O evento daquela noite era mais… leve.
Menos formal.
Mais perigoso.
Porque quando o ambiente relaxa…
as pessoas mostram quem realmente são.
— Eu prefiro esse tipo de evento — Luna disse, olhando ao redor — menos gente fingindo perfeição.
— Eles continuam fingindo — Enrico respondeu.
— Mas disfarçam pior.
Ele quase sorriu.
Quase.
— Luna?
Ela virou.
E viu um homem.
Alto, bem vestido, sorriso fácil demais.
— Rafael — ele disse — quanto tempo.
Luna arregalou os olhos.
— RAFA?!
Ela foi abraçar.
Sem pensar.
Natural.
Errado.
Muito errado.
Porque do outro lado…
Enrico parou.
Observando.
Frio.
Imóvel.
Mas os olhos…
não estavam nada frios.
— Você sumiu! — Luna disse.
— Você que sumiu! — ele riu — Brasil inteiro sente sua falta.
— Drama.
— Verdade.
Eles estavam próximos.
Rindo.
Confortáveis.
E isso…
incomodou.
— Você não vai me apresentar? — Rafael perguntou.
Silêncio.
Luna piscou.
— Ah! Claro!
Ela virou.
— Enrico, esse é o Rafa, amigo meu do Brasil.
Enrico deu um passo à frente.
Postura impecável.
— Enrico Bianchi.
Aperto de mão firme.
Competitivo.
— Rafael — ele respondeu.
Tensão.
Instantânea.
— E você? — Rafael perguntou — o que você faz?
— Eu cuido da empresa.
— CEO? — Rafael levantou a sobrancelha — ela não perde tempo mesmo.
Silêncio.
Perigoso.
Luna riu.
— Eu tenho bom gosto.
Enrico olhou pra ela.
— Interessante.
Minutos depois…
Rafael não saía de perto.
— Você ainda fala sem filtro? — ele provocou.
— Sempre.
— Ainda caótica?
— Mais ainda.
— Ainda linda?
Silêncio.
Luna revirou os olhos.
— Você não mudou nada.
— Eu evoluí.
— Duvido.
— Quer testar?
Enrico observava.
Em silêncio.
Mas cada palavra…
cada riso…
cada aproximação…
estava sendo registrado.
— Você dança? — Rafael perguntou.
— Eu—
— Não — Enrico respondeu.
Os dois olharam pra ele.
— Ela está ocupada.
Luna arqueou a sobrancelha.
— Eu estou?
— Está.
Silêncio.
Rafael sorriu.
— Relaxa, cara. É só uma dança.
— Não.
Clima.
Pesado.
— Enrico — Luna disse — eu posso decidir isso.
— Pode.
— Então—
— Não.
Silêncio.
Ela cruzou os braços.
— Isso não faz parte do contrato.
— Faz parte de evitar problemas.
— Você é o problema.
— E ele não?
Silêncio.
Pausa.
Ela olhou pra Rafael.
Depois pra Enrico.
— Vocês são ridículos.
— Eu concordo — Rafael disse.
— Eu não perguntei — Enrico respondeu.
— Eu vou pegar um drink — Luna disse, saindo.
Clima pesado demais.
Ar pesado demais.
E ela precisava de espaço.
Do outro lado…
Bruna já tava assistindo tudo.
— EU TÔ AMANDO.
— Isso é r**m — Matteo disse.
— Isso é ótimo.
— Ele está com ciúmes.
— Finalmente!
— Isso vai dar problema.
— Já deu.
Na área do bar…
— Posso sentar?
Luna olhou.
Rafael.
Claro.
— Você nunca pede permissão — ela disse.
— Hoje eu tô tentando ser educado.
— Não combina com você.
— Nem com você.
Eles riram.
Mais leve.
Mais familiar.
— Você tá bem? — ele perguntou.
Ela hesitou.
— Tô.
— Mentira.
— Um pouco.
— Esse cara…
— Ele é complicado.
— Você gosta dele?
Silêncio.
Perigoso.
Ela desviou o olhar.
— Não.
Rafael inclinou a cabeça.
— Você nunca sabe mentir.
— Eu sei sim.
— Não sabe.
— Cala a boca.
Do outro lado…
Enrico observava.
