Capítulo 2: O Santuário Profano

1509 Words
​A madrugada na mansão Blackwood tinha um peso próprio, um silêncio denso que parecia amplificar o tique-taque do relógio de parede no corredor. Eu estava deitada, encarando o teto, com a pele ainda formigando pela tensão do embate no escritório. O pijama de seda deslizava contra o meu corpo, mas o conforto era nulo; eu me sentia como uma presa que acabara de escapar de uma armadilha, apenas para perceber que ainda estava dentro da jaula. Foi quando ouvi: o clique metálico da maçaneta girando com uma lentidão calculada. Meu coração saltou para a garganta, batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado, enquanto a porta do meu quarto se abria, revelando a silhueta imponente de Caleb contra a luz fraca do corredor. ​— O que você está fazendo aqui? — sussurrei, sentando-me abruptamente na cama e puxando o lençol contra o peito. — Caleb, são três da manhã. Saia agora. ​Ele não respondeu de imediato. Apenas fechou a porta atrás de si, trancando-a com um movimento seco que selou o nosso destino naquela noite. Ele caminhou pelo quarto com a confiança de um invasor que já se sente dono do território, desfazendo o nó da gravata e jogando-a sobre a poltrona. ​— Eu tentei dormir, Maya — ele confessou, a voz mais rouca do que o normal, carregada de uma exaustão perigosa. — Mas o cheiro daquele escritório, o seu cheiro, ficou impregnado nos meus sentidos. Eu disse que não tinha paciência, não disse? ​Ele parou à beira da cama, a luz da lua filtrando-se pelas cortinas e iluminando o ângulo afiado do seu maxilar. Eu deveria gritar, deveria correr para a porta, mas meu corpo parecia ter se transformado em traição pura, ancorado no lugar pelo magnetismo sombrio que ele exalava. ​— Você não pode simplesmente entrar aqui. Existem limites, existem regras... — minha voz falhou conforme ele se sentava no colchão, o peso do seu corpo fazendo com que o meu pendesse levemente em sua direção. ​— As regras morreram com o seu pai, pequena — ele disse, estendendo a mão para tocar uma mecha do meu cabelo, enrolando-a no dedo com uma possessividade que me fez estremecer. — Agora, a única regra que importa é que eu quero você. E eu sei que, por trás desse seu olhar de pavor, você está queimando para saber como é ser minha. ​Eu tentei desviar o rosto, mas ele segurou meu queixo com firmeza, forçando-me a encarar o abismo em seus olhos cinzentos. ​— Você é meu meio-irmão, Caleb. Isso é doentio, é errado em todos os níveis — eu murmurei, embora a proximidade dele estivesse nublando meu julgamento, o calor emanando de sua pele me atraindo como um imã. ​Caleb inclinou-se, seus lábios roçando o lóbulo da minha orelha, enviando uma onda de choques térmicos por todo o meu ser. ​— O erro é a única coisa real entre nós, Maya. O resto é apenas o teatro que a sociedade exige. Mas aqui dentro, no escuro, não há público. Só existe o que eu sinto e o que você desesperadamente tenta esconder. ​Ele desceu o toque para o meu pescoço, o polegar pressionando o ponto onde meu pulso pulsava erraticamente. ​— Deixe-me ver o que acontece quando você para de lutar contra o inevitável — ele desafiou, a voz vibrando contra a minha pele, enquanto sua outra mão subia pela minha perna, por baixo do lençol, reivindicando um território que eu nunca pensei que entregaria. O toque de Caleb era uma invasão que eu não sabia como repelir, e a verdade é que, no fundo, minha pele o reconhecia como o invasor que sempre esperou. A mão dele subiu com uma lentidão torturante pela minha coxa, o calor da palma atravessando a seda fina e fazendo meus músculos contraírem involuntariamente. ​— Você está tremendo, Maya. É de medo ou de uma antecipação que você não tem coragem de confessar nem para si mesma? — ele perguntou, sua voz sendo um sussurro sombrio que parecia vibrar dentro dos meus ossos. ​Eu tentei segurar o pulso dele, uma tentativa inútil de resistência que ele apenas ignorou, prendendo meus dedos com os seus e me forçando a sentir a força da sua mão contra a minha pele. ​— É repulsa, Caleb. É o que qualquer pessoa normal sentiria se estivesse presa em um quarto com um predador que não conhece a palavra limite — respondi, tentando manter o tom firme, embora minha respiração estivesse