Capítulo 9
A liberdade tem seu preço
O velório de Eduardo demorou metade de um dia. Eu fui deixada lá por Mateus, que teve que ir para a empresa. Não foi fácil me despedir do meu protetor. Quando começamos toda aquela nossa aventura, com o Clube do crochê, eu e minhas amigas jamais poderíamos imaginar que naqueles dias também se iniciaria um dos tempos mais difíceis de nossas vidas. Bem, pelo menos para Roberta e eu. Sentei-me do lado de Angela para saber como ela estava emocionalmente. Depois de tantos abraços e afagos por causa da minha situação, finalmente quis dar apoio em agradecimento.
— Como está sua vida?
Minha amiga Angela me olhou com compaixão.
— Nem pense nisso, seus problemas são infinitamente maiores que os meus.
— Isso não me impede de ser solidária com a minha amiga.
Segurei sua mão, sorrindo tristemente.
— Eu conversei com Ricardo. No começo foi difícil, mas ele disse que sentia atração por ela também. Isso foi duro para mim.
— Você não esperava que só você pudesse sentir a mesma coisa, não é?
— Na verdade, Meg, eu nem sei o que eu esperava. De verdade. — Ela trazia aquele tom solene, meio compreensiva e meio abalada. — Eu achava que eu bastava para ele..
— Ele bastou?
Ela me olhou como se eu estivesse a repreendendo e, na verdade, eu estava.
— É, a vida é complicada. Monogamia não é para todos.
— Não, não é. E como ficou?
— Ele aceitou o trisal. Ela também.
Levantei as sobrancelhas, surpresa.
— Então, entre mortos e feridos, salvaram-se todos?
Ela deu uma risada baixinha, em respeito a Roberta.
— Verdade.
Bati em sua mão duas vezes, a olhando bem de perto e sussurrei.
— Então aproveita, essa vida é curta para pensar demais, quando abrimos os olhos vemos que perdemos metade dela por medo.
Ela estava me encarando como quem sabia exatamente do que eu falava. E era de mim mesma. Angela colocou meus cabelos atrás da orelha com carinho.
— Então resgata o que perdeu, amiga. Você ainda tem muito tempo pela frente para ser o que você quiser.
Angela estava, provavelmente, certa. O problema era que eu precisava reaprender a andar com as minhas próprias pernas. Seis horas depois se deu o enterro. Roberta estava muito abalada. Apenas ofereci meu ombro para que ela pudesse chorar sua perda. Mais do que isso era impossível para mim. Eu sabia que Carlos faria tudo para me deixar sem dinheiro e que eu precisava voltar a trabalhar logo, que era algo que eu não fazia há mais de dez anos. O ponto positivo em mim é que eu nunca tive medo de trabalho. Até prestar a prova par a OAB, eu teria que me virar em alguma coisa. Dominique prometeu de me indicar para amigos de seu marido que pudessem me dar uma vaga de emprego. Enquanto isso eu precisei me mudar para seu apartamento em Pinheiros. Barbara e Angela foram comigo para tirar o pó de tudo, já que o apartamento estava fechado há bastante tempo. Mas era lindo de qualquer jeito. Era todo decorado em azul. O chão de piso vinílico imitava madeira, porém era o único detalhe que destoava um pouco mais. O sofá era azul turquesa, as mantas que o decoravam eram de cor bege, as almofadas eram brancas. Tudo era predominantemente azul. Caio amou, exceto que teria que dormir com a irmã pois o apartamento só tinha dois quartos. Expliquei que era provisório e que, em breve, teríamos nosso apartamento do jeitinho que a gente queria. Antonella amava tudo, como se o mundo fosse uma festa para ela. Quanto ao pai, ela nem perguntou por ele. Porém eu sabia que estava cedo. Logo ela começaria a sentir saudades daquele degenerado e eu teria que enfrentar suas perguntas. Caio parecia ser muito mais amadurecido, aos dez anos, do que eu fui aos meus dezoito. Ele não fazia muitas perguntas, compreendeu que a mãe não podia ficar na casa de um homem que a agrediu. Eu sabia que ele seria meu melhor amigo na vida. Caio era meu orgulho de mãe.
Dominique pediu compras por aplicativo e assim que foram embora comecei a guardar todas as compras nos armários da cozinha, junto com meus filhos. Era bom sentir liberdade. Era melhor ainda sentir aquela liberdade junto com meus filhos. Senti como se estivesse começando uma nova vida, com bem menos glamour, mas quem precisa disso? Liberdade não se compra. É mais uma sensação do espírito que da carne. Aquilo me fez começar a sentir viva de novo e não um fantasma que passeava pelos aposentos de uma casa luxuosa, mas sem alegria e vida.
Em contato com a advogada, ela arrumou todos os papéis possíveis para um divórcio litigioso. Carlos não poderia se aproximar 300 metros de mim e das crianças. Mas eu sabia que ele ia descobrir onde eu estava morando. Eu sabia que era uma questão de tempo para ele me importunar e ameaçar com seu dinheiro e sua posição social. À noite, depois de colocar as crianças para dormir, recebi uma ligação de Mateus.
— Boa noite, Meg.
Deitei na enorme cama que havia no quarto e mordi o dedo.
— Não sou mais ninfa?
Ouvi sua risada do outro lado.