Parado.
Frio.
Mas claramente… incomodado.
Muito mais do que deveria.
Matteo chegou.
— Você está olhando há cinco minutos.
— Estou analisando.
— Não. Você está com ciúmes.
Silêncio.
— Não estou.
— Está.
— Não.
— Está.
Pausa.
— Isso não faz sentido — Enrico disse.
— Romance nunca faz.
Ele olhou pra Matteo.
— Isso não é romance.
Matteo só respondeu:
— Ainda.
Antes que alguém pudesse prever…
Rafael fez o que não devia.
Ele segurou o queixo de Luna.
Leve.
Intimidade antiga.
Perigoso.
— Você continua linda — ele disse, baixo.
Silêncio.
E foi aí…
que Enrico se mexeu.
Rápido.
Direto.
Sem pensar.
Ele puxou Luna pela cintura.
Pra perto.
Muito perto.
E disse:
— Acho que você não entendeu.
Silêncio.
Todos pararam.
— Ela está comigo.
Rafael levantou as mãos.
— Calma, cara.
— Eu estou calmo.
Mentira.
— Eu só estava conversando.
— Acabou.
Clima pesado.
Tenso.
Explosivo.
Luna olhou pra ele.
— Enrico—
— Vamos embora.
— Eu não—
— Agora.
Silêncio.
Ela travou.
Porque pela primeira vez…
ele não estava só sério.
Ele estava… afetado.
De verdade.
No carro…
Silêncio.
Pesado.
Diferente.
— Você não tinha direito de fazer aquilo — Luna disse.
— Eu tinha.
— Não tinha.
— Eu tinha.
— Não fazia parte do contrato.
— Ele encostou em você.
— Ele é meu amigo!
— Ele não parecia.
Silêncio.
Ela virou pra ele.
— Isso é ciúmes.
— Não é.
— É sim.
— Não é.
— É.
Silêncio.
Ele apertou o volante.
— Isso é controle.
— Isso é mentira.
Pausa.
Ela se inclinou um pouco.
Mais perto.
— Por que isso te incomodou tanto?
Silêncio.
Longo.
Pesado.
Real.
Ele não respondeu.
Porque não podia.
Porque não queria.
Porque sabia.
E ela também.
— Isso tá saindo do controle — ela murmurou.
— Eu sei.
— A gente precisa parar.
— Eu sei.
Silêncio.
Eles se olharam.
E, de novo…
ninguém fez nada.
Porque agora…
já não era mais só atuação.
Era sentimento.
E esse?
Perfeito… agora acabou a fuga
— Eu não vou fazer isso.
— Vai sim.
— Eu não vou.
— Vai.
— NÃO.
— SIM.
Silêncio.
— Eu odeio você — Luna disse, jogando a bolsa na cadeira.
— Eu sei — Enrico respondeu, tranquilo demais.
— Isso passou dos limites.
— A imprensa está pressionando.
— Problema deles.
— Nosso problema.
— Seu problema.
— Nosso — ele repetiu.
Ela cruzou os braços.
— Eu não vou fingir que sou apaixonada por você em rede pública.
Ele se aproximou.
Calmo.
Perigoso.
— Você já faz isso muito bem.
— Eu não faço.
— Faz.
— Não faço.
— Faz.
Silêncio.
Ela respirou fundo.
— O que exatamente você quer?
— Uma entrevista.
— Não.
— Um evento ao vivo.
— NÃO.
— Uma demonstração convincente.
Silêncio.
Perigoso.
— Você perdeu a noção.
— Eu estou salvando a situação.
— Você está piorando.
— Você consegue fazer isso.
— Eu não quero.
Pausa.
Ele olhou pra ela.
Sério.
— Por favor.
Silêncio.
Luna travou.
— Você… pediu?
— Sim.
— Educadamente?
— Sim.
— Isso é novo.
— Concentre-se.
Ela desviou o olhar.
Suspirou.
— Tá bom.
— Ótimo.
— Mas eu vou fazer do meu jeito.
— Desde que funcione.
— Vai funcionar.
Ela sorriu.
Aquele sorriso.
Perigoso.
— Você só não vai gostar de como.
Mais tarde…
Câmeras.
Microfones.
Luzes.