se transformando em arquejos curtos. ​Ele deu um sorriso que não chegou aos olhos, uma expressão de pura e crua possessividade que me fez perceber que eu estava brincando com fogo em um quarto cheio de gasolina. ​— Normalidade é uma jaula para pessoas medíocres, e nós dois sabemos que você nunca foi normal. Você sempre foi a exceção, a peça que não se encaixava no quebra-cabeça dessa família hipócrita — ele retrucou, inclinando-se até que seu peito roçasse no meu, forçando-me a deitar contra os travesseiros enquanto ele pairava sobre mim como uma sombra inevitável. — Diga-me que me quer fora daqui. Diga com convicção e eu saio agora mesmo. Mas olhe nos meus olhos antes de mentir. ​Eu abri a boca para expulsá-lo, para proferir as palavras que me salvariam daquele abismo, mas o que saiu foi apenas um suspiro quebrado quando ele pressionou o corpo contra o meu, eliminando qualquer espaço que ainda restasse entre nós. ​— Eu odeio o modo como você acha que pode ler meus pensamentos, Caleb. Eu odeio o fato de você se sentir no direito de estar aqui — eu murmurei, sentindo as lágrimas de frustração — ou de desejo, eu já não sabia mais — pinçarem meus olhos. ​Caleb soltou meus pulsos, mas apenas para deslizar as mãos pelo meu pescoço, emoldurando meu rosto com uma brutalidade que era estranhamente terna. ​— O ódio é apenas o amor que perdeu a paciência, Maya. E eu esperei tempo demais para ver você desmoronar — ele confessou, a voz carregada de uma urgência que me assustava mais do que qualquer ameaça que ele já fizera. — Eu vi você crescer, vi você se tornar essa mulher que me desafia com o olhar, e cada maldito dia eu tive que fingir que você era apenas a filha do meu padrasto. Mas o velho morreu, e com ele morreu a minha última gota de decência. ​Eu levei minhas mãos ao peito dele, sentindo as batidas descompassadas do seu coração, um ritmo que espelhava o meu próprio caos interno. ​— Se fizermos isso, não haverá volta. Não seremos mais Maya e Caleb; seremos algo que o mundo chamaria de pecado — alertei, sentindo o peso daquela escolha cair sobre meus ombros como uma laje de mármore. ​Ele soltou uma risada abafada contra o meu pescoço, seus lábios traçando o caminho da minha clavícula com uma precisão que me fazia arder. ​— Deixe que chamem do que quiserem. Eu prefiro queimar no inferno com você a passar mais uma noite imaginando o gosto da sua pele — ele declarou, subindo o olhar para encontrar o meu, seus olhos agora tomados por uma escuridão absoluta. — Você é o meu segredo indizível, Maya. E eu estou cansado de ficar calado. ​O beijo que se seguiu não foi um pedido; foi um sequestro. Suas mãos se perderam no meu cabelo, puxando minha cabeça para trás para que ele pudesse tomar minha boca com uma fome que vinha de anos de privação. Eu respondi com a mesma intensidade, minhas unhas cravando-se nos seus ombros, cedendo finalmente à gravidade daquela obsessão que nos arrastaria para as profundezas de um sonho delicioso e profano. O ar no quarto parecia ter se tornado inflamável, saturado pelo peso do corpo de Caleb que pressionava o meu contra o colchão, uma âncora de músculos e intenção que me impedia de fugir de mim mesma. Sua mão, que antes apenas tateava, agora se movia com uma autoridade possessiva, deslizando para cima enquanto seus dedos longos e ágeis traçavam o contorno da minha cintura com uma pressão que oscilava entre a carícia e o domínio. Eu sentia cada centímetro do seu tórax rígido contra os meus s***s, o tecido fino do meu pijama de seda sendo a única e frágil barreira entre a minha pele febril e a urgência do seu desejo. Caleb mergulhou o rosto na curva do meu pescoço, onde sua respiração quente e descompassada enviava ondas de eletricidade diretamente para o meu ventre, e seus lábios encontraram o ponto exato onde minha pulsação martelava o pânico e a entrega. Não havia delicadeza naquele contato; era uma reivindicação visceral, um emaranhado de pernas e respirações curtas onde ele ditava o ritmo, forçando-me a sentir a evidência física da sua luxúria contra a minha coxa, enquanto seus sussurros carregados de pecado transformavam meu quarto em um santuário profano onde a moralidade não tinha voz. ​
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