Capítulo IV — Tony

2255 Words
As mãos de Tony voavam pelo teclado do computador, trabalhando agilmente. Os seus colegas de classe observavam os seus esforços por cima do ombro, animados. Uma garota tinha a expressão incrédula no rosto, mas Tony não se importava. O cardápio daquele dia seria mudado para batatas fritas e nem a sobrinha de um dos diretores vendo o seu trabalho o impediria de completá-lo. Tony frequentava uma escola privada em Berlim onde todos tinham um talento especial. A escola os treinava para serem os melhores nas suas áreas, e até os incitavam a quebrar as regras. Os computadores não eram fáceis de hackear (a cada vez que ele quebrava o sistema, a empresa Castle vinha com um bem melhor que o anterior), mas nada era impossível para Tony Mann. — Consegui! — ele exclamou com um sorriso, jogando as mãos para o alto em comemoração. Os seus colegas trocaram abraços e high-fives entre si, embora ninguém tenha se lembrado de cumprimentar Tony por seus esforços. — Hoje nós comeremos como reis, senhores. A garota pigarreou, obviamente irritada. A cor subiu no rosto de Tony, mas ele não se desculpou. Simplesmente deu de ombros e fechou o computador, deixando os seus colegas de classe celebrando e saindo da sala. Ele sentiu uma dor estranha no peito ao vê-los tão próximos um do outro enquanto ele caminhava sozinho pelos corredores da Academia somente com o seu computador. Ninguém era seu amigo de verdade na Academia. Ninguém o conhecia de verdade. Todos sabiam dos seus dons para a computação e Tony era requisitado sempre para invadir o sistema quando precisavam mudar algo na vida escolar, mas, se perguntasse a eles qual era o sobrenome de Tony, ninguém saberia dizer. Não que Tony se importasse com isso. Na verdade, ele não ligava para os garotos da escola. Tony sabia que era mais importante e mais inteligente que a maioria ali. A sua vida não estava presa à Academia, as notas e a vida de um aluno alemão normal. Tony era uma pessoa excepcional, e ele estava ciente disso. — Ei, Tony! — chamou uma voz no começo do corredor. Ele virou-se e viu a garota que estava na sala com os outros minutos antes. O garoto parou e fitou-a, impassível. — Posso falar com você um instante? Ele assentiu, puxando o computador para mais perto do peito. Aquela menina era mais nova que ele e tinha tendências à área de computação, pelo que sabia. Mesmo com a tecnologia de hoje em dia, era um departamento com poucos estudantes e precisaria de apoio uma vez que Tony saísse do colégio (o seu pai era um rico empresário que bancava os estudos do filho e qualquer tipo de atividade que o deixasse fora de suas vistas). De qualquer forma, Tony estava encarando uma concorrente no mercado tecnológico alemão e ele não gostava disso nem um pouco. — Sempre sabe tanto dos sistemas da Academia — ela começou com o cenho franzido. — O Professor Hans me disse que toda vez que alguém quebra o sistema, eles o atualizam, mas você sempre os invade. É incrível. Tony sorriu complacente. Muita gente elogiava o seu conhecimento e o seu amor por computadores. Ele fora impulsionado pelo pai aos quatro anos quando ganhou o seu primeiro computador. Aos sete, ele já criara um jogo e invadia o sistema da empresa dos Mann quando estava entediado. O seu pai o incentivou para que tivesse uma empresa própria de computadores aos 13 anos. Bill Gates o achava o máximo. Tony tinha um futuro brilhante à frente, mas só teria acesso a ele se completasse o colegial. Por enquanto, até que fizesse 17 anos, a sua empresa estava nas mãos do pai. Tony não aguentava mais ficar preso naquele internato com as mentes mais brilhantes da Alemanha enquanto os lucros gigantescos de seus negócios eram enviados para a conta do Sr. Mann. Um ano, ele pensou ansiosamente, só mais um ano... — Obrigado — ele respondeu meio sem jeito. — Eu tento o meu melhor. — Deve ser chato, né — ela provocou com um sorriso debochado. — Ser o garoto mais rico da Alemanha com dezesseis anos e estar aqui, perdendo tempo mudando o cardápio do almoço. Ele deu um passo para trás, alarmado. A janela do fim do corredor abriu de repente e um vento forte passou por eles. Tony respirou fundo, tentando se controlar, fazer com que a corrente de ar parasse de rodar nos seus pés. A garota o observou com um olhar curioso. Ele