Depois do escândalo…
o mundo não acabou.
Mas ficou… diferente.
Mais frio.
Mais silencioso.
Mais distante.
— Isso tá estranho — Bruna murmurou.
— Isso tá acabado — Matteo respondeu.
— Não fala isso.
— Você tá vendo.
Silêncio.
Eles estavam vendo.
Todo mundo estava.
No escritório…
Luna chegou.
Pontual.
Impecável.
Fria.
— Bom dia.
— Bom dia.
Sem olhar.
Sem pausa.
Sem nada.
Antes tinha tensão.
Agora…
só vazio.
Ela trabalhou.
Ele também.
Sem discussão.
Sem provocação.
Sem caos.
E isso…
era pior.
Muito pior.
— Eu prefiro quando eles brigam — Bruna disse.
— Eu também — Matteo respondeu.
— Isso aqui tá deprimente.
— Isso aqui tá real.
Silêncio.
Mais tarde…
— Preciso que você revise esses contratos — Enrico disse.
Profissional.
Distante.
— Já revisei.
— Ótimo.
Silêncio.
— Tem uma reunião às 15h.
— Eu sei.
— Certo.
Silêncio.
Nada mais.
Nada além.
E aquilo…
doía.
Luna respirou fundo.
Tentando ignorar.
Falhando.
— Você tá bem? — Matteo perguntou.
Ela deu um meio sorriso.
— Tô ótima.
Mentira.
— Você não parece.
— Eu sou uma ótima atriz.
— Isso não é atuação.
Silêncio.
Ela desviou o olhar.
— Talvez eu esteja cansada.
— De quê?
Pausa.
Ela respondeu baixo:
— De fingir.
Do outro lado…
Bruna olhou pra Enrico.
— Você tá insuportável.
— Obrigado.
— Isso não foi elogio.
— Eu sei.
— Você afastou ela.
Silêncio.
— Foi necessário.
— Foi covardia.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Você também?
— Todo mundo.
Pausa.
— Você sente e finge que não sente.
Silêncio.
Ele não respondeu.
Porque já tinha ouvido isso antes.
E ainda não sabia o que fazer com isso.
Fim do dia…
Chuva.
Claro.
Sempre chove nessas horas.
Luna estava saindo.
Sem pressa.
Sem destino claro.
Só… indo.
— Luna.
Ela parou.
Mas não virou.
— O quê?
Enrico se aproximou.
Devagar.
— A gente precisa conversar.
Ela riu.
Baixo.
Sem humor.
— Agora?
— Sim.
— Depois de tudo?
Silêncio.
— É importante.
— Sempre é.
Ela virou.
Olhou pra ele.
De verdade.
Pela primeira vez naquele dia.
— Fala.
Pausa.
Longa.
Difícil.
— Eu não queria que chegasse nisso.
— Mas chegou.
— Eu fiz o que achei certo.
— Pra empresa.
— Pra tudo.
Silêncio.
Ela assentiu devagar.
— Claro.
Pausa.
— Sempre tudo… menos eu.
Silêncio.
Ele travou.
— Não é assim.
— É sim.
Ela deu um passo pra trás.
— E sabe qual é o pior?
— O quê?
Pausa.
Ela engoliu seco.
— Eu acreditei que não era só contrato.
Silêncio.
Pesado.
Doloroso.
— Luna—
— Mas você deixou bem claro.
Ela sorriu.
Pequeno.
Triste.
— Eu sou só a secretária.
Ele deu um passo à frente.
— Você sabe que não é só isso.
— Então prova.
Silêncio.
Fatal.
Ele não conseguiu.
De novo.
Sempre.
E isso…
foi a resposta final.
Ela assentiu.
Como se tivesse esperado por aquilo.
— Tá bom.
Pausa.
— Então a gente continua.
— Continua?
— O teatro.
Silêncio.
— Até quando?
Ela deu de ombros.
— Até acabar.
— E depois?
Pausa.
Ela respondeu baixo:
— Depois… nada.
Chuva mais forte.
Clima pesado.
Final demais.
Ela começou a ir embora.
— Luna—
Ela não parou.
Não dessa vez.
Do outro lado…
Bruna observava.
Em silêncio.
Sem piada.
Sem sorriso.
— Isso doeu.
Matteo assentiu.
— Muito.
E pela primeira vez…
não tinha humor.
Não tinha deboche.
Não tinha caos divertido.
Só distância.
Saudade antes mesmo de acabar.
E duas pessoas que sentiram demais…
mas nunca disseram o suficiente.
E talvez…
esse tenha sido o maior erro deles.
O problema de dizer “vamos continuar”…
é que ninguém explicou como.
Dias depois…
Tudo parecia… normal.
Organizado.
Controlado.
Profissional.
Mentira.
Era só silêncio bem disfarçado.