— Não, você não está com cabeça nem emocional para ser submissa agora.
Estranhei.
— Como assim?
— Uma submissa precisa estar emocionalmente bem para servir. Você não está.
— Estou me sentindo livre, não serve?
— Ah mocinha, isso é passageiro, logo você vai se questionar sobre tudo que aconteceu. E eu quero você bem para ser minha. Por enquanto você é minha melhor amiga.
— Acha que eu posso estar em depressão?
— Eu não diria depressão, mas com certeza você não está feliz. Vou te explicar uma coisa importante, Meg: o b**m não é um tapa buraco emocional. Ele não vai te dar prazer no lugar da dor que está sentindo. Ser submissa nesse momento pode não te fazer bem porque nem submissa você é. Precisa estar 100% leoa para defender seus filhos e você. Entende o que eu quero dizer?
Baixei o olhar para o lençol e me movi na cama achando que tudo que ele disse era verdade. Eu nunca tinha sido submissa e naquele momento, o que menos precisava era de ser dominada.
— Mas eu gosto do que temos.
— O que temos é sexo fetichista. O verdadeiro b**m nem acho que valha a pena você conhecer.
— Pesado assim?
— Pesado.
Fizemos uns segundos de silêncio, acreditei que ele refletia sobre tudo também.
— E o sexo fetichista está errado, Dom?
Ele riu.
— Não, não está errado, cada um é do jeito que é e eu gosto. Principalmente de você.
Abri a boca sorrindo sem emitir qualquer som. Dom Maximus estava dizendo que gostava de mim?... A felicidade tomou conta do meu coraçãozinho apaixonado.
— É? — Perguntei fechando os olhos com medo de ouvir a resposta.
— É, sim senhorita. — Ele sorria e eu podia ouvir no tom da sua voz.
— E o que isso significa?
—Eu ainda não sei, Meg. Espero que a gente possa esclarecer isso juntos. Quando pode vir aqui?
— Quando você quiser.
— Eu te espero na sexta-feira, não deixe nada atrapalhar isso. Esqueça Carlos, esqueça Aline. Entendeu?
— Um pouco difícil esquecer ela me mandando mensagens e fotos.
— Ela mandou mais alguma coisa?
— Não, mas e se mandar?
— Se mandar, você vai enviar para sua advogada e mandar um bonito processo.
— É o que eu vou fazer.
Ele desligou e me deixou pensando sobre o perigo de ir até ele. Eu não podia me dar ao luxo de brincar de esconde-esconde com uma policial com o ego ferido. Eu também estava ferida e magoada, mas quem queria saber além de Mateus e minhas melhores amigas? Mulheres apaixonadas não costumam ter sororidade. Ela tentaria me prejudicar se soubesse que eu não me afastei de Dom Maximus, então eu precisava ter cuidado.
Até que Carlos me obrigasse a devolver o carro, continuei aquela semana levando as crianças para a escola no meu carro. E lá estava ele na porta da escola com um guarda-costas. Eu me assustei, até porque sabia que ele não poderia se aproximar dos filhos nem de mim por 300 metros. Assim que dei um beijo nos meus filhos, dei meia volta para ir para o carro, com o coração descompassado e as mãos tremendo. E de repente, senti uma mão segurar meu pulso.
— Meg!
Era ele, aquele ordinário que fez verter o sangue do canto dos meus lábios. Voltei meu corpo para ele com pavor.
— Você podia estar aqui?
Aquele homem grisalho, de meia idade, outrora tão bonito, me olhava com olheiras profundas.
— Eu sei que te fiz m*l, eu sei o que eu fiz. Mas eu estou sentindo sua falta e das crianças. Volta.
Ele estava realmente suplicando, enquanto me olhava com aquela cara de falso remorso. Era, de fato, um ótimo ator. Em anos, muitos anos, jamais falou comigo com voz tão aveludada, com tanto respeito e súplica.
— Carlos, eu sei que não me quer, porque você me traiu por anos e eu soube de todas elas. — Deixei sair um sorriso nervoso e sarcástico — Eu tenho provas, prints de conversas, tudo que você possa imaginar. Se você está preocupado com seus bens, dê às vagabundas pelas quais trocou sua fiel esposa. Eu não quero nada seu. Nada.
Soltei meu pulso puxando com força.
— Os meus bens, infelizmente, são seus também. — Facilmente a súplica deu lugar ao sarcasmo — Eu só quero que retire a queixa da agressão e eu te dou o divórcio e o que é seu por direito.
Cruzei os braços, mesmo nervosa, acredito que por uma questão de auto-defesa. Lembrei dos sinais de comportamento defensivo que li nos livros.
— Assim, fácil assim, sem brigas na justiça?
Ele suspirou profundamente.
— Margareth, eu não tenho alternativas. Sabe que estou brigando por um cargo político há meses. Uma agressão vai acabar com a minha carreira. Por favor. Nós resolvemos tudo amigavelmente sem essa queixa. O que você quer? O carro, uma casa, dinheiro?
Pensei melhor. Se as coisas pudessem realmente ser resolvidas daquela forma, podia ser uma boa situação para mim. Eu me livraria de vez dele. Saquei o celular do bolso e liguei para minha advogada, Fernanda, torcendo que ela me atendesse tão cedo.