Dez

1269 Words
Depois do escândalo… o mundo não acabou. Mas ficou… diferente. Mais frio. Mais silencioso. Mais distante. — Isso tá estranho — Bruna murmurou. — Isso tá acabado — Matteo respondeu. — Não fala isso. — Você tá vendo. Silêncio. Eles estavam vendo. Todo mundo estava. No escritório… Luna chegou. Pontual. Impecável. Fria. — Bom dia. — Bom dia. Sem olhar. Sem pausa. Sem nada. Antes tinha tensão. Agora… só vazio. Ela trabalhou. Ele também. Sem discussão. Sem provocação. Sem caos. E isso… era pior. Muito pior. — Eu prefiro quando eles brigam — Bruna disse. — Eu também — Matteo respondeu. — Isso aqui tá deprimente. — Isso aqui tá real. Silêncio. Mais tarde… — Preciso que você revise esses contratos — Enrico disse. Profissional. Distante. — Já revisei. — Ótimo. Silêncio. — Tem uma reunião às 15h. — Eu sei. — Certo. Silêncio. Nada mais. Nada além. E aquilo… doía. Luna respirou fundo. Tentando ignorar. Falhando. — Você tá bem? — Matteo perguntou. Ela deu um meio sorriso. — Tô ótima. Mentira. — Você não parece. — Eu sou uma ótima atriz. — Isso não é atuação. Silêncio. Ela desviou o olhar. — Talvez eu esteja cansada. — De quê? Pausa. Ela respondeu baixo: — De fingir. Do outro lado… Bruna olhou pra Enrico. — Você tá insuportável. — Obrigado. — Isso não foi elogio. — Eu sei. — Você afastou ela. Silêncio. — Foi necessário. — Foi covardia. Ele fechou os olhos por um segundo. — Você também? — Todo mundo. Pausa. — Você sente e finge que não sente. Silêncio. Ele não respondeu. Porque já tinha ouvido isso antes. E ainda não sabia o que fazer com isso. Fim do dia… Chuva. Claro. Sempre chove nessas horas. Luna estava saindo. Sem pressa. Sem destino claro. Só… indo. — Luna. Ela parou. Mas não virou. — O quê? Enrico se aproximou. Devagar. — A gente precisa conversar. Ela riu. Baixo. Sem humor. — Agora? — Sim. — Depois de tudo? Silêncio. — É importante. — Sempre é. Ela virou. Olhou pra ele. De verdade. Pela primeira vez naquele dia. — Fala. Pausa. Longa. Difícil. — Eu não queria que chegasse nisso. — Mas chegou. — Eu fiz o que achei certo. — Pra empresa. — Pra tudo. Silêncio. Ela assentiu devagar. — Claro. Pausa. — Sempre tudo… menos eu. Silêncio. Ele travou. — Não é assim. — É sim. Ela deu um passo pra trás. — E sabe qual é o pior? — O quê? Pausa. Ela engoliu seco. — Eu acreditei que não era só contrato. Silêncio. Pesado. Doloroso. — Luna— — Mas você deixou bem claro. Ela sorriu. Pequeno. Triste. — Eu sou só a secretária. Ele deu um passo à frente. — Você sabe que não é só isso. — Então prova. Silêncio. Fatal. Ele não conseguiu. De novo. Sempre. E isso… foi a resposta final. Ela assentiu. Como se tivesse esperado por aquilo. — Tá bom. Pausa. — Então a gente continua. — Continua? — O teatro. Silêncio. — Até quando? Ela deu de ombros. — Até acabar. — E depois? Pausa. Ela respondeu baixo: — Depois… nada. Chuva mais forte. Clima pesado. Final demais. Ela começou a ir embora. — Luna— Ela não parou. Não dessa vez. Do outro lado… Bruna observava. Em silêncio. Sem piada. Sem sorriso. — Isso doeu. Matteo assentiu. — Muito. E pela primeira vez… não tinha humor. Não tinha deboche. Não tinha caos divertido. Só distância. Saudade antes mesmo de acabar. E duas pessoas que sentiram demais… mas nunca disseram o suficiente. E talvez… esse tenha sido o maior erro deles. O problema de dizer “vamos continuar”… é que ninguém explicou como. Dias depois… Tudo parecia… normal. Organizado. Controlado. Profissional. Mentira. Era só silêncio bem disfarçado. — Agenda do dia — Luna disse, sem olhar pra ele — reunião às 