chutou o ar para que ele se dissipasse e voltasse pela janela, mas seu estado emocional deve ter chamado à atenção das correntes de ar que estavam por perto. Tony fechou os olhos e controlou as batidas do coração. Poucos minutos depois, a janela voltara a se fechar e o ar do corredor estava estável de novo. Ele relaxou um pouco, se esquecendo de que estava sendo atentamente observado. — Uau, o que foi isso? — a garota indagou animada. Qualquer resquício de ameaça na sua voz havia sumido. — Não me diga que você controla o vento? Isso é tipo Avatar, não é? Que legal! — Não é nada! — retorquiu Tony irritado, dando as costas para a garota e rumando para o seu quarto. — Sugiro que não me siga, a não ser que queria uma detenção por estar na área dos quartos masculinos. — Ok, então você não controla o vento e aquilo tudo foi só uma mostra de que existem, sim, fantasmas na Academia. Ele concordou com a cabeça, praticamente correndo para tentar despistar a garota. Mas ela não desistiu de Tony e, ao ver que ele entrara na ala masculina e que não havia nenhum guarda à espreita, seguiu-o velozmente. — Existem fantasmas aqui e você está sendo perseguido por um, certo? — ela continuou o interrogatório, dando pulinhos para conter a animação. — Puxa, isso ia dar uma boa história para o jornal da escola. — Você ficou louca?! — Tony parou e virou-se para a menina, apontando o dedo para ela em tom acusatório. — Nada aconteceu naquele corredor! Porque não se preocupa com coisas mais importantes que fantasmas?! Vamos falar das usinas que tiveram urânio roubado! Foram três até agora, e contando! A garota abriu a boca para retrucar, mas seu rosto ficou vermelho e ficou quieta. Tony suspirou, satisfeito consigo mesmo. Ele não esperou resposta dela, deu-lhe as costas de novo e entrou no quarto, finalmente livre para pensar sobre o que acontecera no corredor. *** Tony deixou o computador na cama e ficou andando em círculos pelo quarto. Graças a seu pai, Tony não tinha um colega de quarto, ao contrário da maioria dos alunos da Academia, e tinha certa liberdade. Abriu as janelas num movimento rápido com a mão e sentiu os pés saírem do chão por alguns segundos antes que as correntes de vento sumissem completamente do local. Tony estava perfeitamente ciente dos seus poderes — desde que tinha seis anos ele sabia. Por dez anos mantivera esse segredo, treinando sozinho e lendo tudo o que encontrava pela frente sobre essa... bizarrice. Passou um bom tempo invadindo os sistemas de várias bibliotecas do mundo procurando sobre ventos e os seus poderes. Jamais encontrou algo que realmente valesse a pena de estudos mais profundos. Seus colegas de Academia do ramo da História pouco sabiam, também. O garoto ficou no escuro por anos até encontrar um professor de Grécia Antiga numa viagem para os Estados Unidos. O velho deu uma palestra sobre o assunto e Tony compreendeu o que ele era — não que isso fizesse os problemas causados pelos poderes sumirem. Quanto mais entrava na adolescência, mais os ventos ao seu redor ficavam loucos com as suas mudanças de temperamento. Tony por fim sentou e ligou a televisão. Era pouco mais de sete da noite e a primeira coisa que captou do noticiário foram informações das usinas que tiveram o reator explodido alguns dias antes. Ao contrário de seus argumentos na discussão que tivera com a garota, ele não sabia muito do que acontecia ao redor do mundo. Escutara alguns colegas no refeitório no dia anterior e presumira ser algo bem importante, se os alunos da Academia estavam debatendo sobre o assunto. No entanto, ele não tivera tempo para pesquisar mais. As imagens da TV deixavam a tragédia ainda mais assustadora. Três usinas foram atingidas: no Japão, no Brasil e outra na França. As autoridades alemãs temiam que a radiação chegasse ao país, porém não faziam planos para uma evacuação. A correspondente japonesa da emissora discutia os rumores que circulavam de que mais urânio fora furtado das três usinas e que as explosões não eram nada além de uma distração. Seu entrevistado tinha um sorriso afetado no rosto e não parecia nada feliz em responder às perguntas. O garoto ficou chocado com vídeos dos três países em questão. No Brasil, ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo e o pânico tomara as ruas do Rio de Janeiro. Os