— Nunca foi.
— Mas agora é pior.
— Muito pior.
Do outro lado…
Bruna andando de um lado pro outro.
— Eu vou surtar.
— Você já está surtando — Matteo disse.
— Eu sinto que alguém vai aparecer do nada.
— Eu também.
De volta…
Carro parando.
Lugar mais isolado.
Seguro?
Talvez.
— Fica aqui — Enrico disse.
— Nem pensar.
— Luna—
— Eu não vou ficar parada enquanto você resolve tudo sozinho.
Silêncio.
Ele a encarou.
E dessa vez…
não tentou impedir.
— Então fica comigo.
Pausa.
Ela assentiu.
— Sempre fui.
Silêncio.
Diferente.
Mais forte.
Mas—
lá fora…
nas sombras…
alguém observava.
De novo.
Mais perto.
Mais ousado.
E dessa vez…
não era só ameaça.
Era começo de algo pior.
O silêncio daquele lugar não era confortável.
Era o tipo de silêncio que avisa:
tem algo errado.
— Você tem certeza que isso é seguro? — Luna perguntou, olhando ao redor.
— Não.
— Ótimo.
— Mas é melhor que ficar na rua.
Silêncio.
Ela cruzou os braços.
— Eu não gosto disso.
— Eu também não.
— Então por que parece que você já esperava?
Pausa.
— Porque eu já vi isso antes.
Silêncio.
Aquilo não ajudou.
Do outro lado…
— Eu tô com um péssimo pressentimento — Bruna disse.
— Eu também — Matteo respondeu.
— E eu nunca erro nessas coisas.
— Isso não é reconfortante.
De volta…
O som de algo.
Leve.
Rápido.
Luna virou na hora.
— Você ouviu?
— Ouvi.
Silêncio.
Tenso.
— Fica atrás de mim — Enrico disse.
— Nem—
— Luna.
Tom sério.
Sem discussão.
Ela não gostou.
Mas ficou.
Erro?
Talvez não.
Passos.
Agora claros.
Não escondidos.
— Chega de mensagem — uma voz disse.
Fria.
Calculada.
Uma figura saiu das sombras.
Capuz.
Rosto parcialmente visível.
Mas os olhos…
fixos.
Direto neles.
— Quem é você? — Enrico perguntou.
— Alguém que cansou de esperar.
Silêncio.
— Isso acabou — Enrico disse.
— Não acabou.
— Acabou sim.
— Você acha que pode brincar com as pessoas assim?
Pausa.
— Eu não estou brincando.
— Está sim.
Silêncio.
Luna deu um passo à frente.
— Ei.
Ele olhou pra ela.
— Isso é comigo também, não é?
Silêncio.
Curto.
— Você entrou onde não devia.
— Eu trabalho com ele.
— Você ficou onde não devia.
Silêncio.
Errado.
Muito errado.
— Chega — Enrico disse, firme — você vai embora agora.
— Ou o quê?
Silêncio.
O homem deu mais um passo.
Muito perto.
Perigoso.
— Eu vi vocês — ele disse — todo esse teatrinho…
— Isso não é da sua conta — Luna cortou.
Erro.
O olhar dele mudou.
Focado nela agora.
— É sim.
Silêncio.
Em um segundo—
movimento rápido.
Ele avançou.
— LUNA!
Enrico puxou ela pra trás.
Rápido.
Instinto.
O homem tentou segurar o braço dela.
Quase conseguiu.
Mas—
Enrico empurrou ele com força.
— NÃO ENCOSTA NELA!
Explodiu.
Sem controle.
Os dois ficaram frente a frente.
Tensão pura.
— Você não sabe com quem está mexendo — o homem disse.
— Sei sim — Enrico respondeu — e você acabou de errar feio.
Silêncio.
Pesado.
O homem olhou pra Luna.
Um segundo a mais.
Memorizando.
— Isso não acabou.
E então—
correu.
Sumiu.
Silêncio.
Total.
Respiração pesada.
Coração disparado.
— Você tá bem? — Enrico perguntou na hora.
— Tô… — ela respondeu, ainda em choque — eu acho
Ele segurou o rosto dela.
Cuidado.
Desespero disfarçado.
— Ele te machucou?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Silêncio.
Mas ele não soltou.
— Isso saiu do controle — ela disse.
— Já saiu faz tempo.
— Isso é sério.
— Muito.
Ela respirou fundo.
Tentando se recompor.
Mas a voz saiu baixa:
— Ele ia me pegar.
Silêncio.
— Não ia — Enrico disse.
— Ia sim.
— Eu não deixaria.
Silêncio.
Ela olhou pra ele.
De verdade.
— Você não pode garantir isso.
Pausa.
Ele respondeu baixo:
— Mas eu vou tentar até o fim.
Silêncio.
Pesado.
Real.
Do outro lado…
Bruna quase surtando no telefone.
— ATENDE!
Matteo olhando o relógio.
— Isso demorou demais.
De volta…
— A gente precisa ir — Enrico disse.
— Sim.
— Agora.
Eles entraram no carro.
Rápido.
Sem falar muito.
Mas o silêncio agora…
não era só tensão.
Era medo.
E algo mais.
Ela segurou a mão dele.
Sem pensar.
Instinto.
Ele olhou.
Surpreso.
Mas não soltou.
E dessa vez…
não era sobre romance.
Era sobre não querer ficar sozinha.
E isso?
Isso muda tudo.
Porque agora…
não era mais só um jogo emocional.
Era sobrevivência.
E quando chega nesse ponto…
ninguém sai igual.