10h, coletiva às 13h e jantar com investidores às 20h. — Certo. — Documentos já revisados. — Obrigado. Silêncio. Curto. Frio. Cortante. Antes… tinha provocação. tinha ironia. tinha vida. Agora… só protocolo. E isso… incomodava mais do que qualquer briga. — Eles pioraram — Bruna sussurrou. — Muito — Matteo respondeu. — Eu preferia o caos. — Isso é pior que caos. — Isso é vazio. Silêncio. No meio da tarde… — Precisamos sair juntos hoje — Enrico disse. — Eu sei. — Vai ter imprensa. — Sempre tem. — Precisamos parecer… convincentes. Silêncio. Ela finalmente olhou pra ele. — Eu sempre fui. Pausa. — Você que decidiu parar. Silêncio. Ele não respondeu. De novo. Mais tarde… Evento. Luzes. Câmeras. Sorrisos falsos. E mãos dadas. Porque precisava. — Chega mais perto — alguém pediu. Ele puxou. Ela foi. Automático. Sem reação. Sem emoção. — Sorriam! Eles sorriram. Perfeitos. Irritantes. Mentirosos. — Vocês parecem diferentes hoje — uma jornalista comentou. Pausa. Perigosa. Luna respondeu primeiro: — Diferente como? — Mais… distantes. Silêncio. Erro. Grave erro. Enrico respondeu rápido: — Impressão sua. — Estamos ótimos — Luna completou. Sorriso impecável. Olhar vazio. Do outro lado… — Eles tão atuando m*l — Bruna disse. — Eles estão cansados — Matteo respondeu. — Eles estão sentindo. — E fingindo. — Como sempre. Durante o jantar… Conversa. Negócios. Formalidades. Mas por baixo da mesa… silêncio emocional. — Você vai continuar assim? — Enrico perguntou baixo. — Assim como? — Distante. Ela soltou um riso curto. — Engraçado você perguntar isso. Silêncio. — Eu tô sendo profissional — ela continuou. — Isso não é você. — E isso não é você. Pausa. — Talvez seja. Silêncio. Pesado. Mais tarde… Varanda. Sempre ela. Sempre o perigo. Mas dessa vez… sem proximidade. Sem quase. Sem nada. — A gente não pode continuar desse jeito — ele disse. — Foi você que quis assim. — Eu quis controle. — E conseguiu. Pausa. Ela cruzou os braços. — Parabéns. Silêncio. — Isso não é o que eu queria. — Mas foi o que você escolheu. Direto. Sem filtro. Sem volta. Ele se aproximou. Mas ela deu um passo pra trás. Pequeno. Mas suficiente. — Não faz isso — ele disse. — Isso o quê? — Se afastar. Ela riu. Sem humor. — Agora você percebeu? Silêncio. — Você me afastou primeiro. Pausa. — Eu só tô mantendo a distância. Ele passou a mão no rosto. Frustrado. — Isso tá errado. — Tá mesmo. — Então muda. Silêncio. Ela olhou pra ele. Profundo. Cansado. Real. — Não sou eu que tenho que mudar. Silêncio. Ele entendeu. Mas não soube agir. De novo. Sempre. — A gente cruzou uma linha — ele disse. — E você voltou correndo. — Porque precisava. — Porque teve medo. Silêncio. Ela chegou mais perto. Só um pouco. — E sabe o pior? Pausa. — Eu fiquei. Silêncio. Aquilo bateu. Forte. — Eu não devia — ela completou. Vento. Silêncio. Distância mínima. Mas emocionalmente… longe demais. — Então o que a gente faz agora? — ele perguntou. Pausa. Ela respondeu simples: — Nada. — Nada? — Nada. Silêncio. — A gente continua. — Fingindo? — Vivendo. Pausa. — Separados. Silêncio. Final demais. Mas não final. Ela virou. Dessa vez sem dor visível. Só decisão. — Boa noite, Enrico. — Boa noite, Luna. Do outro lado… Bruna observava. Quieta. — Eu não gostei disso. — Eu também não — Matteo disse. — Isso não parece eles. — Talvez seja quem eles são… sem o caos. Silêncio. — Eu prefiro o caos. — Eu também. E naquele momento… ficou claro: Eles ainda estavam juntos… mas já não estavam do mesmo lado. E isso? Isso era só o começo de algo pior.
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