franceses agiam com naturalidade anormal e quando uma parisiense foi perguntada dos seus planos, caso a situação piorasse, ela disse que não sabia que o jornalista estava falando. Sempre à frente, os j*******s não precisavam se preocupar com nada: o governo já cuidava de tudo. Tony perguntou-se se as explosões dos reatores eram atos terroristas. Não fazia sentido se por acaso fossem — o que um grupo de criminosos queria chamando a atenção dos governos dos países atingidos? Além das relações comerciais, eles não tinham nada em comum. Não que Tony soubesse muito da França, do Japão ou do Brasil... Geopolítica estava além de sua compreensão. De qualquer forma, ele deixou esses pensamentos para trás e focou na janela aberta ao seu lado. Seu dormitório era no segundo andar, o que facilitava muito o treino dos seus poderes. Tony concentrou-se em formar uma bola de vento entre as suas mãos, mas o ar não estava muito paciente com ele (provavelmente devido ao que acontecera no corredor) e isso Tony nunca conseguiu entender direito. Ele definia o vento na maioria das vezes, porém o elemento tinha os seus dias em que estava irritado com quase tudo. O ar era algo imprevisível, não importava os lugares onde Tony estava. Tudo o que as pessoas sabiam sobre as partículas de oxigênio, nitrogênio e outras que compunham a atmosfera terrestre estava errado. Tony sentia o que os meteorologistas jamais chegariam a descobrir. Ele, além de um gênio da computação, era um meteorologista nato. Quando a bola de ar formou-se entre as suas mãos, ele sentiu as partículas de ar contaminadas. Só podia ser uma coisa: a radiação da usina nuclear francesa destruída chegaria à Alemanha em pouco tempo. Precisava avisar às autoridades o que estava por vir. A questão era: a França estava no meio do continente mais povoado do planeta. A radiação se espalhava facilmente pelo ar e em breve estaria em toda a Europa. Como evacuar um continente inteiro? Com os países em crise, a notícia causaria pânico em massa. Revoluções, piores do que o que estava acontecendo no Oriente Médio, se ergueriam. Mais e mais pessoas morreriam. Tony engoliu em seco. Se houvesse um ladrão de urânio capaz de armar aquela confusão toda em três países, ele era um gênio que levaria o mundo a outra guerra mundial. Um gênio do m*l, ele tinha que admitir, mas ainda assim um gênio. — Tony! — exclamou alguém batendo na porta insistentemente. — Sou eu! A garota que lhe ameaçou! Eu preciso falar com você. Tony jogou o vento com que treinava para fora da janela e revirou os olhos. O que aquela menina queria com ele? Levantou-se e ficou encarando a porta, na esperança de que a garota fosse embora e o deixasse em paz. Infelizmente, emoções não era algo que podia controlar. — Meu nome é Jacqueline — a garota disse num tom mais calmo. — Eu sinto muito... hm, pela ameaça. Eu sei que não fez aquilo, só estava zoando contigo. Parece que você não se diverte muito por aqui... De qualquer forma, eu gosto mesmo do que faz nas aulas, acho você incrível. Eu estava pensando se... Bem... Tony ficara vermelho só com o que Jacqueline falara — se a encarasse, não saberia o que dizer. Ele ficou com a mão na maçaneta, em dúvida se devia abrir ou não a porta para a garota, se permitir ter uma amiga pela primeira vez na vida. Sua mente e o seu corpo contrariavam a sua vontade e, para ser sincero, Tony só queria avisar à polícia ou alguém que uma guerra se aproximava. — Penso que já paguei o mico do ano se não estiver aqui — sussurrou Jacqueline. Pela maneira que a sua voz estava abafada, Tony presumiu que sua cabeça estava encostada à porta. — Eu já vou indo... antes que um monitor me pegue. Não posso levar uma detenção. Tony suspirou aliviado ao ouvir os passos de Jacqueline sumirem pelo corredor. No entanto, ele se sentia estranho. Tony percebeu com um pouco de atraso que queria Jacqueline por perto. Ele precisava de uma amiga, e pelo jeito que ela viera até ali arriscando o seu histórico perfeito só para pedir desculpas, parecia que uma companhia também faria bem à Jacqueline. Ele engoliu em seco e, colocando todo o seu orgulho de lado, abriu a porta. Mas antes que pudesse avançar mais um passo, uma luz branca iluminou todo o corredor e Tony caiu desacordado.
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