E caos prestes a acontecer.
— Sorria — alguém disse.
— Eu estou sorrindo — Luna respondeu.
— Parece ameaça.
— É charme.
Enrico olhou de lado.
— Tente parecer… apaixonada.
Ela virou pra ele.
— Quer ver paixão?
— Controle-se.
— Tarde demais.
— Estamos ao vivo em 3… 2… 1…
— Boa noite! — a apresentadora sorriu — hoje temos o casal mais comentado do momento…
Luna já queria ir embora.
— Enrico Bianchi e sua noiva misteriosa!
A câmera virou.
Foco neles.
Momento deles.
— Luna Andrade — ela disse, sorrindo.
Confiante.
Linda.
Perigosa.
— Então, Luna — a apresentadora continuou — como é estar noiva de um dos homens mais poderosos do país?
Pausa.
Luna pensou.
Um segundo.
Dois.
Erro.
— Cansativo.
Silêncio.
Enrico fechou os olhos por meio segundo.
— Mas emocionante — ela completou rápido — ele é… intenso.
— Intenso? — a apresentadora riu — isso é um elogio?
Luna olhou pra ele.
— Depende do dia.
O público riu.
Enrico segurou o controle.
Por pouco.
— E você, Enrico? — a apresentadora perguntou — está apaixonado?
Silêncio.
Perigoso.
Ele olhou pra Luna.
Ela sustentou.
Desafiando.
Provocando.
Esperando.
— Sim — ele respondeu.
Calmo.
Direto.
Sem hesitar.
Silêncio.
Luna travou.
Por um segundo.
— Nossa — ela murmurou — ele ensaiou isso.
O público riu.
Mas o olhar dele…
não parecia ensaiado.
— Queremos ver um pouco desse amor — a apresentadora disse — vocês parecem… reservados.
Silêncio.
Perigo.
Luna sorriu.
Devagar.
— Reservados?
Ela virou totalmente pra ele.
Mais perto.
Muito perto.
— A gente pode melhorar isso.
Enrico percebeu tarde demais.
— Luna—
— Relaxa, amor.
Amor.
Primeira vez.
Impacto direto.
Ela segurou o rosto dele.
Sem aviso.
Sem preparação.
Sem contrato.
E chegou perto.
Muito perto.
Olhos nos olhos.
Respiração misturada.
— Isso é pra convencer, tá? — ela sussurrou.
Mas já era tarde.
Porque ele não recuou.
Nem um centímetro.
Ela inclinou o rosto.
Devagar.
Como sempre.
Quase.
Quase—
Ele puxou ela pela cintura.
Mais firme.
Mais próximo.
E dessa vez…
não foi quase.
Foi.
Um beijo rápido.
Mas real.
Quente.
Intenso.
E completamente fora do plano.
Silêncio.
O estúdio inteiro parou.
A apresentadora ficou sem reação.
O público… explodiu.
Aplausos.
Gritos.
Choque.
E Luna?
Luna abriu os olhos.
Ainda perto.
Ainda sem entender.
— Isso… não tava no roteiro — ela murmurou.
— Eu sei — ele respondeu.
Baixo.
Muito baixo.
Depois…
Bastidores.
Silêncio.
Pesado.
Diferente.
— Você me beijou.
— Você começou.
— Eu não ia—
— Ia sim.
— Não ia.
— Ia.
Silêncio.
Ela passou a mão no rosto.
— Isso complica tudo.
— Eu sei.
— A gente quebrou todas as regras.
— Todas.
Pausa.
— Você podia ter parado.
— Você também.
Silêncio.
Eles se olharam.
De novo.
E dessa vez…
não tinha mais como fingir que não tinha acontecido.
Do outro lado…
Bruna estava surtando.
— ELES SE BEIJARAM!
Matteo estava em choque.
— Eu vi.
— EU VI AO VIVO!
— Eu também vi ao vivo.
— ISSO FOI REAL!
— Foi.
Silêncio.
Bruna sorriu.
— Agora não tem volta.
Matteo murmurou:
— Agora virou problema de verdade.
E ele estava certo.
Porque agora…
não era mais “quase”.
Não era mais atuação.
Não era mais só contrato.
Agora…
era real demais pra ignorar.