— Agenda do dia — Luna disse, sem olhar pra ele — reunião às 10h, coletiva às 13h e jantar com investidores às 20h.
— Certo.
— Documentos já revisados.
— Obrigado.
Silêncio.
Curto.
Frio.
Cortante.
Antes…
tinha provocação.
tinha ironia.
tinha vida.
Agora…
só protocolo.
E isso…
incomodava mais do que qualquer briga.
— Eles pioraram — Bruna sussurrou.
— Muito — Matteo respondeu.
— Eu preferia o caos.
— Isso é pior que caos.
— Isso é vazio.
Silêncio.
No meio da tarde…
— Precisamos sair juntos hoje — Enrico disse.
— Eu sei.
— Vai ter imprensa.
— Sempre tem.
— Precisamos parecer… convincentes.
Silêncio.
Ela finalmente olhou pra ele.
— Eu sempre fui.
Pausa.
— Você que decidiu parar.
Silêncio.
Ele não respondeu.
De novo.
Mais tarde…
Evento.
Luzes.
Câmeras.
Sorrisos falsos.
E mãos dadas.
Porque precisava.
— Chega mais perto — alguém pediu.
Ele puxou.
Ela foi.
Automático.
Sem reação.
Sem emoção.
— Sorriam!
Eles sorriram.
Perfeitos.
Irritantes.
Mentirosos.
— Vocês parecem diferentes hoje — uma jornalista comentou.
Pausa.
Perigosa.
Luna respondeu primeiro:
— Diferente como?
— Mais… distantes.
Silêncio.
Erro.
Grave erro.
Enrico respondeu rápido:
— Impressão sua.
— Estamos ótimos — Luna completou.
Sorriso impecável.
Olhar vazio.
Do outro lado…
— Eles tão atuando m*l — Bruna disse.
— Eles estão cansados — Matteo respondeu.
— Eles estão sentindo.
— E fingindo.
— Como sempre.
Durante o jantar…
Conversa.
Negócios.
Formalidades.
Mas por baixo da mesa…
silêncio emocional.
— Você vai continuar assim? — Enrico perguntou baixo.
— Assim como?
— Distante.
Ela soltou um riso curto.
— Engraçado você perguntar isso.
Silêncio.
— Eu tô sendo profissional — ela continuou.
— Isso não é você.
— E isso não é você.
Pausa.
— Talvez seja.
Silêncio.
Pesado.
Mais tarde…
Varanda.
Sempre ela.
Sempre o perigo.
Mas dessa vez…
sem proximidade.
Sem quase.
Sem nada.
— A gente não pode continuar desse jeito — ele disse.
— Foi você que quis assim.
— Eu quis controle.
— E conseguiu.
Pausa.
Ela cruzou os braços.
— Parabéns.
Silêncio.
— Isso não é o que eu queria.
— Mas foi o que você escolheu.
Direto.
Sem filtro.
Sem volta.
Ele se aproximou.
Mas ela deu um passo pra trás.
Pequeno.
Mas suficiente.
— Não faz isso — ele disse.
— Isso o quê?
— Se afastar.
Ela riu.
Sem humor.
— Agora você percebeu?
Silêncio.
— Você me afastou primeiro.
Pausa.
— Eu só tô mantendo a distância.
Ele passou a mão no rosto.
Frustrado.
— Isso tá errado.
— Tá mesmo.
— Então muda.
Silêncio.
Ela olhou pra ele.
Profundo.
Cansado.
Real.
— Não sou eu que tenho que mudar.
Silêncio.
Ele entendeu.
Mas não soube agir.
De novo.
Sempre.
— A gente cruzou uma linha — ele disse.
— E você voltou correndo.
— Porque precisava.
— Porque teve medo.
Silêncio.
Ela chegou mais perto.
Só um pouco.
— E sabe o pior?
Pausa.
— Eu fiquei.
Silêncio.
Aquilo bateu.
Forte.
— Eu não devia — ela completou.
Vento.
Silêncio.
Distância mínima.
Mas emocionalmente…
longe demais.
— Então o que a gente faz agora? — ele perguntou.
Pausa.
Ela respondeu simples:
— Nada.
— Nada?
— Nada.
Silêncio.
— A gente continua.
— Fingindo?
— Vivendo.
Pausa.
— Separados.
Silêncio.
Final demais.
Mas não final.
Ela virou.
Dessa vez sem dor visível.
Só decisão.
— Boa noite, Enrico.
— Boa noite, Luna.
Do outro lado…
Bruna observava.
Quieta.
— Eu não gostei disso.
— Eu também não — Matteo disse.
— Isso não parece eles.
— Talvez seja quem eles são… sem o caos.
Silêncio.
— Eu prefiro o caos.
— Eu também.
E naquele momento…
ficou claro:
Eles ainda estavam juntos…
mas já não estavam do mesmo lado.
E isso?
Isso era só o começo de algo pior.